1. Introdução.

Eis que chegamos ao último tratado desta primeira parte da Suma Teológica. Levamos seis anos e meio para chegar aqui, mais de três mil páginas de texto escritas, quase mil e cem textos publicados. E, no entanto, não chegamos nem a um quinto da Suma. Para mim, fica muito clara a magnitude de Tomás. Considerando que a Suma é apenas uma das obras que publicou, numa era em que não havia computadores, nem internet, nem sequer máquinas datilográficas.

Este Tratado é essencial. De fato, se há algo em que a visão de mundo da nossa contemporaneidade se distancia da visão de Tomás, e com ele de toda a idade clássica e medieval, é essa do governo do mundo.

Acaso, seleção, mecanicismo e a nossa visão de hoje.

De fato, hoje tendemos a achar que o mundo é fruto do acaso e da seleção; as coisas foram se juntando, sofrendo modificações aleatórias e aquelas modificações que melhor se adaptaram à prova da existência, permaneceram. Não ousamos perguntar, como fez Leibniz, “por que há algo, em vez de nada?” A resposta, para nossos contemporâneos, é que, na verdade, o ser e o nada não se distinguem, então a resposta perde sentido. Certa feita, vi um físico ensinando que, no vácuo, partículas aleatórias podem surgir espontaneamente, na forma de campos opostos que se extinguem quase instantaneamente. E isto explicaria a existência do universo inteiro: seríamos um grande acaso de soma zero. Como resposta, lembrei daquilo que um outro cientista, este um crente em Deus, respondeu, quando lhe perguntaram por que razão ele acreditava em Deus: “não sou crédulo o suficiente para ser incrédulo”. Em resumo, se para eliminar Deus é preciso criar uma explicação ainda mais fantástica, equiparando o nada ao vácuo e a improbabilidade a uma causa de existência, melhor crer em Deus mesmo.

Além do acaso e da seleção, outra visão básica de mundo que temos é a de que o universo é mecânico. Quer dizer, ele funciona como uma grande máquina, um grande relógio, cujas pelas, uma vez postas em movimento, são suficientes para mantê-lo em movimento, sem que haja um sentido na sua condução. Um relógio, uma vez construído e energizado, segue funcionando, e se ele é um bom relógio, já não precisa que o relojoeiro o esteja constantemente ajustando. O próprio relógio não sabe que horas são: seu mecanismo apenas funciona, é a nossa mente que “lê”, nele, as horas. De modo análogo, dizem os nossos contemporâneos, o universo é uma grande máquina, sem sentido, sem causas finais, apenas causas eficientes, que não precisa de um relojoeiro. Mas, como veremos, nada pode estar mais distante da visão de Tomás.

Relojoeiro ou maestro?

Já vimos, na questão 02 desta primeira parte, quais são as vias para falar de Deus, ou seja, quais são as maneiras válidas para nos referirmos a sua existência. O trabalho agora é outro. Depois que estudamos o que podemos falar e saber sobre ele, estudamos, em seguida, os diversos aspectos de sua criação, nos tratados subsequentes. Neste último tratado, estudaremos a relação entre Deus e sua criação.

De fato, para Tomás e para toda a tradição na qual ele está mergulhado (e nós, com a graça de Deus, mergulharemos também), a ideia de que o acaso pode ser uma causa é algo absurdamente irracional: quando apelamos ao acaso, o que estamos fazendo é negando que, em determinada situação, possa haver uma causa. O acaso é a falta de causas, é o caos. Portanto, explicar apelando o acaso é proclamar que nenhuma explicação é possível. Vale dizer, para ele nós, hoje, rejeitamos qualquer explicação verdadeiramente racional para o mundo.

