1. De volta para terminar.
A descrição do lugar geográfico do paraíso, no segundo relato bíblico da criação (Gn 2, 8-14) deveria causar uma sensação um tanto incômoda nos antigos: de certo modo, trazia uma proximidade, ao citar rios como o Tigre e o Eufrates, tão familiares, e ao mesmo tempo descrevê-los de um modo que não soava nem um pouco familiar. De certo modo, eu tenho essa sensação com relação ao paraíso: parece incrivelmente próximo, quando pensamos que foi este mundo mesmo que Deus criou, mas também parece infinitamente estranho e distante, porque é este mundo em que vivemos que carrega as marcas do pecado e está desligados dos mananciais de água do paraíso, quer dizer, daquilo que vivifica, que sacia, que sustenta, que irriga. Que dá o fundamento espiritual ao que somos.
Examinemos agora os dois últimos argumentos objetores, que tentam comprovar a hipótese de que o paraíso não era um lugar no sentido geográfico, e as respostas de Tomás a eles.
2. Os dois últimos argumentos objetores e suas respostas.
O quarto argumento objetor.
O segundo relato da criação, em Gn 2, 9, a árvore da vida estava no meio do paraíso.
Ora, segundo as Escrituras (Provérbios 3, 18) a árvore da vida é, na verdade, a sabedoria adquirida pelo ser humano, já que, segundo esse versículo, a sabedoria “é uma árvore de vida para aqueles que lançarem mãos dela”. Ora, se a sabedoria é árvore da vida, e se a sabedoria é uma realidade espiritual e não material, então a árvore da vida é uma realidade espiritual. E se ela estava “localizada no meio do paraíso”, deve-se concluir que a linguagem usada, aí, é figurativa, e o paraíso era uma realidade estritamente espiritual, e não corpórea, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
É preciso sempre reafirmar a materialidade das realidades do paraíso, das realidades imaculadas: esse é o princípio sacramental da igreja: o sacramento é sempre um sinal material, visível, concreto, que concede a graça invisível de Deus. Essa lógica é a própria lógica da relação de Deus conosco. Assim, usando uma linguagem analógica, poderíamos dizer que Jesus é como que o sacramento do Pai, a Igreja é como que o sacramento de Jesus (Lumen Gentium, § 1º), e, por fim, os sete sacramentos da Igreja são os frutos da nossa árvore da vida eterna. Assim, não podemos negar que a árvore da vida é uma realidade material, como que sacramental, que mantinha vivo o dinamismo da relação de nossos primeiros pais com Deus, restaurando-os e mantendo-os íntegros e saudáveis. Deus, em sua pedagogia, ordinariamente se relaciona conosco sacramentalmente, ou seja, por intermédio da matéria. Não podemos, pois, negar o caráter material da árvore da vida no paraíso sem cair num gnosticismo, que despreza a matéria como mediação da relação com Deus e instaura um espiritualismo intelectualista e dualista.
Contra esse gnosticismo, que quer intelectualizar, tornar abstrata, a relação com Deus, é que o Papa Francisco vem nos advertindo em seus documentos magisteriais, como na Evangelii Gaudium (§ 94 e 233) e principalmente no capítulo 2 da Gaudete et Exsultate. Para mais esclarecimentos, é bom consultar a carta Placuit Deo, da Congregação da Doutrina da Fé.
Mas isto não significa, de nenhum modo, desprezar a dimensão espiritual da árvore da vida. Como já vimos nos textos anteriores, a insistência na realidade material da criação e do paraíso não implica rejeição das suas dimensões espirituais; como a pedra no deserto, da qual Moisés extraiu água para o povo (Êxodo 17, 6), prefigura o Espírito Santo que nos seria doado pela Rocha que é Jesus, também a árvore da vida prefigura, espiritualmente, Jesus e a vida espiritual que ele concede aos que o seguem. Assim se dá também com a chamada “árvore do bem e do mal”: sendo uma realidade material, que o ser humano experimenta contra a ordem que Deus lhe tinha dado, também tem uma significação espiritual: significa o pecado que decorre do abuso da liberdade pelo uso do livre arbítrio na desobediência a Deus.
O quinto argumento objetor.
O quinto argumento objetor aponta que há uma contradição entre os dois relatos bíblicos da criação. De fato, o primeiro relato bíblico (Gn 1, 1 a 2, 4) narra que as árvores foram criadas no terceiro dia (Gn 1, 12), mas o segundo relato bíblico (Gn 2, 5-25) diz que, mesmo após finalizado o trabalho criador de Deus, o paraíso ainda estava desprovido de árvores (Gn 2, 5). Assim, esta contradição mostra que estes relatos não estão tratando de coisas materiais, que aparecem e desaparecem, mas de realidades estritamente espirituais, nas quais não haveria contradição em dizer que existiam, mas não estavam presentes. Assim, o paraíso, como descrito na Bíblia, não é uma realidade material, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Esta contradição entre os relatos bíblicos foi percebida pelos comentadores mais santos, como o próprio Santo Agostinho. De fato, Agostinho defendia que o primeiro relato da criação trata do surgimento das razões seminais, ou seja, da criação virtual de tudo aquilo que haveria de surgir em todas as épocas futuras, ao tempo em que o segundo relato já trata do efetivo surgimento das coisas, historicamente.
Outros intérpretes e Padres da Igreja entendem que o primeiro relato trata da criação não somente virtual, mas efetiva, das coisas – ou seja, elas foram efetivamente,materialmente criadas nos seis dias, e assim o segundo relato faz uma recapitulação, para acrescentar detalhes e precisões que não entraram no primeiro relato.
Em todo caso, as escrituras não são uma transcrição literal, não são um relato jornalístico. Como diz a Constituição Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, sobre a Revelação Divina, é necessário “que o intérprete busque o sentido que o escritor sagrado, em determinadas circunstâncias, segundo as condições do seu tempo e da sua cultura, pretendeu exprimir e de fato exprimiu, servindo se dos gêneros literários então usados. Com efeito, para entender retamente o que autor sagrado quis afirmar, deve atender-se convenientemente, quer aos modos nativos de sentir, dizer ou narrar em uso nos tempos em que escreveu, quer àqueles que costumavam empregar-se frequentemente nas relações entre os homens de então”. Ou seja, não se deve fazer uma interpretação ingênua, literal, como se o texto bíblico fosse um texto científico do século XXI, o que ele obviamente não é.
Devemos lê-las, então, como um relato verdadeiro de que Deus criou todas as coisas que existem, e que estas coisas que existem hoje são as coisas que Deus havia criado no paraíso.
3. Conclusão.
Precisamos reafirmar sempre isto: é de nós que a Bíblia fala, e é do plano de Deus, assim como ele quer, sem as marcas do pecado, que as Escrituras descrevem nos primeiros dois capítulos do Gênesis e nos últimos dois capítulos do Apocalipse: é deste mundo, imaculado no início do Gênesis, redimido e purificado no final do Apocalipse, mas sempre em sua concretude material, corporal, que a Bíblia trata e que a fé católica abraça. O mundo redimido será o mundo glorioso, de corpos espirituais, mas, ainda assim, um mundo corporal. Nada mais distante das idealizações platônicas.
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