1. Retomando.
Há, mais uma vez, neste artigo, um combate de Tomás contra o dualismo que marcou sua época; e que marca também a nossa, embora de uma maneira, talvez, invertida: se, à época de Tomás, o platonismo levava a um certo desprezo às coisas materiais, com um acento exclusivo nas dimensões espirituais, em nossa época há um materialismo rasteiro que ressalta a animalidade mais rude do ser humano. Deste modo, se no tempo de Tomás a tentação era a de imaginar que o habitat ideal para os seres humanos seria um céu espiritual, repleto de conhecimento intelectual e contemplação ininterrupta, que pareceria muito atraente para um platonista, mas talvez terrivelmente tedioso para alguém do século XXI. É o que propunha, como vimos, o primeiro argumento objetor.
Por outro lado, para nós, hoje em dia, o habitat ideal do ser humano seria um paraíso animalesco inconsequente, no qual todas as comidas e todas as bebidas pudessem ser consumidas ilimitadamente sem danificar a saúde, todos os corpos fossem musculosos sem necessidade de exercícios ou cirurgia, toda a atividade sexual fosse perfeitamente inconsequente, não gerasse filhos ou vínculos e envolvesse tantos e tão diversos parceiros quantos estivessem à vista, não houvesse perigos ou desafios que demandassem esforços ou contenção, todas as riquezas materiais nos pertencessem com exclusividade e todos estivessem à nossa disposição para nos servir incansavelmente. Ou seja, um lugar em que as virtudes seriam simplesmente desnecessárias, porque todo gozo seria inconsequente.
Nada disso existia no Éden. Nem era um reino imaterial de espiritualidade desencarnada, nem era uma espécie de bacanal exclusivo e interminável. Assim, ao que parece, a tese do segundo argumento objetor parece pressupor que o ser humano é irremediavelmente fragmentado, e por isso um paraíso seria simplesmente impossível.
Por seu turno, o terceiro argumento parece responsabilizar Deus pelo fato de que o paraíso foi esvaziado pelo nosso pecado: se o paraíso fosse bom o suficiente, não estaria vazio, diz ele. Como podemos ser santos, se a santidade não é nada atrativa?
Por fim, o quarto argumento soa quase acidioso: como pode o paraíso ser pior em termos de clima e posição geográfica do que aquele em que moravam os debatedores, a Europa temperada? Como pode Deus imaginar que gostaríamos de morar em outro lugar com o clima diferente deste aqui?
Enfim, como seria o lugar perfeito para a moradia humana? Nem um lugar para anjos, nem um lugar para bichos.
Seria, então, certamente um lugar em que o ser humano, em sua unidade indivisível de animal espiritual, pudesse desenvolver-se adequadamente em natureza e graça, numa vida em que a amizade com Deus, que ordena a razão e hierarquiza a sensibilidade, tornasse impensável a inclinação ao pecado. Sem desconsiderar a liberdade do ser humano: a única ameaça à vida humana, num lugar assim, seria o próprio ser humano. Que, embora vivesse ali onde havia o habitat perfeito para si, optou por perder-se. Se o habitat ideal do ser humano envolve a alegria da santidade, vivendo junto de Deus, devemos reconhecer que o pecado foi a opção pela tristeza e pelo exílio. Não existe outra tristeza senão a de não ser santo, diz Léon Bloy, citado pelo Papa Francisco na Gaudete et Exsultate. O habitat perfeito para o ser humano imaculado, como nossos primeiros pais, seria a casa da santidade, da qual só se sai por vontade. Era assim o Éden bíblico?
Mas estamos nos adiantando de novo: vejamos agora a resposta de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
O paraíso era, realmente, o habitat próprio para o ser humano; e isto levando em conta todas as necessidades, características e interesses desse animal espiritual tão peculiar que somos. Se não somos capazes, hoje, de entender essa adequação, é porque o pecado nos maculou, enviesou nossa inclinação ao verdadeiro bem.
A diferença entre vida eterna e imortalidade biológica.
Mas há uma questão a ser colocada aqui, preliminarmente, e Tomás vai iniciar sua resposta com ela: quando falamos do Éden, como narrado nos dois primeiros capítulos do Livro do Gênesis, não estamos falando da mesma coisa que é tratada nos últimos dois capítulos do Livro do Apocalipse. Em suma, aquele lugar que era paradisíaco para Adão e Eva, em sua vida inseparavelmente biológica e espiritual, não tem proporção com a promessa de “novos céus e nova Terra” (Ap 21, 21), própria para a vida após a ressurreição gloriosa em corpos espirituais (1 Coríntios 15, 44) que, permanecendo humanos, já não são biológicos. Isto é, o paraíso que era o habitat perfeito para Adão e Eva não é o mesmo paraíso que será o habitat perfeito dos que ressuscitarem em Cristo.
É importante fazer esta distinção. Importantíssimo. Estão tão distantes quanto a noção de uma imortalidade biológica, que parece ser a promessa para nossos primeiros pais, dista da noção de uma vida eterna na glória. Há muitos, hoje, que procuram desenvolvimentos tecnológicos e científicos para tornar o ser humano artificialmente imortal, confundindo a vida eterna com a imortalidade, e percebendo que anseiam por recriar o paraíso de Adão e Eva, dando as costas justamente à maior promessa, o paraíso na glória de Jesus!
E como seria esse paraíso de Adão e Eva? Seria, de fato, o habitat perfeito para o ser humano biológico.
Neste ponto, precisamos lembrar que Adão e Eva, nossos primeiros pais, não eram biologicamente imortais. A imortalidade, neles, era uma certa disposição na alma, um equilíbrio perfeito de condições físicas, psicológicas e espirituais que evitariam todos os desgastes do dinamismo da vida e, ao mesmo tempo, remediariam perfeitamente todos os agravos e sobrecargas que a vida lhes impusesse.
O paraíso de Adão e Eva como habitat perfeito para a vida humana biológica.
Ora, o paraíso seria justamente dotado de todas as características capazes de preservar a vida biológica e afastar o decaimento e a morte. Alimentos perfeitos, capazes de devolver ao corpo todo o vigor e remediar a passagem do tempo. Ausência de ameaças, perigos e desequilíbrios. Alegria da relação com Deus. Doação e serviço recíproco, afastando a solidão e tornando fecunda a vida. Belíssimas paisagens para a contemplação. Clima adequado, sempre distante de extremos de frio e calor, de modo a proporcionar o conforto e o descanso adequados, mas também o estímulo suficiente para a atividade. Por fim, uma atmosfera fresca, rica, na qual, mergulhados, respiraríamos com enorme prazer. Eis a descrição daquele paraíso que era o habitat perfeito para os nossos pais primordiais, na sua condição primeira de plenitude biológica na amizade com Deus e com toda a criação.
3. Encerrando.
Temos uma nostalgia por esse lugar. Por esse estado maravilhoso de integração física, biológica, psicológica, espiritual, em que viveram um dia os nossos primeiros pais. Esta nostalgia pode ser um belo incentivo para lutarmos por melhores condições de vida por aqui mesmo: proteção ambiental, saúde, harmonia, paz, equilíbrio no coração e amizade com Deus e com os outros. Mas o objetivo não é, e nem pode ser, restauracionista: se o paraíso em que viveram Adão e Eva está perdido para nós, é porque nossa esperança é infinitamente maior: esperamos a própria glória de Deus.
No próximo texto veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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