1. Voltando para encerrar.
Somos criados pelo amor. Isto significa que somos criados para o amor; o amor de Deus, que é o próprio Deus. Por isso, nada do que existe dentro do próprio universo criado pode ser nossa meta, nosso fim, porque o universo, como existe hoje, traz apenas a marca do amor participado, limitado, e não a marca do amor absoluto que é nossa meta. É, pois, muito agradável e tranquilizador que nossa meta esteja além de nós, seja estável, plena, absoluta, boa universalmente. A generosidade de Deus é tanta que ele não quis que nossa meta fosse menos do que Ele mesmo. E é para ele mesmo que ele nos dirige, governando-nos.
Examinemos agora, com essas coisas em mente, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
As coisas são dirigidas para o seu próprio fim por aqueles que as regem. Este é o sentido de haver governo, administração, regência das coisas: conduzi-las até as suas finalidades. Mas aquele que administra busca justamente o bem das coisas que administra: por exemplo, quem administra um hospital tem como finalidade devolver a saúde aos pacientes. Mas a saúde dos pacientes não é algo que está além ou acima dos próprios doentes que estão no hospital. Logo, podemos concluir que a finalidade buscada por aqueles que têm a posição de regência ou governo não é algum bem que esteja além ou acima das próprias coisas geridas, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Não e verdade que toda regência ou governo se limite a buscar um bem que é imanente às próprias coisas governadas ou administradas. Há muitas maneiras pelas quais um administrador, governante ou regente pode alcançar o bem daquilo que rege.
Tanto esse bem pode ser: 1) um aperfeiçoamento interno das próprias coisas regidas (como a saúde dos doentes que recebem cuidados de um hospital por ele administrado, como também, por exemplo, a formação educacional dos alunos de uma escola ou mesmo a formação religiosa de uma comunidade paroquial), como 2) algo que essa comunidade venha a construir ou edificar, para além da própria comunidade administrada (como uma construtora pode atingir seus objetivos construindo um edifício paroquial para uma diocese, ou um prédio hospitalar, por exemplo), ou ainda 3) adquirindo ou comprando algo que tenha sido produzido por terceiros, como uma associação de consumidores pode ter por objetivo comprar produtos alimentícios mais baratos de um fornecedor atacadista, por exemplo.
Portanto, nada impede que um administrador, gestor ou regente conduza as coisas que rege ou administra no sentido de algum bem que está fora ou além delas mesmas; isto pode ser dito, também, da gestão do universo inteiro, portanto. Logo, o bem do universo inteiro pode perfeitamente ser transcendente ao próprio universo, conclui Tomás.
O segundo argumento objetor.
Aristóteles ensinava justamente que, na dinâmica humana, há atividades que são operações (como aprender, amar, desenvolver virtudes, contemplar, etc.), e outras visam a confecção de obras (esculpir, construir, pintar, etc.), ou seja, visam produzir coisas. Ora, nem as operações, nem a produção de coisas, geram resultados para fora do universo; toda a dinâmica do universo, quer aquela que envolve operações, quer aquela que envolve a produção de coisas, se dá no interior do próprio universo. Logo, a atividade de administração e regência do universo não pode buscar resultados que estão fora do próprio universo, nem por operações, nem por confecção de obras, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
É claro que Aristóteles está tratando, aqui, das finalidades das artes humanas, isto é, daquelas atividades que realizamos, e que nos transformam e transformam o mundo. Quanto a elas, o argumento é válido: de fato, há artes humanas, como a educação e a música, cujo fim é a transformação das próprias pessoas; há, porém, artes e técnicas cujo resultado é a produção de coisas externas às pessoas que atuam, como a construção e a escultura.
Mas, neste segundo caso, o fim pode não resultar simplesmente do próprio resultado da atividade de quem o persegue: por um lado, o escultor busca, como fim, a estátua que ele próprio confecciona; mas seu fim envolve retratar de algum modo aquele que está sendo esculpido, quer seja, por exemplo, Napoleão ou Hércules. Além disso, o colecionador de artes pode buscar a mesma estátua, comprando-a. Portanto, a atuação humana pode buscar algum fim que seja externo ao agir e ao fazer do próprio sujeito: esse fim pode consistir na representação de alguém que está fora da arte, como no caso da estátua de Napoleão, ou na aquisição de alguma coisa que não pertence ao adquirente, como no caso do colecionador de artes.
Assim, o fim da administração do universo pode perfeitamente se referir a um bem a ser adquirido ou representado, e portanto nada impede que ele possa se dirigir a um bem que é externo ao próprio universo, conclui Tomás.
O terceiro argumento objetor.
O bem coletivo sempre consiste em ordenar a coletividade para que haja a paz entre todos. Portanto, a gestão de qualquer coletividade deve encaminhá-la para a organização pacífica, isto é, para ordená-la de tal modo que se estabeleça a maior harmonia entre todos os seus elementos. Assim, a finalidade da regência de qualquer coletividade não pode ser um bem externo a ela, mas a ordem e a paz em seu interior mesmo, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Não existe dúvida de que a ordenação do universo é o fim de sua condução. De fato, gerir o universo é, antes de mais nada, estabelecer nele a ordem que pacifica, que harmoniza todas as suas partes. Ocorre que essa ordem e essa pacificação não existem para si mesmos, mas para que a coletividade esteja bem-disposta e capacitada para seguir seu condutor, diz Tomás. Assim, quando um general organiza seu exército e o pacifica, construindo nele a harmonia, ele não visa simplesmente ter um exército organizado e harmônico, mas ter à sua disposição a força desse mesmo exército frente ao inimigo. Assim, o fim último do universo, para o qual ele deve ser encaminhado pelo seu gestor, não é simplesmente que ele esteja organizado e harmônico, mas que atinja a perfeição do amor que está em Deus, e que, portanto, o transcende.
3. Conclusão.
Não podemos nos contentar com o imanente, com aquilo que está no próprio universo. Fomos feitos para Deus! E, para nossa felicidade, todo o bem, todo o amor, toda a felicidade, tudo aquilo para que o universo existe é transcendente, isto é, não está sujeito às variações e vicissitudes que ocorrem no interior do próprio universo. Quanta segurança isto nos dá! E quanta gratidão em perceber que tudo isto foi feito para nós!
Estabelecemos, portanto, que o universo é gerido, e que sua finalidade é um bem transcendente. No próximo artigo contemplaremos esse gestor, esse governante. Existe apenas um? Quantos são os que gerem o universo? Aguardemos esse interessante debate.
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