1. Para finalizar.

Qual o habitat ideal para o ser humano?

Será que morar no paraíso, no Éden criado para nossos primeiros pais, seria adequado para nós?

O paraíso deve sempre ser uma referência, um padrão para nossa conduta aqui, neste mundo decaído. Mas não devemos esquecer que há muitas coisas que eram adequadas no paraíso, e que já não são, por causa do pecado original. Um exemplo é o nudismo: no paraíso, ali onde não havia a desordem do pecado, Adão e Eva podiam estar nus, como poderiam estar nus quaisquer seres humanos que existissem ali. De fato, Gn 2, 25, diz que eles estavam nus, mas não se envergonhavam. Comentando esta passagem o Papa São João Paulo II, numa de suas catequeses sobre o corpo nos diz que essa nudez original era própria do estado de inocência. No paraíso, nada havia a esconder, porque não havia a cobiça desordenada. Mas no estado decaído não é assim: o olhar do outro já não é puro, e a cobiça transforma o outro num objeto, numa coisa a ser usada, dominada, e a nudez já não é santa. Isto demonstra bem como o paraíso, que era o habitat perfeito para os seres humanos inocentes e imaculados, já não seria adequado para nós, filhos de Eva: entre nós, o pudor, a roupa, o vestir-se, são virtudes; no paraíso não seriam. Quando chegarmos à glória, e formos ressuscitados em corpos gloriosos, já não haverá necessidade de roupa, porque já não haverá a cobiça sexual desordenada (Mt 22, 30). É certo que este é apenas um exemplo, mas mostra bem as diferenças entre os três modos de viver: a inocência original, o estado após a queda e a ressurreição final na glória. Cada um tem um habitat próprio, adequado ao ser humano que está ali.

Examinemos agora os argumentos objetores iniciais e as respectivas respostas de Tomás.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro objetor diz que, como seres espirituais, nós e os anjos buscamos a felicidade divina. Mas os anjos têm seu habitat natural no céu, ou seja, para além dos limites do tempo e do espaço, que não os aprisionam. Assim, nosso habitat natural, no estado imaculado inicial, também deveria ser o céu, e não um lugar físico como o paraíso, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

De fato, o céu, no sentido de lugar próprio dos anjos, é o lugar mais perfeito e elevado da criação. Marcado pela estabilidade e pela felicidade permanente, e pela liberdade frente a tempo e espaço, é o lugar adequado para os anjos, seres incorpóreos, por meio dos quais Deus rege a criação. Assim, sendo um lugar acima das restrições espaçotemporais, é adequado aos anjos, para que rejam a criação material. Sendo um lugar de estabilidade na felicidade, também é adequado a eles, que já optaram por Deus e portanto já gozam da sua glória imutavelmente.

O ser humano, no estado inicial de inocência, não tinha o papel de reger a criação como que “acima” da matéria; deveria, isto sim, ser imagem e semelhança dentro do mundo material, e ali colaborar com a providência.

Por outro lado, a vida imaculada dos primeiros pais, no paraíso, seria uma vida biológica interminável, mas dinâmica em sua duração. Por isso, não convinha aos seres humanos serem criados no céu, senão aqui mesmo na terra, porque deveriam viver na história, e não como que acima dela.

O céu, para o ser humano, seria talvez uma visão distante, cujas portas só se abriram pela redenção em Nosso Senhor Jesus Cristo. Não podemos saber se Deus elevaria Adão e Eva de algum modo à glória, se eles não tivessem sucumbido à tentação diabólica no paraíso; Tomás, em sua resposta, parece apontar no sentido de que os seres humanos um dia entrariam na glória, no estado final e definitivo de beatitude. Não esclarece, porém, como isso aconteceria. Uma vez que não há céu sem Jesus, e ele veio para nos resgatar do pecado, não é interessante saber como seria se não tivéssemos caído. Caímos, fomos resgatados, e agora o céu está aberto para nós, pelo caminho da cruz, em Jesus.

Em suma, o céu, que não era o habitat natural dos nossos primeiros pais, será um dia o habitat natural dos santos.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor é dualista. Ele diz que, pela alma, nosso habitat natural seria o céu dos anjos, mas pelo nosso corpo biológico o nosso habitat natural seria a mesma morada dos animais. Assim, em nenhum caso, considerando nossa constituição, o paraíso, o Éden, seria um ambiente adequado para nós, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Tomás considera ridículo, descabido mesmo, imaginar que a alma separada, ou qualquer substância espiritual, como os anjos, possam ter um “lugar” no sentido corporal, geográfico, da palavra. De fato, ser substancialmente espiritual significa exatamente não ser corpóreo; e não ser corpóreo implica não estar localizado nas dimensões do tempo e do espaço. E o que não está localizado nestas dimensões não pode ter um “lugar”. Mas falamos de “lugar”, nestes casos, de modo analógico: a dimensão, a esfera em que vivem não é, de nenhum modo, material.

