1. Introdução.

Deus rege o mundo. E o faz visando o bem universal que é transcendente ao mundo criado porque é Ele mesmo. Deus cuida do bem do universo, e cuida do bem de cada coisa. Isto ficou claro nos debates anteriores.

Agora, nosso debate envolve os súditos, ou seja, quer determinar quem está, no universo, sujeito à regência de Deus e de que modo. Importante saber, porque há aqueles que acreditam que a chave não está em amar a Deus, mas em submeter-se a ele, mesmo odiando-o; de tal modo que se estabelece uma oposição entre a liberdade humana e a submissão a Deus, e toda religião passa a ser vista como ameaça ao ser humano. Ao contrário, se Deus rege amorosamente o mundo, e se sua graça pressupõe e eleva a nossa natureza, sem violá-la, a uma felicidade que ela não é capaz de alcançar naturalmente, e que pode livremente rejeitar, então a regência de Deus não somente não se opõe à liberdade, como é a única forma de realizá-la plenamente.

Quem e o que está sujeito à regência de Deus? Vamos debater exatamente este tema, agora.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial, aqui, para começar o debate, é a de que nem todas as criaturas estão submetidas à regência divina. Existiriam coisas, situações ou pessoas que não se sujeitariam ao governo de Deus. Quais seriam essas coisas, e em quais situações, é o que veremos a seguir, nos argumentos objetores.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que o governo, a regência realizada por alguém que conduz todas as coisas, é uma noção que se opõe à noção de acaso e aleatoriedade. Este é, portanto, o argumento do acaso.

As Escrituras nos ensinam, diz o argumento, em Eclesiastes 9, 11, que o acaso e o caso fortuito estão presentes em todas as realidades cotidianas. Diz este versículo: “vi que a corrida não é para os ágeis, nem a batalha para os bravos, nem o pão para os prudentes, nem a riqueza para os inteligentes, nem o favor para os sábios, porque todos estão à mercê das circunstâncias e da sorte”. Ora, aquilo que está submetido a regência não ocorre por acaso ou circunstância, mas de acordo com a vontade do regente. Assim, fica claro que as coisas cotidianas não estão submetidas ao governo divino, mas às circunstâncias e ao acaso, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Há outra passagem das Escrituras que parecem indicar que Deus não se ocupa com todas as coisas. Este é o argumento da importância: Deus só cuidaria das coisas mais importantes. De fato, diz o argumento, em 1 Coríntios 9, 9, São Paulo nos pergunta: “por acaso Deus se ocupa de bois?” Ora, quem é regente se ocupa de tudo aquilo que lhe está submetido. Portanto, devemos concluir que nem tudo está submetido ao governo de Deus, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Aqui está, agora, o argumento da autonomia da liberdade humana, que é tão caro aos que acham que o governo de Deus seria algo oposto à liberdade humana.

Quem pode decidir, escolher, quem pode se governar, não precisa ser governado por outro. Ora, prossegue o argumento, nós, humanos, somos dotados de livre arbítrio e até mesmo da capacidade de nos organizarmos em comunidade, sem necessidade de nenhum governo divino. Temos o domínio de nossos atos, tanto que podemos ser responsabilizados por eles. Assim, mesmo que admitíssemos que Deus conduz o mundo, quanto às leis naturais e às coisas irracionais, ele não teria que governar as criaturas livres e inteligentes. Assim, nem tudo se submete ao governo divino, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra cita Santo Agostinho, que, na obra Cidade de Deus, diz que Deus não deixou sem conveniência de partes e sem uma espécie de paz o céu e a Terra, o anjo e o homem, e mesmo as entranhas do mais vil animalzinho, a asinha da ave, a florzinha da erva, uma folha de árvore. Assim, conclui o argumento, todas as coisas, das maiores às menores, das inanimadas às inteligentes, tudo está sujeito ao seu governo.

5. Encerrando.

Às vezes, lendo estes artigos de Tomás que tratam de assuntos que, para nós, não parecem ser problemáticos, eu fico um pouco impaciente para chegar logo às conclusões. Mas não é assim que Tomás age: ele vai de modo ritmado, sem pular etapas, até que as suas conclusões sejam sólidas. E isto é muito importante. Aqui, por exemplo, estão em jogo dois temas muito relevantes para a nossa contemporaneidade: o papel do acaso na dinâmica do mundo e a liberdade humana frente a providência divina.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás.