1. Retomando.
Vimos, então, que na melhor visão filosófica clássica e medieval o mundo não é similar a um relógio, que o relojoeiro monta e que passa a funcionar sozinho, sem finalidade, independentemente da própria existência do relojoeiro. Tampouco é o resultado do acaso cego e da seleção. O mundo seria, na verdade, uma grande orquestra, que só toca sua música se o maestro a conduz. A questão a ser resolvida, então, é: temos um maestro?
Acompanhemos a resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás nos revela que esta ideia de que o mundo é o resultado de acaso e seleção, ou do caos que se adapta e em algum sentido se torna progressivamente mais organizado, é uma ideia antiga. Assim, as pessoas, muitas vezes, preferiram apelar para o caos, para a falta de inteligibilidade intrínseca no mundo, do que admitir a possibilidade de que ele fosse criado e governado por alguém, ou seja, recebesse estrutura e sentido desde fora.
Assim, a noção de que o universo não tem significado e sentido foi defendida por muitos pensadores do passado, diz Tomás. Mas ela não pode ser verdadeira. Vejamos duas dessas posições mais comuns.
O acaso e a seleção, ou o caos e a evolução? Existe aqui uma diferença entre esses conceitos.
O acaso e a seleção.
Se pensamos em acaso e seleção, não necessariamente pensamos que as coisas fiquem melhores, mas apenas que elas podem se combinar aleatoriamente, de tal modo que algumas combinações são mais adequadas para suplantar os desafios à permanência do que outras; estas tendem a durar e se reproduzir, e assim eliminar as combinações fortuitas menos estáveis. Deste modo, ao longo de bilhões de anos, sem que haja nenhuma finalidade, nenhuma vantagem, nenhuma melhora, o universo chegou a ser o que é: repleto de combinações que puderam ficar estáveis e se reproduzir, eliminando outras que eram instáveis e incapazes de permanecer. Deste modo, pensam os que defendem esta linha, eliminamos qualquer tipo de intencionalidade e finalidade no mundo, e até mesmo qualquer tipo de causalidade. Eliminamos o sentido.
O caos e a evolução.
A outra narrativa seria a do caos e da evolução. Aqui, a partir de elementos sem sentido, o universo começaria a evoluir, isto é, a se organizar e se tornar mais complexo, produzindo, dentro dele mesmo, seu próprio sentido, de tal modo que tenderia sempre a se tornar mais ordenado e mais complexo, mais cheio de sentido. Mas não por alguma força externa: o próprio universo geraria, em si, a complexidade e a organização que representa a evolução. Aqui, há uma melhora com o tempo, e é a partir daí que seus teóricos podem falar em evolução. O conceito de evolução sempre envolve um processo, e um processo sempre envolve um princípio e um fim. Portanto, o sentido, que não existe na narrativa do acaso e da seleção, aqui se faz presente: o universo teria um sentido, mas este sentido seria gerado por ele mesmo, e não estabelecido desde fora. Isto permite inclusive que aqueles que acreditam nesta narrativa possam se sentir melhores do que todos os que os precederam e todos os que não concordam com eles: somente os mais evoluídos poderiam compreender a evolução.
As duas razões que apontam para um universo criado e regido desde fora por Deus.
