1. De volta para encerrar.
Deus cria, mantém e conduz ao fim. Eis a estrutura básica da realidade. Deste modo, o milagre não é uma “quebra de leis naturais”. Nem a correção de alguma imperfeição na criação, como se Deus fosse um artesão inábil. A criação não tem imperfeições deste tipo; o Criador é infinitamente existente, infinitamente inteligente e infinitamente poderoso. O milagre é, então, um sinal da relação pessoal e direta de Deus com a natureza, um Deus pessoal se relacionando com suas criaturas pessoais, num universo regido pelo amor, não por mecanismos cegos.
Há outro ponto a ressaltar: a transcendência divina, a alteridade de Deus, determina que ele não concorra, em causalidade, com suas criaturas: a causalidade divina, que é a causalidade primária, é a causa da própria causalidade criatural (causalidade secundária). Mas as criaturas têm uma causalidade verdadeira, embora derivada. Deste modo, Deus é capaz de harmonizar a liberdade da criatura inteligente, por um lado, com seus próprios planos para a criação, que não podem ser frustrados. Isto se dá porque Deus é Deus, e não uma coisa entre as coisas. Deus não está limitado por tempo e espaço, nem por uma mente raciocinante. Ele é possuidor de uma vida plena, absoluta, na qual pode pensar tudo simultaneamente e ver tudo simultaneamente, ao tempo em que suas criaturas (mesmo as criaturas puramente espirituais, como os anjos) possuem mentes lineares, limitadas, capazes de dar conta de apenas um pensamento de cada vez. Assim, não há concorrência entre a liberdade de Deus, que é mensurante, e a liberdade criatural, que é mensurada. Somos livres apenas quando enxergamos livremente a finalidade das coisas e nos dirigimos a ela por nossos próprios passos, com nossa própria vontade. Deus é livre porque ele próprio é o fim.
Portanto, também o modo pelo qual as criaturas estão submetidas à regência divina muda. Os inanimados o são de modo estritamente passivo. Os seres vivos têm atividade; melhor dizendo, os seres vivos desprovidos de inteligência são mais propriamente descritos como “sendo agidos” do que como agindo. Muito mais são conduzidos (instintos, inclinações, determinações naturais) do que conduzem. Mas nós, criaturas inteligentes, percebemos que o amor é a finalidade e nos conduzimos a ela por amor – eis a nossa liberdade. A chave, portanto, não é o poder, mas o inescapável amor, ao qual se chega amando ou se rejeita morrendo para a vida eterna.
Mas deixemos de digressões teológicas e examinemos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento cita Eclesiastes 9, 11: “Nas minhas investigações debaixo do sol, vi ainda que a corrida não é para os ágeis, nem a batalha para os bravos, nem o pão para os prudentes, nem a riqueza para os inteligentes, nem o favor para os sábios, porque todos estão à mercê das circunstâncias e da sorte”. Ora, o que depende do acaso e das circunstâncias não está sendo conduzido por algum governo ou regência, mas caminha de modo fortuito. Logo, as coisas contingentes do mundo material (que a passagem bíblica menciona como “as coisas que há debaixo do sol”) não se submetem a alguma regência divina, mas são fortuitas, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Quando as Escrituras falam, aqui, das coisas “que estão debaixo do sol”, ela está fazendo referência à dinâmica das coisas contingentes, daquelas coisas que são geradas, existem e se corrompem ao longo do tempo. Estas coisas não possuem em si a razão de existir: elas existem porque Deus as criou e mantém na existência, e elas existem e subsistem na relação com aquilo que há em torno delas – é neste sentido que as Escrituras as descreve como “aquelas coisas que existem debaixo do sol”. Por isso, elas não possuem permanência: tendem sempre a desaparecer, tendem ao nada. Neste sentido, é inegável que elas trazem em si a marca da aleatoriedade, da circunstância, do acaso: elas sempre poderiam não ter existido, poderiam existir de outra maneira e fatalmente, um dia, não existirão mais.
