1. Introdução.
A pergunta aqui é simples: o universo tem um significado, uma razão, um para que, que transcende seus limites e determina sua própria bondade? Ou seja, a finalidade pela qual o universo existe, aquilo a que ele visa, pode ser encontrado em seu interior mesmo, ou está para além dele?
A resposta que parece prevalecer hoje, e tem status de científica e racional, é a de que o universo não tem um sentido intrínseco, não tem um significado, não tem um valor transcendente. Ele é basicamente uma massa mecânica complexa, pura extensão e puro mecanismo, sem significação outra a não ser aquela que nós, humanos, possamos imprimir nele por nosso pensamento, por nossos esforços, por nosso trabalho, por nossa cultura, por nossa economia.
E isto é uma tendência que ultrapassa barreiras ideológicas: os marxistas, por exemplo, creem que a matéria é sem valor, e que apenas o trabalho humano pode trazer-lhe significado e importância. Os liberais creem que todo valor está no apossamento e na possibilidade de troca, que tenderia a criar a justiça pelo equilíbrio dos egoísmos. Os próprios ambientalistas, normalmente, consideram que a conservação da natureza se explica porque, uma vez conservada em seus mecanismos naturais, estaríamos, afinal, garantindo as condições de sobrevivência para a própria espécie humana. Alguns ecologistas radicais chegam a crer que a manutenção dos mecanismos cegos da natureza é tão importante que toda cultura, toda atividade humana baseada no trabalho e na intervenção sobre a natureza para modificá-la, deveriam ser simplesmente banidas, junto com toda a atividade propriamente racional, porque a intervenção das atividades intencionais do ser humano sobre a natureza conspurcaria sua pureza crua e deve ser eliminada.
Ou seja, em todos estes casos existe algo em comum: a visão de que o significado do universo, da natureza, se é que existe algum significado, algum sentido, é imanente, isto é, não se refere a Deus Criador em sua transcendência, mas ao próprio universo, visto como uma divindade panteísta ou como um mecanismo cego a ser preservado e desenvolvido, quer economicamente, quer pelo trabalho, em favor do ser humano apenas.
Contra esse imanentismo, que pode surgir como um materialismo rude e desvalorizador, economicista ou radicalmente antropocentrista, ou como um panteísmo idolátrico e anti-humanista, é que o Papa Francisco propôs, em harmonia com a melhor tradição da Igreja, a noção de ecologia integral, que é exatamente a ideia de que toda a criação, nós e os seres que nos cercam, não encontram seu sentido, sua perfeição, seu fim último, senão em Deus; e isto desencadeia a responsabilidade humana do cuidado.
Veremos, neste artigo, que é este o sentido que Tomás vê na criação, criada e governada por Deus, e no fato de que ele reafirma que ela não tem um fim imanente, nem é divina em si mesma, nem é desprovida de significado, mas seu fim é externo e transcendente: é o próprio amor de Deus, para onde o próprio Deus a conduz carinhosamente. É o que veremos neste artigo.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida que é proposta para provocar o debate é exatamente aquela de que o universo não tem nenhuma referência transcendental, não tem um para que ou um sentido que o transcende, não se dirige a uma perfeição que ultrapassa aquilo que ele é aqui e agora. Em suma, a hipótese é a de que, aparentemente, o universo criado não está sendo conduzido ativamente para um fim que o transcende. Há três argumentos objetores que tentam comprovar esta hipótese inicial. Vamos a eles.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Todo governo ou regência deve encaminhar as coisas para a realização de suas finalidades. As suas finalidades são aquilo a que estas coisas estão predeterminadas, ou seja, aquilo a que elas tendem, como a um bem para elas. Por exemplo, quem rege um hospital busca conseguir o bem da saúde para os doentes que estão em tratamento ali; quem rege um país busca desenvolvê-lo do ponto de vista social, econômico e cultural. Mas tanto a saúde dos doentes, quanto a economia, a socialização e a cultura são bens que estão nestas coisas mesmas, ou seja, a saúde é um bem que estão no próprio doente que recebe tratamento no hospital, como a economia, a socialização e a cultura são bens que estão na própria sociedade que é regida pelo governante. Assim, a finalidade a que o governante ou regente dirige os seres sob seu poder não é algo que os transcende, mas algo que está neles mesmos, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Quando fala das finalidades das coisas, na obra Ética a Nicômaco, Aristóteles (“o” filósofo, como Tomás o chamava) dizia que há dois tipos de finalidades pelas quais as coisas se movem: as operações e as obras, quer dizer, aquilo que atuamos e aquilo que fazemos. Assim, o fim do movimento de um bailarino é o próprio bailado que ele opera, mas o fim da operação de um escultor é a estátua. Ora, todas as operações que se podem fazer, e todas as obras que podem resultar dessas operações, são coisas internas ao próprio universo criado. Assim, não se pode dizer que haja alguma finalidade para a qual o universo pode ser conduzido que não seja imanente a ele. Portanto, a regência ou governo do universo não pode se dirigir a conduzi-lo a algum fim que o transcenda, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento lembra que tudo aquilo que envolve o bem comum de uma coletividade tem por finalidade alcançar a ordem e a paz. A paz pode ser definida, como faz Agostinho, como “tranquilidade na ordem”. Ora, o universo é uma coletividade, que reúne todas as criaturas. Logo, sua finalidade maior, que deve ser o objetivo de sua regência, é a ordem na paz, a tranquilidade na ordem, que é um bem imanente ao universo, e consiste na harmonia organizada de todas as coisas. Logo, a finalidade da condução do universo, sua perfeição, é a sua ordem intrínseca pacífica, que é um fim imanente, e portanto a regência do universo não o conduz a nenhum bem que esteja além dele mesmo, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra vai nos lembrar que é a própria Bíblia que nos ensina (Pr 16, 4) que Deus fez todas as coisas com finalidade, e o fim é ele mesmo. Logo, o sentido do universo, a finalidade de sua existência, está além dele mesmo, pra onde ele deve ser conduzido por quem o rege, e não em algo imanente ao próprio universo.
5. Encerrando.
É claro que Tomás não conheceu Marx nem Adam Smith, como não conviveu com o ambientalismo radical ou com os niilistas filosóficos. Mas podemos lê-lo à luz dos problemas que essas correntes trouxeram à nossa contemporaneidade, de modo a encontrar, em Tomás, pistas para enfrentar esses novos problemas. De fato, o magistério do Papa Francisco, especialmente na Encíclica Laudato Sí, parece caminhar justamente nesta direção. O assunto é muito rico e certamente não será esgotado nestes nossos textos, que visam apenas apontar sugestões de aprofundamento posterior. Mas o pensamento de Tomás é surpreendentemente rico em pistas para problemas que ele não chegou a conhecer. Tudo isto, ou seja, reexaminar Tomás à luz dos problemas contemporâneos, acaba tornando Tomás, com sua linguagem que tantas vezes nos soa complicada, muito mais claro de seguir.
No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.
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