1. Retomando.
No texto anterior, começamos a debater a ideia de que o universo, a criação, não foi feita para si mesma. Sua consumação, seu bem final, sua razão de existir, estaria para além dela. Mas, como todos os debates aqui na Suma, o tema começa com a proposição contrária, em forma de hipótese: parece que o fim do universo está nele mesmo, ou seja, é um fim imanente a ele. Verificamos que há três argumentos objetores que tentam comprovar essa hipótese inicial. São argumentos bem fortes; o primeiro lembra que toda gestão, todo governo, tende a levar as coisas aos seus próprios fins: por exemplo, o bem do hospital é curar os doentes que ali estão recebendo cuidados. Logo, também a condução do universo levá-lo-ia à sua própria consumação. O segundo argumento lembra que, na dinâmica de aperfeiçoamento dos entes, eles praticam operações e produzem outras coisas; ora, tanto as operações dos entes, quanto as coisas por eles produzidas, estão dentro do próprio universo. Logo, o fim do universo seria alguma realidade imanente a ele. Por fim, o terceiro argumento diz que o bem de qualquer coletividade é a ordenação que pacifica, e este é um bem imanente à própria coletividade, ao qual aquele que a rege deve conduzi-la.
O argumento sed contra, como lembramos, cita Provérbios 16, 4, para afirmar que o fim do universo está em Deus, e, portanto, transcende o próprio universo.
Agora examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora.
O fim corresponde ao princípio.
Tomás inicia sua resposta lembrando de um velho ditado: o fim sempre corresponde ao princípio. Esse dito é de muita sabedoria, e, ao examiná-lo, vemos que, de fato, as coisas são assim. E, continua Tomás, a consequência disso é que, se conhecemos os princípios de alguma coisa, conheceremos, consequentemente, seu fim.
Vamos imaginar isto em termos de produção humana: se fabrico uma arma, cujos princípios envolvem a letalidade, ou seja, a capacidade de ferir e matar algum inimigo, então logicamente o fim dessa arma será a guerra, a luta, o extermínio de algum inimigo. De modo similar, se produzo adubo, o princípio do adubo será a capacidade de nutrir as plantas; logo, seu fim será a nutrição de plantas.
Agora pensemos na criação: qual o princípio da criação? É a gratuidade do amor de Deus. Deus, que é eterno, perfeito e pleno, absolutamente feliz, não precisa da criação para nada. Mas, sendo, ele mesmo, amor pleno e bem absoluto, criou-nos por puro amor, por pura gratuidade, como gesto de expansão desse amor que é Ele mesmo.
Ora, o amor de Deus é Deus mesmo, como nos ensina 1 João 4, 8. Mas o universo não é Deus, é criatura. Deus transcende o universo infinitamente. Somos obra de Deus, mas não somos divinos. Ou, para dizer de um modo mais preciso, o princípio do universo criado é o amor que transcende, que está fora do universo, e que é o próprio Deus criador.
Portanto, se o princípio do universo é transcendente a ele, também deve ser transcendente o seu fim, de acordo com aquele ditado acima citado. O fim do universo, pois, é extrínseco ao próprio universo.
O bem participado e o bem universal.
Isso que já concluímos acima a partir da Revelação, diz Tomás, pode também ser demonstrado racionalmente. E Tomás passa a fazê-lo.
Já sabemos (e Aristóteles nos ensina isto logo no início da sua Ética a Nicômaco) que o bem tem natureza de fim. É por isso que dizemos que o bem do grão de milho é virar pé de milho, ou o bem do ser humano é tornar-se virtuoso. A finalidade de um ente é, pois, o seu bem.
Ora, cada ente tem seu próprio bem particular. Do mesmo modo que o bem do ovo de galinha é tornar-se uma galinha e não ser comido por uma raposa, cada coisa, cada ser no mundo natural, tem seu próprio bem particular, que pode eventualmente frustrado por outra criatura em busca de seu próprio bem particular. O bem da raposa, ao alimentar-se do ovo de galinha, certamente impede o bem do ovo de galinha, de modo particular. Mas isto não impede o bem de todos os ovos de galinha que existem. Ou seja, há uma dimensão do bem que ultrapassa o bem de cada indivíduo inserido no todo da criação. O bem comum de toda a criação pode ser chamado, assim, de bem universal.
Ora, o bem particular de cada ente é um bem participado, ou seja, é uma participação no bem universal que é o próprio Deus. Deus concebe e cria cada ente, ou seja, dá a ele a participação no ser, porque somente Deus é, e cada ente somente existe porque tem a existência concedida por Deus. Neste sentido, dizemos que Deus existe de modo absoluto, e cada ente existe apenas de modo limitado, participado, porque existe apenas em razão do dom de Deus na criação. De modo análogo, Deus tem em si o bem absoluto, e cada ente criado caminha no sentido da própria perfeição concebida por Deus, e que o torna progressivamente melhor, mais perfeito, mais pleno do bem que Deus concebeu para ele. Neste sentido, dizemos que o bem particular das criaturas é um bem participado, uma participação no bem universal que é o próprio Deus.
Ora, o bem do universo criado ultrapassa o bem de cada criatura em particular, exatamente porque o bem do universo não é particular, mas universal. Logo, o bem do universo não pode ser um bem participado, porque ele não é um bem particular, nem é apenas a soma de todos os bens particulares das coisas que o compõem. Sendo assim, o bem do Universo, sendo universal e não participado, não pode ser um bem interno ao universo, imanente, porque internamente ao universo há apenas o bem particular, participado, de cada criatura. Logo, o bem do universo, que é seu fim, é necessariamente transcendente ao próprio universo. Está fora dele. Vale dizer e repetir, o universo tem uma finalidade que lhe transcende, o bem universal. O universo foi criado para a plenitude do bem – que é a plenitude do próprio amor de Deus.
3. Encerrando.
O Papa Francisco costuma dizer que não pode existir um cristão triste, infeliz. Ora, fomos criados pelo amor, e, como vimos agora, fomos criados para o amor. Essa é a nossa finalidade, essa é a finalidade de toda a criação! Como isso pode ser conhecido por nós e não provocar imediatamente a alegria mais profunda?
No próximo texto examinaremos, a partir do conhecimento que Tomás sintetizou agora, os argumentos objetores e as respostas que Tomás nos apresenta a eles.
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