Neste sentido, sua contingência, sua tendência ao nada, sua aleatoriedade, apontam para a necessidade de que haja um regente universal, um governante que contrarie a tendência ao nada e dirija tudo para o bem, para a realização plena, para a coordenação que permite que o universo exista, seja inteligível e tenha uma finalidade. Assim, é justamente na coordenação entre a contingência, a liberdade dos seres inteligentes e o automatismo dos instintos dos brutos que se mostra claramente a mão de Deus regendo o universo, regendo cada coisa com respeito à própria natureza daquilo.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento lembra que o próprio São Paulo registra, em 1 Coríntios 9, 9, que “Deus não cuida de bois”. Ora, quem rege uma realidade cuida de todos os entes que estão abrangidos por aquela realidade. Se Deus não cuida de bois, é porque nem todas as coisas estão entregues ao seu governo, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Governar é influir no rumo daquilo que é governado, define Tomás, citando Aristóteles. Aquele que governa move, transforma a realidade de tudo aquilo que é governado. Ora, nem todas as coisas são transformadas, são influenciadas ou são movidas do mesmo modo. Um é o modo pelo qual se governa as coisas inanimadas, outro é o modo pelo qual se governa os seres vivos não dotados de inteligência, outro ainda é o governo dos seres inteligentes. Não se pode concluir que Deus criou tudo e simplesmente estabeleceu algum mecanismo automático no universo, de tal modo que sua regência já fosse desnecessária. Esse mecanicismo, que leva a um deísmo, ou seja, a uma visão de um Deus distante, indiferente, alheio a uma criação rigidamente determinista, é falsa. O fato de que o modo de reger as coisas varia em razão da diferença na natureza das coisas regidas não pode ser um argumento contrário ao governo divino, mas justamente o contrário: prova que o universo não é um mecanismo determinista e automático, mas uma grande orquestra regida por um maestro amoroso e sábio.
Assim, para governar criaturas dotadas de inteligência, é necessário atraí-las, levá-las a agir livremente, encaminhá-las ao bem por meio do sabor do amor, fortalecê-las pela graça, estimulá-las por preceitos e exortações, e afastá-las do mal pelo desgosto, pela desolação, por preceitos e normas que desestimulem o caminho do mal, da destruição, da incompletude, da perdição, que é o caminho contrário à liberdade.
Mas, quanto aos inanimados, resta a interação pelas leis da física, a condução pela força dos anjos; mesmo os seres vivos que não são inteligentes não se submetem a estímulos de preceitos e normas, porque, como diz Tomás, não são propriamente seres agentes; são mais como agidos, ou seja, sofrem passivamente a condução de Deus em si. É por isso que São Paulo menciona os bois nessa passagem bíblica: de fato, os preceitos, exortações, normas e proibições de Deus não se dirigem aos animais, porque eles não são regidos dessa maneira, mas apenas aos seres humanos.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor envolve a ideia, de raiz anárquica, de que há oposição entre a liberdade individual e a condução governamental para o bem comum. O argumento propõe que a criatura inteligente não precisa ser governada, porque é capaz de caminhar por si mesma e dominar seus próprios atos livremente. Assim, só haveria razão para falar de “regência divina” quanto às coisas inanimadas e quanto aos seres irracionais, mas não com relação aos seres inteligentes e livres, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
De fato, a criatura racional, como nós humanos, é capaz de reger seus próprios atos e de se dirigir livremente ao fim; mas isto não exclui a regência de Deus, que não está no mesmo plano da prudência individual. Na verdade, a própria virtude da prudência individual, que é individual, pressupõe a existência do governo divino e sabe-se submetida a ele, porque sabe que seus próprios objetivos são muito mais claramente conhecidos por Deus do que por ela mesma; ademais, como não existe sozinho no mundo, todo indivíduo precisa estar inserido na sua comunidade, que, por sua vez, se insere na própria comunidade universal. Assim, a prudência, pela qual a criatura inteligente se rege, pressupõe e reconhece a regência de Deus e confia nela para alcançar seus próprios objetivos.
3. Concluindo
A riqueza admirável do amor de Deus rege cada coisa com respeito à sua própria natureza, e coordena todas as coisas, as inanimadas, as vivas e as inteligentes, de tal modo que, respeitadas suas naturezas, todas e cada uma possa alcançar seu próprio bem, e todo o universo possa alcançar o bem universal. É no reconhecimento dessa condução maravilhosa e sábia do universo que podemos atingir nossa própria liberdade, inserindo-nos confiantemente naquela regência da que nada escapa, e da qual não é bom escapar – fora do amor não há alternativa.
Assim, a resposta é: sim, Deus rege todos os seres, cada um a seu modo, e os conduz ao fim.
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