1. Retomando.
Deus cuida de tudo; desde o fim comum, que é o bem universal, até a providência com cada coisinha que acontece entre suas criaturas. Isto não significa que ele seja um grande manipulador do universo: as coisas criadas têm sua consistência, seu poder de causalidade, e a providência não concorre com elas. Na verdade, a providência e o governo divinos estão em outro plano muito mais elevado do que aquele da causalidade das criaturas – e até mesmo da liberdade das criaturas. Deus não é um ditador zangado, que vigia e pune quem eu desobedece: ele é um pai amoroso, capaz de fazer justiça, capaz de exercer sua liberdade a partir da liberdade criatural. Ele está, portanto, em outro plano de existência, que não é estranho às criaturas, mas que leva em conta as criaturas para atingir seu próprio fim. Isto é complexo e difícil de entender, mas muito belo: explica nosso relacionamento, o relacionamento do universo todo, com Deus.
Examinemos agora as respostas de Tomás ao tema proposto.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Com seu habitual didatismo, Tomás explica que há três maneiras de entender a noção de “efeitos da regência do mundo” por Deus:
1. Quando olhamos a partir da finalidade de todas as coisas, o efeito do governo é um só: fazer com que todo o universo, e cada uma das criaturas, sejam assimiladas ao sumo bem, que é o próprio Deus. Ou seja, a perfeição de toda criatura, bem como de todo o universo, consiste na mesma e única coisa: chegar a ser aquilo ela é em Deus. Neste sentido, o governo do mundo tem um só e o mesmo efeito, porque um só e o mesmo é o fim de tudo.
2. A outra maneira de olhar é o percurso, o modo pelo qual as criaturas atingem sua finalidade, que é a perfeição do ser em Deus. Aqui, diz Tomás, quanto à dinâmica, ao percurso das criaturas ao bem, há duas dimensões a serem consideradas: 2.1) a existência da criatura, quer dizer, a sua geração que atualiza uma essência, é um bem, e portanto já é uma participação no bem universal que é Deus. A manutenção dessa existência é efeito do governo de Deus, e é um efeito dinâmico e não estático. Cada coisa que existe é mantida na existência, a cada momento, porque Deus está em ação, operando para que ela exista. Par usar de uma metáfora, poderíamos dizer que cada existência é como uma longa nota que um violinista produz em seu instrumento: se ele parar de friccionar o arco nas cordas, a nota deixa de ser emitida. Assim, se Deus não estivesse regendo o mundo, mantendo nas coisas a bondade que eles são, elas simplesmente não existiriam. E 2.2) As próprias coisas, que são boas em sua existência, interagem entre si para conduzir-se reciprocamente à perfeição. Ora, todo bem que as criaturas possuem, como vimos, é dom de Deus, e se mantém dinamicamente pela regência de Deus. A capacidade de que uma criatura possa conduzir a outra à perfeição também é um dom de Deus, que concede às criaturas a capacidade de causalidade real, mas secundária com relação à causa primeira que é o próprio Deus. Assim, a dinâmica pela qual as coisas interagem e se aperfeiçoam reciprocamente também é efeito do governo de Deus.
Portanto, quanto ao fim, a regência de Deus tem um efeito: ser o fim de tudo. Quanto ao processo de aperfeiçoamento, a regência de Deus tem dois efeitos: 1) manter as coisas no bem e 2) capacitá-las ao aperfeiçoamento dinâmico recíproco, quer dizer, dar-lhes capacidade de interagir e de causar o bem uns nos outros.
Há um terceiro modo pelo qual podemos considerar os efeitos do governo divino sobre o universo: seu cuidado particular e especial com cada ente, que ele criou e ama, e conduz amorosamente. Neste caso, quanto aos fins particulares, os efeitos são incontáveis.
Assim, a partir da finalidade, o efeito é único: ser exatamente o fim de todas as coisas.
A partir da dinâmica do ser, o efeito é duplo: conservar no bem e mover para o bem.
A partir do amor e cuidado pelas coisas todas, os efeitos são incontáveis.
3. As respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento afirma que o efeito é causado naquilo que é regido, por aquele que rege. Ora, reger é fundamentalmente ordenar; como se vê, por exemplo, na ordem que o general impõe ao exército. Logo, o efeito único do governo do mundo é a ordem nas coisas, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Como vimos na resposta sintetizadora, a partir da dinâmica do universo vemos que colocar ordem nas coisas envolve duas dimensões: conservá-las existindo, porque são boas, e movê-las à perfeição, que é o fim delas. A dinâmica em si revela a ordem do universo: aqui, as coisas caminham em graus diferentes de perfeição, na sua pluralidade, e interagem de tal modo que podem conduzir umas às outras a alcançar os próprios fins. Ou seja, a ordem, em sua riqueza, envolve a conservação e a causalidade das coisas, na caminhada para a própria perfeição.
Os demais argumentos objetores.
O segundo argumento objetor é aquele que olha a regência a partir do regente: ele diz que um ser procede de outro assim como ele é. Ora, se há apenas um regente, então apenas um deve ser o fim, conclui o argumento.
O terceiro vai no sentido oposto: olha a regência a partir da pluralidade de coisas que estão sujeitas ao governo divino. Neste caso, diz o argumento, seria impossível contar os efeitos, porque eles seriam tantos quantas são as coisas que existem, existiram ou ainda existirão; logo os efeitos são incontáveis, conclui o argumento,
A resposta de Tomás.
Tomás considera que já respondeu suficientemente a estes argumentos na resposta sintetizadora: a partir da visão do regente, há de fato apenas um efeito: conduzir tudo ao bem universal. A partir de cada coisa regida, os efeitos são de fato inumeráveis. Mas uma coisa não exclui a outra: são pontos de vista diferentes.
4. Concluindo.
Deus rege o universo em todas as dimensões: na sua totalidade, na sua existência, nas suas relações, na sua causalidade recíproca e na individualidade das coisas.
Mas será que todas as coisas estão submetidas ao seu governo amoroso? É o que veremos no próximo texto!
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