1. Introdução.

Não é difícil conceder que Deus governa o universo quanto à sua finalidade última e comum, que é o bem universal. Isso parece bem amplo e abstrato, como se Deus fosse uma espécie de “Rainha da Inglaterra” encarregada de simbolizar a unidade da coletividade universal quanto à sua finalidade transcendente no sentido do bem. Mesmo o mais desatento dos crentes, ou até mesmo os deístas mais desligados de Deus, estariam dispostos a admitir uma providência distante e abstrata assim. Admitir que há uma certa finalidade do universo, transcendente e perfeita, para a qual Deus nos conduz e nos guia, coletivamente, pode ser um bom começo e, de fato, é verdade. Mas é muito pouco: Deus é grande o suficiente para haver criado o universo e para dirigi-lo, de modo unitário e indivisível, como coletividade, à perfeição do bem universal e transcendente. Mas isto não é tudo.

Se Deus é aquele que não tem restrições nem encontra limites ao seu poder, ou seja, se ele é realmente infinito em poder e amor, ele deve conseguir cuidar não apenas de uma coletividade universal e comum, como o conjunto de todas as coisas que compõem o universo. Ele também é capaz – e efetivamente o faz – de cuidar de cada detalhe de suas criaturas, desde a mais infinitesimal partícula subatômica até as grandes galáxias; cada ser vivo, a mais insignificante bactéria, a plantinha mais imperceptível, e até mesmo as grandes baleias; cada ser inteligente, cada ser humano, cujas fibras mais íntimas ele conhece, cujos pensamentos ele prevê e acompanha antes mesmo de se formarem nas mentes humanas (ver Salmo 138(139)). Nenhum detalhe por menor que possa parecer, pode escapar do seu conhecimento e de sua providência amorosa, porque nada pode ser pequeno demais para merecer sua atenção e seu cuidado amoroso. E isto é, convenhamos, muito mais difícil de aceitar para o orgulho humano. Não um Deus “Rainha da Inglaterra”, mas um Deus dono de casa e de família.

Este é o tema que vamos discutir agora. Será que Deus rege o universo apenas quanto à condução de todas as coisas, coletivamente, ao seu bem universal e comum? Será que este é o único efeito de sua regência? Ou será que ele pode realmente se importar com cada detalhe de tudo o que acontece as imensidão de sua Criação?

Vamos ao debate.

2. A hipótese controvertida inicial.

Como nós já vimos, todo debate na Suma, em cada artigo, começa com a proposição de uma hipótese que é polêmica, e, portanto, é capaz de iniciar o diálogo para atingir uma solução adequada ao problema proposto. No presente caso, a hipótese é a de que a regência do mundo visa atingir apenas um efeito, e não efeitos plúrimos. Ou seja, somente se pode esperar que a regência do mundo se encarregue de levar o universo ao seu fim transcendente, comum, e não que interfira nos processos singulares, particulares, de cada coisa existente no universo. Há três argumentos objetores iniciais que tentam comprovar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O que pode ser definido como “efeitos” de uma regência ou gestão? Em primeiro lugar, esses efeitos podem ser definidos como aquilo que é diretamente causado pelo regente ou governante nas coisas governadas. Mas há apenas um efeito que o governante causa diretamente nas coisas governadas: é o bem da ordem, como podemos ver num exército: o general em comando não instrui pessoalmente cada soldado, não o treina nem o controla pessoalmente, mas ordena o corpo coletivo de soldados para a ordem que determina a vitória na batalha, de tal modo que um exército sob um mau general lutará desordenadamente e não vencerá a guerra. Assim, também no comando do universo há apenas esse efeito, a imposição de uma ordem comum que faz o universo funcionar em harmonia. Logo, a regência do universo causa apenas um efeito, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Assim como são as causas, assim são os efeitos. Ora, da unidade só pode proceder a unidade. Assim, se é um o governante, apenas um deve ser o efeito de seu governo. Portanto, a regência do universo envolve apenas um efeito, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Se o regente é um só, e os efeitos do seu governo não o são, então o que determina a finalidade do seu governo não é a unidade do governante, mas a multiplicidade das coisas governadas. Mas se o fator que determina os efeitos desse governo é a multiplicidade das coisas, temos que reconhecer que, para nós, as coisas, não são apenas múltiplas: elas são simplesmente incontáveis, indeterminadas em número. Isto significa que a regência do mundo seria, na verdade, dispersiva, sem sentido, ininteligível e indeterminada, sem rumo certo, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra procura uma posição média, a partir dos ensinamentos do Pseudo-Dionísio. De fato, segundo Dionísio, a providência divina envolve todas as coisas e implementa nelas sua perfeição. Ora, o governo do universo envolve também a providência divina – conduzir o universo para a sua finalidade e providenciar para as coisas em particular. Assim, há alguns efeitos determinados para a regência do universo, conclui o argumento sed contra.

5. Encerrando por enquanto.

No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás e o tratamento que ele dá aos argumentos iniciais.