1. De volta para concluir.

Deus governa o mundo, ele o rege como um maestro amoroso, visando conduzir todas as coisas ao fim, ao bem, que é ele mesmo. É muito interessante pensar que a força fundamental que rege o universo é o amor pessoal de Deus, e não meras forças físicas cegas e impessoais.

Examinemos, agora, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor quer, justamente, negar que o universo criado seja conduzido a algum fim, afirmando que ele existe para funcionar mecanicamente, como um conjunto de engrenagens que gira com precisão mas não se destina a atingir algum objetivo. De fato, a imensa maioria das criaturas não tem nenhuma ideia de que exista algum fim a ser perseguido; nem se movem por um fim, nem o conhecem, nem o perseguem. Exceção feita aos seres inteligentes, que estabelecem seus próprios fins e os perseguem, e não precisam, em sua liberdade, de alguma condução externa; logo, o mundo funciona por seu próprio mecanismo, e não tem alguma regência ou governo que o conduza, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não é verdade que o universo seja como uma máquina, um mecanismo cego que gira sem finalidade. É certo que apenas o ser humano, no mundo material, possui inteligência e é capaz de estabelecer fins para si mesmo e buscá-los livremente. Mas esta não é a única maneira de operar com vistas a um fim. Há duas maneiras, diz Tomás, pelas quais podemos dizer que as coisas operam para um fim:

1. Quando o próprio ente conhece o fim e se dirige para ele livremente. Isto acontece com o ser humano e com os anjos, criaturas racionais. Conhecem o fim, sabem que o fim tem razão de fim, são capazes de eleger os meios e de buscar ativamente o fim.

2. Quando o ente não tem inteligência, e é conduzido ao fim por alguma força externa. É o que ocorre com a flecha atirada pelo arqueiro em direção ao alvo: a flecha não sabe que se move, não sabe que se encaminha a um alvo, mas de fato corta o ar em direção a ele, como a um fim, guiada pela habilidade do arqueiro que a lançou. Aqui estão incluídas as atividades dos animais irracionais, ainda que muito complexos: alguns, como os grandes predadores, podem até conhecer, de modo sensorial, o fim, mas não são capazes de inteligir a razão de fim, como o leão faminto que caça: ele o faz movido pelo instinto, e não é livre para compreender a razão de fim que a sua presa tem com relação ao seu movimento, de modo que, na verdade, não é um movente em sentido próprio, mas é movido pelo instinto.

Ora, fica claro, então, que reconhecer a razão de fim e mover-se em direção a ele é um atributo da inteligência. Portanto, quando algum ser não dotado de inteligência é movido pelo fim, na verdade ele está sendo dirigido ao fim por algum ser inteligente que conhece a razão de fim, isto é, por um ser inteligente que governa ativamente o universo.

O segundo argumento objetor.

O universo é um sistema fechado, perfeito, consistente, no qual os seres criados têm verdadeiro poder causal, isto é, regem-se por leis físicas impessoais e constantes, capazes de explicar todos os fenômenos naturais. Logo, não há alguém regendo o universo, porque isto seria desnecessário, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

O universo tem uma consistência, de fato. Há, em todas as coisas, aquilo que permanece e aquilo que se transforma. Aquilo que permanece é o que faz com que as coisas tenham duração no tempo; e não se pode negar que, mesmo na destruição de coisas e na geração de novas coisas, ao menos a matéria-prima permanece: por exemplo, se transformamos um tronco em carvão, ele já não é madeira, mas cinzas. No entanto, a mesma quantidade de matéria-prima existe, permanece no tronco e nas cinzas em que ele se transformou.

Ocorre que as coisas não permanecem e não mudam sem uma ordem, sem um sentido: elas não surgem do nada, nem retornam ao nada. Justamente isto, o fato de que existem e permanecem na existência, demonstra que há um regente poderoso, que as cria e conserva. Veremos mais sobre isto na próxima resposta.

O terceiro argumento objetor.

A noção de “natureza” diz respeito àquilo que está programado para apenas um fim; por exemplo, o grão de milho está programado para ser um pé de milho, e não um pé de feijão ou de soja. Ora, aquilo que está programado a um só fim não precisa de condução externa: encaminha-se a esse fim por si mesmo, naturalmente.

Sabemos que a imensa maioria das coisas que existem no universo são desse tipo: coisas naturais, isto é, coisas preordenadas a um só fim. Logo, o universo não precisa de um governante, de um regente, que conduza as coisas ao respectivo fim, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

De fato, as coisas naturais dirigem-se, por necessidade, a um único fim, e essa necessidade foi imposta neles, em sua natureza, por Deus mesmo. Como o grão de milho se dirige, por necessidade, a se tornar pé de milho. Deus guia, então, todas as coisas naturais aos fins impressos na natureza delas, como o arqueiro guia a seta que lança em direção ao alvo.

A diferença é que Deus imprime na própria natureza das coisas as qualidades que as dirigem aos seus fins: a carga genética que faz o grão de milho tornar-se pé de milho são naturais ao grão de milho. Mas o ser humano que guia alguma coisa a um determinado fim não imprime esse fim na natureza da coisa, mas age externamente exatamente para alterar a natureza da coisa, imprimindo nela uma necessidade estranha à natureza, de tal modo que a coisa atinja o fim determinado pelo condutor. Por isso, a flecha, se fosse deixada às forças naturais, simplesmente cairia, atraída pela gravidade. O impulsionamento da flecha rumo ao alvo é, portanto, uma certa violência contra a sua natureza gravitacional. O ser humano, ao comandar os seres irracionais, sempre o faz de um modo artificial, portanto.

Portanto, diferentemente do impulsionamento artificial impresso pelo ser humano, o próprio fato de que o fim das coisas esteja na sua própria natureza, inscrito ali por Deus, mostra que ele as governa de dentro, sem fazer violência a elas, mas concedendo-lhes as condições necessárias a que atinjam seus fins. O governo, a regência, são, neste caso, naturais.

3. Concluindo.

A relação de amor entre Deus e sua criação exclui qualquer distância, qualquer indiferença. Mesmo os aspectos mais complexos do universo, as leis naturais mais rígidas e profundas, são aspectos do amor de Deus em ação, expressão de seu cuidado permanente por todas as coisas. Tema muito belo!