Por outro lado, a metáfora mais apropriada para explicar o mundo não é a do relógio. Não somos uma grande máquina automática e sem significado. A metáfora mais adequada é a de uma grande orquestra, que precisa da regência do maestro para seguir tocando. É certo que, na orquestra, cada músico deve tocar, consistentemente, seu próprio instrumento. Mas, sem o maestro para determinar as notas certas, o andamento correto, as entradas e a dinâmica de cada um, não haveria música. Por mais que, muitas vezes, a plateia se pergunte qual a função do maestro na orquestra, porque acha que ele é apenas alguém que sacode a batuta enquanto os músicos olham para outro lado e tocam sozinhos, isto é apenas uma profunda ignorância sobre a função do maestro. Ele arranjou, ensaiou, pensou o todo da música, marca as entradas e principalmente marca o tempo e a harmonia entre os músicos. Sem o maestro não haveria orquestra. Como sem Deus não haveria universo.

Mas chega de digressões. Vamos ao artigo, para descobrirmos, com Tomás, se Deus é mais parecido com um relojoeiro que construiu um mecanismo cego, ou com um grande maestro, que compôs e rege uma maravilhosa sinfonia.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial quer negar que haja alguém governando o mundo. Ou seja, já não haveria nenhuma relação efetiva entre Deus e o mundo que criou: o mundo segue sozinho, por suas próprias regras, como uma grande e perfeita máquina que já não precisa do engenheiro. Assim, a hipótese inicial é a de que, aparentemente, não há ninguém governando o mundo. Há três argumentos objetores iniciais tentando confirmar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor é justamente o argumento mecanicista. Se alguém põe uma máquina para funcionar, é desnecessário manter um operador permanente junto a ele, salvo quando queremos algum resultado específico, ou seja, queremos obter algum fim daquela máquina. Uma analogia seria alguém que simplesmente liga o motor do automóvel para fazê-lo funcionar por algum tempo na garagem, apenas para manutenção. Não é necessário haver um motorista, nesse caso, porque o motor é capaz de funcionar sozinho quando não precisamos ir a nenhum lugar com o carro.

Assim ocorre com as coisas naturais, ou seja, com todas as criaturas inanimadas e mesmo com todos os seres vivos desprovidos de inteligência: eles funcionam como um mecanismo, que não precisa de um motorista porque não visa um fim qualquer. Logo, o mundo não precisa de algo como um regente ou governante, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Aquelas coisas que estão inacabadas, ou que servem para produzir outras coisas, devem ser regidas pelo respectivo operador: assim, uma máquina que produz vasos ou telhas necessita de um operador para produzir; e uma máquina que ainda está sendo montada ou está sendo movida de lugar precisa do técnico que a projetou e constrói, enquanto ela está sendo construída. Mas o universo já está terminado, é regido por leis imutáveis e não se destina a produzir outra coisa além de si mesmo. Logo, não é necessário nenhum operador ou regente para fazê-lo funcionar, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor lembra que tudo aquilo cuja programação se determina a uma coisa só não precisa de algum operador. A imensa maioria do universo é assim: regido por leis que conduzem as coisas a um só resultado: a lei da gravidade, a lei da reprodução, a lei do eletromagnetismo e assim por diante. Logo, o mundo não precisa de algum operador, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra traz uma citação bíblica, retirada de Sabedoria 14, 3a: “Mas sois vós, Pai, que o governais pela vossa Providência”. Assim, a Bíblia ensina que Deus rege e opera no mundo; ele não é um mecanismo que funciona sozinho. De fato, também Boécio, dirigindo-se a Deus, ensina: “tu, que governas o mundo com teu plano eterno”. Logo, Deus tem uma relação de governo e regência com o universo criado, conclui o argumento.

5. Encerrando.

O debate está colocado. Há, aqui, nos argumentos, um fundo deísta, isto é, aquela concepção de um deus distante, que cria o mundo e já não se envolve com ele. Ou, como dizia Pascal a respeito de Descartes (que de certo modo é o iniciador do deísmo moderno):

Não posso perdoar Descartes; bem quisera ele, em toda a sua filosofia, passar sem Deus, mas não pode evitar de fazê-lo dar piparote para pôr o mundo em movimento; depois do que, não precisa mais de Deus”.

No próximo texto, examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.