Tomás vai, então, nos apresentar duas razões pelas quais é necessário pensar que o universo é criado e regido por alguém que não é parte dele. São elas:
1) A primeira razão parte do fato de que, Examinando os próprios seres, as próprias criaturas, vemos que elas sempre apontam para sua própria realização, não de um modo caótico ou aleatório, mas de um modo inteligível, ordenado e orientado, e que, na maioria avassaladora das vezes, essa plenitude é atingida. Um grão de milho não vira um pé de milho por acaso; ele pode até não vir a se transformar num pé de milho, porque eventualmente pode ser comido por algum pássaro ou por nós, ou mesmo pode cair num solo inadequado. Mas, uma vez que ele receba as condições adequadas de solo, água e luz, ele não se desenvolve, aleatoriamente, como pé de feijão ou como um peixe: ele cresce para ser um belo pé de milho. Ora, não existe o pé de milho, como realidade dada, como ato, no caroço de milho: ele existe apenas como causa final, ao qual chegará progressivamente. É exatamente este processo natural de ser dirigido ao seu fim (a noção de natureza envolve, entre ouras coisas, a ideia de algo que é dirigido apenas para um fim determinado), um fim que ainda não existe senão como sentido, como meta, mas não como realidade histórica, e que é atingido sem nenhum fator de aleatoriedade, tornando-se aquilo que é só potência, ou seja, promessa de existência, que demonstra que esse processo de fato é guiado, conduzido, regido. Não por acaso, nem de modo caótico, nem de tal modo que, dentre milhares de grãos de milho, muitos se tornassem feijões, outros tantos se tornem peixinhos e outros virem pedrinhas e apenas alguns virem pés de milho que sobreviverão num universo em que os pés de milho seriam fortuitamente beneficiados pela possibilidade de permanecer (que seria a narrativa do acaso e seleção). Um processo guiado, que tem um sentido e um fim, pressupõem um guia e doador de sentido, que também estabeleça o fim. Um compositor e regente, diríamos, usando nossa analogia da orquestra.
2) A segunda razão tem mais relação com a ideia equivocada de caos e evolução. De fato, qualquer ideia de evolução pressupõe um padrão pelo qual se possa medir o processo. E esse padrão não pode ser interno ao processo, porque, neste caso, não existiria nenhuma evolução, mas apenas algum dinamismo do qual jamais poderíamos dizer que é melhor ou pior do que qualquer outra composição. Vamos dar um exemplo, para ficar mais claro: uma professora sai por um momento de sua classe, cheia de crianças inquietas. Quando ela retorna, vê que as crianças espalharam os brinquedos, rasgaram os livros, derramaram as tintas e destruíram mesas e cadeiras. Como ela pode dizer que este novo estado da sala é desordenado e menos perfeito do que aquele que ela deixou antes de sair da sala? Apenas porque ela própria estabeleceu um padrão de arrumação para a sala, de tal modo que as tintas estejam dentro dos potes, os livros estejam sobre as mesas, as crianças estejam nas cadeiras e os brinquedos estejam no baú. Sem o padrão estabelecido desde fora e inteligentemente pela professora, não há como dizer que a sala esteja mais arrumada, mais evoluída, quando está naquele padrão, do que quando está do jeito que as crianças a deixaram quando ficaram sozinhas. Qualquer ideia de que um determinado estado ambiental é mais desejável do que outro, é mais evoluído, é mais ordenado, pressupõe uma meta, um padrão, que é considerado como absolutamente bom em comparação com todos os outros estados, ainda que os outros possam ser parcialmente bons. Só assim pode haver sentido em falar de caos ou evolução. Ora, esse padrão de bondade absoluta (como vimos na questão 02 desta parte da Suma) existe, é externo ao universo e é, justamente por ser bom, difusivo de si, de tal modo que pode conduzir aquilo que é até aquilo que deve ser, de conformidade com a bondade absoluta do ordenador externo que chamamos Deus. Esse ato, pois, de comparar o que é com o que deve ser e conduzir o que é até o que deve ser é justamente a marca de que o universo não é intrinsecamente caótico, nem a evolução é uma simples ordenação interna; mas há um bem absoluto, externo ao universo, e que o conduz até o que o universo deve ser. Esse é o governo da criação, do qual estamos tratando aqui.
3. Encerrando.
Qualquer visão que queira, por princípio, excluir de Deus a regência da criação, recai numa grande contradição: como aquele conto do Barão de Munchäusen, em que ele supostamente teria escapado de um atoleiro ao alçar a si mesmo para fora, puxando-se pelos próprios cabelos, o universo, sem um regente externo, não existiria e não caminharia. Ninguém consegue se desatolar puxando a si mesmo pelos cabelos, como ninguém consegue explicar a existência e o desenvolvimento da criação sem Deus criador e regente, absoluto e diferente do próprio universo que criou.
Veremos, no próximo texto, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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