1. Retomando.

Será que Deus rege todas as coisas da mesma maneira? Será que a liberdade humana fica ameaçada ou prejudicada pelo governo e pela providência divina? Será que os seres vivos são apenas máquinas muito bem programadas para funcionar sem depender de um “operador”? Será que, num mundo com tantas tragédias naturais e morais, não seria mais fácil imaginar que tudo ocorre por mero acaso e aleatoriedade, sem uma mão pessoal, amorosa e poderosa a conduzir?

São muitas perguntas, e demonstram que esta noção de que Deus rege todas as coisas não é tão simples, quando olhamos para Deus a partir das coisas. Examinemos agora a resposta de Tomás quanto a este assunto tão importante.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Não podemos pensar no governo de Deus do mesmo modo que pensamos nos governantes e regentes deste mundo. Deus governa e rege porque transcende o mundo, e mais do que isto, porque é o criador de tudo.

Criar é fazer existir, manter na existência e conduzir ao fim.

Não podemos, porém, pensar na criação como um artesanato. Deus não é um fabricante de seres, que produz máquinas automáticas capazes de subsistir independentemente dele, como um ceramista que apanha argila e faz um pote. Deus cria a própria argila, e ela existe porque ele quer. E ele não cria separadamente as coisas que existem hoje – elas surgem por geração, mas a própria geração foi criada por ele. Portanto, criar significa mais do que manufaturar: significa querer que exista, querer que subsista e querer que caminhe para a perfeição. Essas três dimensões são inseparáveis entre si, e caracterizam toda a obra de Deus na sua Criação: ele criou todas as coisas, ele as mantém na existência e ele as conduz à perfeição. Tudo o que existe na natureza é criatural, e portanto tudo se submete a ele para existir, para subsistir e para caminhar até seu fim. Nada está fora disso. É neste sentido que Tomás nos ensina que Deus é a causa universal dos seres: é causa de que eles sejam, de que eles subsistam, de que eles possuam verdadeira capacidade causal e de que eles caminhem para seu próprio fim, que está em Deus.

Portanto, conduzir as coisas a seu fim é parte da relação de Deus com sua criação; ele é o criador universal, o mantenedor universal e o regente universal. Somos nós, os seres humanos, que separamos mentalmente aquilo que, na verdade, é inseparável: existir, subsistir e caminhar para o fim.

A regência de Deus inclui a dinâmica interior da criação.

Ora, como vimos em artigos anteriores, o fim da criação é participar no bem universal, que é o próprio Deus. Ora, ninguém nem nada pode chegar a esse fim se o próprio Deus, que o criou e mantém na existência, não o conduz até lá. Esta é uma verdade universal. Portanto, nada existe e subsiste, no universo, que não esteja submetido a esta mesma lógica. Em suma, nada se subtrai à regência divina.

Assim, é estupidez, diz Tomás, imaginar que alguma coisa seja efêmera ou aleatória demais para não estar incluída na regência divina, ou ainda que ele não se preocupa com as coisas particulares ou que não se intromete nos assuntos que envolvem a liberdade humana. Deus é poderoso o suficiente para que seus planos, sua regência maravilhosa, inclua os casos fortuitos, a efemeridade, a aleatoriedade das coisas particulares, a liberdade humana e a contingência das ocorrências históricas, de modo que tudo esteja incluído no caminho para o bem, que é ele mesmo. Também aqui a mente humana pode se enganar, porque não consegue alcançar essa grandeza, essa coordenação transcendente. Mas ela é certa, é segura, é amorosa e abrange tudo.

3. Encerrando.

Deus não está no mesmo plano que suas criaturas. Não concorre nem com o acaso, nem com o fortuito, nem com a causalidade criatural, nem com a liberdade humana. Como um maestro maravilhoso, ele é capaz de integrar cada consonância e cada dissonância em sua sinfonia, para que a música resulte exatamente como ele queria.

No próximo texto veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.