Mas o ser humano não é um ser híbrido, uma espécie de anjo que pilota uma máquina biológica. Não. O ser humano é uma unidade de corpo biológico e alma espiritual, e, neste sentido, o paraíso era o lugar perfeito, o habitat próprio para este ente multidimensional. Ali, o corpo estaria preservado e receberia tudo o que é necessário para se renovar e desenvolver, e a alma teria as relações e os estímulos que precisa para crescer em graça e sabedoria, na perfeita ordem de uma vida virtuosa e, por isso, feliz. Era o lugar perfeito para o animal espiritual que somos; os animais irracionais estavam ali porque estávamos ali. Por causa de nós. Este é o sentido da passagem bíblica que diz que Deus, ao criar os animais, “levou-os ao homem, para ver como ele os havia de chamar; e todo o nome que o homem pôs aos animais vivos, esse é o seu verdadeiro nome” (Gn 2, 19). E estavam em perfeita harmonia conosco. Fácil ver, assim, que a nossa queda fez toda a natureza sofrer. Também os anjos tinham acesso ao paraíso, e, com a permissão divina, até mesmo o Diabo esteve lá, para nos provar. E foi aí que caímos. Escolhemos contra Deus. Com o pecado, com seus efeitos, o paraíso se fechou para nós.

O terceiro argumento objetor.

Deus não cria nada inutilmente. Se ele fez um paraíso tão adequado, tão perfeito, tão agradável para o ser humano, a ponto de ser o habitat perfeito para nós, não haveria sentido em que este lugar simplesmente se tornasse vazio de seres humanos. Logo, se ele era o habitat adequado, então Deus o fez inutilmente, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

O paraíso era o habitat perfeito para seres humanos imaculados, em amizade plena com Deus, ordenados em virtudes e bem relacionados com a natureza. Ali, seríamos preservados das doenças e da morte, desde que mantivéssemos nossa ligação com a fonte de toda a vida, de todas as virtudes e de toda a harmonia, que era Deus. Mas o paraíso era o habitat do amor, e por isso a permanência no amor não pode ser exigida, nem imposta: deve conter sempre a possibilidade de rejeição, para ser verdadeiro amor. Amar é correr risco, e Deus nos fez capazes de amar. Correu o risco de que escolhêssemos contra o amor, e foi o que fizemos. Assim, o paraíso passou a ser inadequado para quem escolheu rejeitar o amor. Ficou vazio. Não porque Deus o tenha criado inutilmente, mas porque Deus nos criou livres e nós, seres humanos, escolhemos sair.

Mas Tomás registra que há quem defenda que Enoque e Elias, pela força da sua amizade com Deus, foram arrebatados para lá. Seria muito consolador imaginar que estes dois santos, arrebatados em corpo e alma, tivessem permanecido no paraíso, ocupando-o, até que Jesus viesse e abrisse as portas da glória para todos os que estavam na Mansão dos Mortos. Mas isto é apenas especulação teológica.

O quarto argumento objetor.

O lugar mais adequado para o ser humano, como habitat, seria um lugar de temperatura amena, sem extremos de frio e calor e sem condições ambientais extremas. Ora, segundo os testemunhos tradicionais, o paraíso estaria localizado nas regiões equatoriais. Estas regiões, no entanto, são marcadas por condições extremas, muito calor, sol inclemente e ambiente hostil. Está longe de ser, portanto, um ambiente perfeito para o ser humano. Logo, o paraíso não é o habitat perfeito para o ser humano, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Alguns antigos escritores tentaram fazer uma localização geográfica do paraíso, colocando-o na zona equatorial; tinham a ideia de que, na zona equatorial, haveria um perfeito equilíbrio entre a duração dos dias e das noites. Trata-se, pois, de especulação.

Em todo caso, no paraíso, o equilíbrio perfeito da natureza levaria a fatores ambientais adequados para o ser humano, em termos de clima, de vegetação e de acesso a água. O pecado rompeu esse equilíbrio. Isto parece muito bem retratado na Carta Encíclica Laudato Sí, do Papa Francisco, na qual ele descreve os nefastos efeitos, para o ambiente, do pecado humano. Ali onde o pecado não havia, tampouco existiam esses efeitos. Se, por um lado, devemos combatê-los (e o Papa nos exorta a isso), por outro devemos lembrar que o desequilíbrio resultante do pecado, principalmente seus efeitos na natureza, não deve nos levar a um ódio contra o ser humano, como se fôssemos uma ameaça à criação. Deve, isto sim, nos levar a uma maior proximidade com Deus, que pode perdoar nossos pecados e nos devolver o equilíbrio perdido.

3. Conclusão.

Sim, o paraíso, o Éden, seria o habitat perfeito para o ser humano; mas para o ser humano imaculado, inocente, virtuoso, pleno. Somente a desordem do pecado poderia nos fazer rejubilar no mal, ou considerar Deus como um estranho ou adversário. Nós não viveríamos bem no paraíso: ali, nossa desordem não se ajustaria à pureza do lugar.

De fato, fomos nós, seres humanos, os responsáveis por nos excluir do paraíso. Saímos porque quisemos. E assim será, também, na glória. Será um lugar inadequado para aqueles que não viveram na graça, Ninguém precisará excluí-los. Eles mesmos se excluirão.