1. Retomando para terminar.
Há, portanto, dois aspectos a serem ressaltados neste artigo, como vimos nos textos anteriores: o primeiro, podemos dizer, é indutivo: observando a unidade, a harmonia, a uniformidade do universo, a unidade de suas leis, confirmada pela ciência moderna, chegamos à intuição de uma regência única, um condutor que é capaz de dirigir o universo até a sua finalidade, que é o bem comum, universal: ele mesmo, neste caso.
O segundo seria mais dedutivo: partindo da realidade da Trindade, um só Deus em três pessoas, podemos deduzir que a unidade na regência não é tirania nem absolutismo, mas segurança, harmonia, doação, amor recíproco, evitando-se a dispersão, os particularismos, a dissolução que aguarda os reinos desunidos.
Com estes princípios em mente, examinemos agora os argumentos objetores iniciais e as respostas que Tomás nos propõe.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor usa justamente a lógica da indução. Trata-se, diz o argumento, de examinar a criação, para verificar se existe harmonia e unidade no seu interior. Mas essa harmonia não existe, diz o argumento. De fato, há, na criação, diferentes características e modos de ser entre as criaturas, de tal modo que algumas existem necessariamente, outras são contingentes, outros, ainda, são inanimados ou vivos; cada um, portanto, tem sua própria finalidade de existir. Assim, não há a uniformidade que permitiria concluir que o universo criado é regido por um só condutor, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A dinâmica de cada ente, de cada criatura, em sua transformação existencial, é um ato seu, ou seja, da própria criatura, que se move em busca da própria perfeição. Não há dúvida de que Deus, como motor imóvel, concede a cada criatura a energia para mover-se, ou seja, é a causa última de que haja uma dinâmica criatural. Mas é a própria criatura que se move, e esse movimento obedece à natureza de cada criatura, e não do motor imóvel. Se Deus não tivesse, por exemplo, criado e animado o leão, e não o mantivesse na existência e na vida a cada momento, concedendo-lhe o poder de se mover, o leão não caçaria a zebra. Mas, quando o leão caça a zebra, é o próprio leão quem o faz, não é Deus que está caçando.
Portanto, a diversidade da dinâmica das criaturas, o fato de que elas são plúrimas em seu agir e em seu ser, não é uma prova de que a própria condução do universo ao bem universal e comum seja plúrima. Essa condução é una, harmônica e uniforme, o que mostra que também o condutor o é.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor tenta negar a harmonia no universo. De fato, nos reinos que são bem governados por um governo único, central, têm harmonia nas relações, desde que o governo seja sábio, eficiente e disponha de poder suficiente para se impor. Ora, não podemos pressupor que Deus não seja perfeitamente sábio, eficiente e com poder suficiente para impor seu próprio governo.
Ocorre que o universo não é harmônico: vemos as coisas surgirem e serem destruídas, catástrofes naturais, seres que são naturalmente adversos entre si, como predador e presa, por exemplo. Assim, o universo não está submetido à regência una de Deus, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Precisamos, aqui, fazer uma distinção entre os fins próximos dos entes, das criaturas, por um lado, e o fim comum do universo. Cada criatura tem sua própria finalidade, sua razão de ser, e busca seu próprio fim. Mas o universo como um todo tem uma finalidade universal, comum ao conjunto inteiro dos entes. Ora, os fins particulares dos entes não se opõem ao fim universal, comum, e isso só pode ser obra de um regente único, conclui Tomás.
O terceiro argumento objetor.
A natureza sempre tende a ficar mais eficiente, ou seja, a desenvolver o melhor meio de resolver os problemas que surgem na sua dinâmica. Ora, sabemos que duas cabeças pensam melhor do que uma, como ensina o Eclesiastes 4, 9. Portanto, é mais eficiente o governo de vários do que o de um só, pelo que devemos concluir que a natureza não é regida pelo governo de um só, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Antes de examinar a resposta de Tomás, que é simples, permitam-me uma digressão: nesta hipótese está um indicador de que a Trindade é algo realmente espetacular, porque é a reunião de três que são um só. É interessante notar que o próprio Livro de Eclesiastes 4, 12, aponta que ainda melhor do que duas cabeças é um “cordão triplicado”. É uma passagem que deveria ser ininteligível quando foi escrita, já que o Eclesiastes não tinha nenhum conhecimento daquilo que somente em Jesus se revelou como Trindade. O fato é que a Trindade econômica, ou seja, a relação de governo da Trindade sobre a criação, responde às duas dimensões: é um governo plural, múltiplo e dialogado, e ao mesmo tempo é um governo unitário, sem se tornar autocrático ou ditatorial.
Assim, precisamos fazer uma distinção entre um governante que busca um só fim, o bem comum da coletividade, de modo indiviso e integral (o que é justamente o papel do bom governante, na visão de Tomás), daquele outro governante que é ditatorial ou autocrático, e que usa o poder de mando para impor seus próprios fins à coletividade, sem ouvi-la, sem amá-la, sem se importar, no fundo, com ela. No primeiro caso, é preciso que o governo seja unitário, uno, para conduzir a coletividade ao bem comum (ou ao bem universal, neste caso). No segundo caso, o governo é necessariamente uno, mas abusa do poder para impor seus próprios interesses em vez de buscar o bem comum. Não é disso que estamos falando, aqui.
Na verdade, como Tomás ensina, quando falamos dos bens particulares, ou seja, do bem de cada um, é bom que a gestão seja plúrima: neste caso, cada bem será perseguido de modo particular, individualmente ou coletivamente. Mas quando se trata do bem universal (que, como vimos, é o próprio Deus), o regente e a finalidade se confundem perfeitamente: são a mesma coisa. Não há, portanto, nenhuma maneira de aumentar esse bem, ou seja, a ideia de que mais gestores serão um bem maior é inaplicável aqui: Deus já é infinitamente bom, e por isso não há sentido em imaginar que somar alguma coisa a Deus seria melhor.
No caso, portanto, da gestão universal, em que o gestor e a finalidade da gestão são o próprio Deus, que é bondade infinita, nunca ocorreria um desvio ditatorial no sentido de que o regente pudesse usar egoisticamente o poder para buscar algum fim particular distinto do bem universal comum: ele próprio é o bem universal comum. Em suma: não dá para melhorar Deus.
Aliás, salvo engano, foi exatamente sob este pretexto que a serpente enganou Adão e Eva, no paraíso. Mas já estamos nos alongando demais e fugindo da resposta de Tomás.
3. Concluindo.
Por fim, uma palavrinha sobre a analogia. Já vimos que Deus é o bem absoluto e o gestor único e uno da criação. Isso, é claro, diz respeito ao sentido próprio da ideia de reger a criação. Em sentido participativo, derivado, analógico, todos nós, anjos e seres humanos, somos também regentes da criação. Mas sempre regentes submetidos a Ele. Alguns estão sob a regência de Deus porque o amam e querem colaborar criativamente na busca do bem universal. Outros, mesmo se o odeiam, desprezam ou ignoram, não escapam da regência universal, mas não colaboram com ela. Não conseguem, porém desviar os planos de Deus: ele é capaz de tirar, do mal que permite, um bem ainda maior para o seu reino. Ou, como dizia Jesus, “Aquele que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar assim aos homens, será declarado o menor no Reino dos Céus. Mas aquele que os guardar e os ensinar será declarado grande no Reino dos Céus”. Sempre me encantou o fato de que o reino dos Céus não exclui ninguém.
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