1. Introdução.
O pecado deveria nos causar dor. Fomos feitos para viver com Deus e em Deus, que é o sumo bem; o pecado consiste justamente em escolher contra Deus, afastar-se dele. Deveria ser algo profundamente doloroso, repulsivo, algo que não poderia ser escolhido racionalmente. Mas, como amar é livre, e não há amor sem liberdade, a possibilidade de pecar também existe, e, por um mistério do mal, o pecado pode seduzir, pode trazer prazer, ainda que nunca traga a felicidade da plenitude.
De fato, como consequência do pecado, tornamo-nos habituados a viver fora de Deus; desenvolvemos o orgulho e o egoísmo a tal ponto que Deus, que é puro amor, passa a ser visto como ameaçador. Em vez de pai amoroso (1 João 4, 16), de amigo fiel (João 15, 15), de verdade libertadora (João 8, 32), ele passa a ser visto como o tirano autoritário que quer dominar, quer ameaçar nossa liberdade, em vez de consumá-la. Passamos, então, a acreditar que viver no paraíso fosse algo opressor e ameaçados, que Deus fosse um tirano, que a liberdade consiste na independência e na proclamação arrogante da própria autonomia: “melhor reinar no inferno do que servir no céu”, diz John Milton na obra Paraíso Perdido. Será que o paraíso, tal como narrado na Bíblia, seria um lugar chato, autocrático, despótico, moralista, incapaz de alegria e de festa? Ou será que seria justamente o contrário, e o paraíso seria o lugar da felicidade humana plena, ao lado de Deus? Em suma: ser santo é algo chato, frustrante, monótono, opressor, ou, ao contrário, é a única possibilidade real de felicidade? Não é outro o sentido daquela pergunta: será que o paraíso é o habitat natural do ser humano?
É o que debateremos neste artigo. Vamos a ele.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial, para provocar o debate, propõe que o paraíso não seria o habitat apropriado, perfeito para o ser humano; de fato, ele seria inadequado ou inconveniente para nós, segundo esta hipótese. As razões pelas quais o paraíso não seria um lugar perfeitamente conveniente para os seres humanos seriam aquelas a serem expostas nos quatro argumentos objetores a seguir.
Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O paraíso não seria o melhor lugar, o lugar perfeito para a habitação humana, propõe este argumento, porque o ser humano, assim como os anjos, é uma criatura espiritual destinada a gozar da felicidade completa e da plenitude da existência. Ora, os anjos, desde a sua criação, habitam fora dos limites estreitos de tempo e espaço, ou seja, vivem numa dimensão estritamente espiritual que a teologia tradicional chamava de céu empíreo; não se trata nem da atmosfera nem do espaço sideral, mas de uma situação que transcende a dimensão material e não está confinada a localização geográfica e temporal.
Ora, se o ser humano também é espiritual, parece claro que ficar submetido ao tempo e ao espaço seria um aprisionamento. Logo, um paraíso material como o Éden não seria o lugar mais adequado para o ser humano, mesmo antes do pecado original, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor lembra que nós, seres humanos, somos formados de alma espiritual e corpo material. Ora, pela alma espiritual nosso lugar apropriado seria o céu, lá onde habitam os anjos, espíritos por excelência. Pelo nosso corpo, porém, somos animais, e por isso nosso lugar adequado seria junto com os outros animais, e não num paraíso separado. Logo, o paraíso, tal como descrito na Bíblia, seria inconveniente sob qualquer aspecto, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Quando algum lugar é o habitat perfeito para algum ente, é de se esperar que este ente habite ali. Se ele é apenas um lugar vazio, sem nenhum habitante, ele é inútil. Mas depois do pecado nós fomos expulsos do paraíso, que ficou vazio. Assim, se ele fosse o habitat perfeito para o ser humano, Deus teria criado inutilmente o paraíso. Logo, o paraíso nunca foi o habitat perfeito do ser humano, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
O calor em excesso é inadequado para o ser humano; de fato, os lugares intermediários entre os polos e o equador, em que há um clima mais ameno, parece ser mais adequado.
Mas, segundo as antigas tradições, o paraíso ficava na região equatorial. Ora, estas são as regiões mais quentes da Terra, sendo que, ali, o sol costuma ficar a pino várias vezes por ano. Claramente, então, um lugar com tal localização geográfica não poderia ser o habitat perfeito para o ser humano, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra, que tenta provar que a hipótese inicial é inaceitável, recorre à autoridade de São João Damasceno. De fato, este santo descreve o paraíso como uma região divina, morada adequada para o ser humano, criado à imagem de Deus. Ora, o paraíso descreve justamente uma situação de ordem e harmonia entre Deus e o ser humano, e entre este e os outros seres criados, de tal modo que podiam alcançar sua própria plenitude sem impedimentos. Um lugar assim seria, portanto, o habitat perfeito para os seres humanos, conclui o argumento.
5. Encerrando.
O profeta Isaías, no capítulo 11 de seu livro, descreve aqueles dias em que o Filho do Homem virá, como dias de perfeita harmonia e paz entre as criaturas e as nações. Seria assim, creio, o paraíso. Mas para sentir prazer em viver assim, teríamos que redescobrir a alegria da virtude e dispensar os prazeres desordenados do apego ao pecado. Isso só é possível pela graça de Jesus. De certo modo, podemos desfrutar um pouco do sabor do paraíso pela fé em Jesus, como nos diz Hb 11, 1.
No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.
2 de agosto de 2023 at 14:42
Se o amigo me permite, expresso que gostei muito da introdução, mas não consegui estabelecer seu nexo com a parte argumentativa.
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2 de agosto de 2023 at 15:01
Espero poder esclarecer melhir nos próximos textos!!!
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