1. Retomando.

A uniformidade das leis físicas é uma descoberta extraordinária da ciência moderna; não foi prevista por Aristóteles, pela filosofia clássica e medieval nem pela teologia. Talvez pequenos incidentes tecnológicos, como a invenção da luneta, tenha levado os homens do Renascimento a essa reflexão bela e muito verdadeira de que as mesmas leis nos regem e regem todo o universo. Ora, os antigos e os medievais acreditavam na existência de um quinto elemento, completamente diferente dos quatro elementos terrestres (fogo, água, ar e terra) que estaria submetido a leis físicas próprias e diversas das leis do mundo terrestre. Haveria, para eles, dois grandes regimes no universo: o terrestre e o celeste.

Hoje, sabemos que não é assim. Os elementos fundamentais do universo, criados por Deus, estão presentes na Terra e no espaço, e as mesmas leis regem o universo inteiro. Isto torna ainda mais sólido o argumento de que a regência do universo é una: um só regime, uma só lei, um só Deus. E essa lei é o amor, como nos diz 1 Jo 4, 8. Não há como explicar tamanha harmonia universal, tamanha uniformidade, senão regida por um imenso amor pessoal.

Mas estamos mais uma vez nos adiantando a Tomás. Estudemos, agora, a resposta sintetizadora que ele próprio nos apresenta.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

É justamente este o caminho que a resposta de Tomás vai adotar: há uma unidade impressionante, na harmonia do universo. Essa unidade, como vimos no artigo anterior, encaminha o universo à sua finalidade, que é o bem absoluto. Temos que admitir, portanto, que essa finalidade, regida com essa harmonia, não pode provir de uma regência dividida, duplicada ou multiplicada: é preciso que haja uma unidade nessa condução.

A noção de unidade, que tratamos aqui, não é matemática, mas metafísica. Na matemática, a unidade é medida de individualidade, de quantidade, e convive com a multiplicidade e com a pluralidade, com a soma e com a divisão. Mas na metafísica a unidade implica a inteireza, a indivisibilidade, a solidez que subsiste como algo. Por exemplo, um copo pode reter água porque é uno, está inteiro; um copo quebrado não é um bom copo. É neste sentido que Boécio diz que o uno é a marca do que existe: tudo o que existe, para existir, deve ser uno. A unidade, no sentido da inteireza, da indivisibilidade, é o bem fundamental das coisas que existem.

Assim, falamos dos transcendentais do ser: o ser é uno, sob o aspecto da sua integridade metafísica, e o ser é bom, na medida da sua unidade. Assim, como finalidade, o ser busca o bem com unidade.

Por isso, a condução para o bem deve ser una também: um reino dividido não se sustenta, como Jesus nos ensina (Mt 12, 25).

Por isso, se houvesse mais de uma regência, mais de uma condução para o universo, ele não poderia demonstrar a unidade, a integridade que ele demonstra: não poderia ser objeto de uma mesma ciência que engloba as leis que regem todas as suas partes. Não seria uma coisa só, um universo.

Assim, para que o conjunto de coisas que compõem o universo sejam mais do que um simples amontoado de coisas, mas sejam realmente um universo, é muito conveniente que haja um único governo para o universo. Como um país só tem um governo central, mesmo que tenha administrações regionais ou locais. No caso do governo central de um país democrático, ainda que haja a repartição de poderes, é necessário que todos os que exercem uma parcela desse poder o façam sob uma harmonia, de tal modo que, no fim das contas, haja um chefe de Estado capaz de proclamar uma vontade única, final, para aquele país. Há sempre um, há sempre uma vontade central, finalizada, unitária, quando há uma boa regência de uma coletividade que possui unidade real.

É neste sentido que Aristóteles, Boécio e o próprio Tomás ensinam que o governo ótimo é sempre o governo unitário. Nenhum dos três está defendendo a tirania ou a ditadura, nenhum dos três (e da filosofia clássica e medieval como um todo) defendem que algum tipo de absolutismo unipessoal é a melhor forma de governo. O que eles estão dizendo é que, afinal, é preciso haver uma vontade final, única, que represente o bem comum daquela unidade coletiva que é governada. O tirano é aquele que governa para seu próprio bem, não para o bem comum. Por outro lado, a demagogia, quer dizer, um governo em que a vontade que conduz a coletividade é dispersa, é terrível, porque não consegue conduzir a coletividade de modo indiviso para seu bem comum.

O exemplo mais perfeito disso é a Trindade, diria eu agora. Sendo um só Deus, tem uma vontade única, perfeita, indivisa, que reúne e guia a criação ao bem comum que é ele mesmo. Mas, dentro de si, não é monocrático, ditatorial nem absolutista: as Pessoas trinitárias são, fundamenlamente relativas, isto é, existem apenas na relação e realizam-se plenamente na doação. Este é, portanto, o modelo do regente perfeito. É ele que rege o universo.

3. Encerrando.

A uniformidade, a estabilidade, a harmonia do universo demonstra a existência de um regente único. Esta foi uma bela lição que os modernos deram nos antigos: não há um “quinto elemento” para as realidades supralunares.

Curiosamente, portanto, isso confirma ainda mais o quanto a teologia clássica estava certa em notar que a unidade do universo aponta para um regente único.

No próximo texto examinaremos os argumentos objetores iniciais e suas respostas.