1. Introduzindo o assunto.
Vimos, então, que há alguém regendo o universo, no artigo primeiro desta questão. Vimos que esta condução se dá em razão de um bem comum universal, que transcende o próprio universo e tudo o que ele contém, no artigo segundo. Agora a questão que se coloca é: quantos regentes estão governando o universo?
Sabemos, de antemão, que a providência que governa o universo, conduzindo-o ao seu bem universal e comum, é a providência divina. Mas este saber ainda não foi examinado, é pressuposto e aceite na fé. Este artigo vai debatê-lo, para estabelecer razões racionais para ele.
Além disso, o fato de que há apenas um Deus não determinaria que o mundo é regido por um só. De fato, Deus faz com que as criaturas, principalmente as inteligentes (nós e os anjos) participem verdadeiramente desse governo. Aqui, a discussão ganha importância: a própria noção de participação envolve a noção de analogia, tão cara à teologia católica. De fato, se pensarmos na noção de governo apenas sob o enfoque da univocidade, então o fato de que anjos e seres humanos participam do governo do mundo excluiria a possibilidade da existência de um governo único – o pensamento unívoco exclui a possibilidade de que um termo possa ser usado com significações proporcionais, e determina que todos os usos do termo tenham o mesmo sentido. Assim, se Deus governa o mundo, e se a noção de regência ou governo é unívoca, então os anjos e seres humanos não podem participar desse governo: podem apenas se submeter. Restaria à criatura simplesmente a submissão ao governo unilateral, absoluto e despótico de Deus. Por outro lado, se a noção é unívoca e as criaturas inteligentes, seres humanos ou anjos, governam o mundo, então Deus não intervém, e não podemos falar de nenhuma providência divina a não ser como milagres pontuais que quebram as regras naturais de maneira quase mágica. O milagre de Deus seria uma verdadeira invasão, um jeitinho pontual para consertar as coisas.
Mas se a noção de governo ou regência do universo é analógica, podemos admitir que apenas Deus governa o universo em sentido próprio, mas nós, criaturas inteligentes, participamos desse governo, dessa regência, de uma maneira proporcional. E é assim que as coisas parecem ser: a providência divina é o governo em sentido próprio, a nossa atuação é o governo em sentido analógico, participado. Não há, pois, concorrência entre o governo providencial de Deus e o nosso governo categorial, limitado, local. Como não há concorrência (para usar uma metáfora) no mundo militar, entre o general e o capitão: ambos governam, cada um em sua própria esfera. A palavra militar tem, claramente, um valor analógico: aplica-se ao general, ao capitão, ao soldado e até aos alojamentos, armas e veículos, mas sempre de modo participado e proporcionado quanto a estes últimos.
Mas estamos nos adiantando de novo. Vamos examinar o artigo.
2. A hipótese controvertida inicial.
Para provocar o debate, o artigo propõe, como hipótese inicial, a ideia controversa de que o mundo não tem um regente só. O universo seria regido por muitos gestores; não haveria, pois, um governo central, uma providência única dirigindo todas as coisas para seu fim.
É preciso lembrar, neste ponto, que o governo, para a teologia clássica, assim como para os antigos, não é uma estrutura abstrata e impessoal, um mecanismo cujo regente pode ser alterado sem maiores consequências, como ocorre com os Estados de hoje em dia. Para os antigos, o governo e o governante coincidem, de tal modo que o governante é o próprio governo personificado. A ideia de um estado burocrático, permanente, mecânico e impessoal, que existe independentemente do governante do momento, é moderna, de tal modo que seria anacrônico projetá-la no passado. Assim, não é que haja como que um “governo do universo”, uma burocracia estatal universal que pode ser eventualmente ocupada por Deus, mas que seria capaz de reger sem ele; o governo só existe se houver alguma pessoa que o corporifique, que o represente, que seja ele. Assim, negar que exista um único governante do universo seria negar que existe um governo, uma previdência unitária para o universo inteiro, e é justamente esta a hipótese com a qual trabalharemos agora, para negá-la no momento oportuno. Mas, antes disso, examinaremos os três argumentos objetores que tentam comprovar esta hipótese provocadora.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor diz que, quando examinamos alguma realidade desconhecida, podemos descobrir as causas pelo exame dos efeitos. Ora, o exame do universo parece demonstrar que não há algo como uma regência única das coisas, já que há uma diversidade de naturezas e de fenômenos. De fato, há seres inanimados, seres vivos, criaturas imortais como os anjos e criaturas efêmeras como os pequenos insetos e plantas. Ora, essa diversidade de efeitos demonstraria que o universo não está submetido a um governo central, único, centralizado, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Naqueles reinos em que há um só dirigente, responsável pela condução de tudo, há harmonia e paz entre os governados. Salvo, é claro, o caso de um governante incompetente ou fraco, o que não é o caso de Deus. Ora, no universo há luta, combates, rivalidades e oposições, como no caso dos predadores e das presas, das catástrofes naturais e mesmo do mal moral. Logo, não pode existir apenas um regente universal, divino, onipotente, regendo todo o universo, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
A natureza sempre se encaminha para aquilo que é melhor, mais eficiente, mais adequado. Ora, a própria Bíblia nos ensina, em Eclesiastes 4, 9, que “Dois homens juntos são mais felizes que um só”. Também a sabedoria popular, que diz que “duas cabeças pensam melhor do que uma”, ensina que a reunião de várias mentes é mais adequada do que a condução por uma mente só. Assim, o mundo é mais eficientemente regido por muitos do que por um só regente, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
Neste momento, vamos examinar o argumento que se opõe à hipótese inicial. De fato, é um argumento bíblico, que lembra que nossa fé proclama um só Deus e Senhor, conforme 1 Cor 8, 6, em que São Paulo nos ensina: “Mas, para nós, há um só Deus, o Pai, e um só Senhor, Jesus Cristo”. Ora, ser Deus e Senhor significa que ele efetivamente rege, governa, providencia para a Criação inteira, e o faz sozinho, porque não há outro Deus, conclui o argumento.
5. Encerrando.
Deus é amor. Ele não é um déspota, um ditador solitário e malévolo cuja essência é a busca e o exercício do poder, com a submissão de todas as coisas a si; ele governa pelo amor e pela misericórdia. O próprio fato de Trindade, amor pleno na própria intimidade de Deus, demonstra isso.
No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.
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