1. Introdução.
O universo tem uma consistência. Isto quer dizer que as coisas são, de fato, capazes de se relacionar, de causar efeitos, de caminhar para a perfeição e de levar as outras coisas à perfeição. Quando eu levanto a mão, a minha mão se levanta. Não é Deus que levanta a minha mão; sou eu mesmo. Quando alguém atira uma pedra na água, é a energia cinética que esse alguém coloca na pedra que a leva até a água, e é a pedra que bate na água de fato. É certo que Deus é a origem de toda causalidade, no sentido de que ele é o motor imóvel: se a gravidade pode atrair os corpos, isto decorre, em última instância, porque Deus lhe dá a capacidade de provocar esse efeito. Mas é a gravidade que faz com que os corpos se atraiam, não é Deus que, diretamente, o faz.
Veremos, neste artigo, que a criação está organizada de tal modo que as coisas existem, interagem, caminham para a própria perfeição e aperfeiçoam as outras coisas; Deus é o regente, mas é generoso o suficiente para deixar a orquestra tocar verdadeiramente. Sem abrir mão da autoridade de conduzir todos os instrumentos a soar como uma só música.
Vamos ao artigo.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial, que é proposta para provocar o debate, é a de que Deus rege de modo imediato todas as coisas, ou seja, é ele que é responsável pela produção de todos os efeitos que vemos na harmonia do universo, sem que as criaturas exerçam uma atuação mediata nessa orquestra. Há três argumentos objetores no sentido desta hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Segundo Platão, o mundo seria governado assim: haveria um Deus supremo que comandaria o reino das ideias e o grande movimento do universo; haveria deuses secundários, que regeriam o universo material, organizando as coisas contingentes, ou seja, aquelas que surgem e desaparecem no tempo. Finalmente, haveria espíritos (anjos, demônios) que influenciariam as ações dos seres humanos, sugerindo e orientando o livre arbítrio das pessoas. Mas essa opinião de Platão foi expressamente rejeitada por São Gregório de Nissa; portanto, Deus exerce um governo direto e imediato sobre todas as coisas, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Deus não precisa de conselhos, de debates, de raciocínios, de ajuda para fazer o que ele quer. Ele é autossuficiente e completo em si mesmo. Não precisa de assessores, de conselheiros, de interlocutores, porque é capaz de fazer tudo sozinho. Por isso, deve-se afirmar que Deus governa direta e imediatamente todas as coisas do universo, excluindo quaisquer níveis intermediários de gestão, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Sabemos, e até a ciência admite isto, que as coisas são tão mais eficientes quanto mais simples elas forem. Até no trabalho humano é assim: uma empresa funciona melhor com menos níveis de gestão, de tal modo que a proximidade entre as esferas de gestão e as esferas de produção fazem com que ela seja uma empresa mais perfeita. Deus é perfeição e eficiência totais. Nada há de imperfeito, de incompleto, de não eficiente, em Deus. Ora, quando examinamos os governantes terrenos, vemos que é em razão da limitação da capacidade do regente que eles precisam de níveis intermediários, como ministros, servidores ou embaixadores que representem o governante. Deus não precisa de nada disso. Assim, ele governa direta e imediatamente todas as coisas, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
Existe uma grande hierarquia nas coisas criadas. De fato, os inanimados são dominados pelos seres vivos, e existem para dar-lhes substrato. Dentre os vivos, os mais simples servem de alimento e sustento aos mais complexos, e os irracionais são dominados pelos racionais. Com relação aos seres racionais, vemos que seus corpos são dominados por suas almas, as coisas materiais são regidas pelas imateriais e os rebeldes, pelos justos. Assim, completa Agostinho, os seres justos e tementes a Deus são regidos pelo próprio Deus. Vemos, portanto, que a regência do Universo envolve instâncias, hierarquias e participações, de tal modo que nem tudo ocorre por força da regência direta e imediata de Deus, conclui o argumento, contrariando a hipótese inicial e os argumentos objetores iniciais.
5. Encerrando por enquanto.
A importância deste debate é fundamental: imaginemos que, se é Deus quem rege, sozinho e diretamente, todas as coisas, então realidades como a Igreja são dispensáveis, os sacramentos não são canais reais para a graça, e a própria encarnação de Jesus perde o sentido: ninguém precisaria de um mediador para a salvação, porque Deus mesmo poderia realizá-la diretamente em cada pessoa. No fundo, a família, o Estado, as instituições sociais, seriam não somente dispensáveis, mas verdadeiramente ilusórias e até maléficas: restaria, por um lado, o indivíduo, e, por outro lado, Deus. Nenhuma fonte intermediária de gestão seria admissível. Este é um pensamento bem difundido em nosso tempo. O que demonstra, de novo, o profetismo de Tomás.
No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás, que nos demonstrará a verdade sobre este assunto.
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