1. Retomando.

O paraíso não é um estado de espírito simplesmente. Estamos falando, aqui, concretamente, da criação; foi este universo que Deus criou. É preciso reafirmar isto: não estamos no campo das fábulas, dos mitos, quanto a isso. Mas onde ficava este lugar físico no Oriente chamado Éden, em que Adão e Eva moravam e de onde foram expulsos? Não sabemos; eis que talvez a localização exata, do ponto de vista geográfico ou dimensional, seja, aqui, o menos importante. Estamos tratando da criação deste mesmo planeta, desta mesma Terra, mas em outra condição; uma condição que implicava uma intimidade com Deus e com o resto da criação que existia, mas foi voluntariamente perdida por nós; neste sentido, o pecado é uma realidade estritamente espiritual (é um ato de vontade) que influiu e influi enormemente na dimensão física do universo: basta olhar os danos ambientais da exploração ecológica, ou a mortandade humana resultante da guerra que isto fica claro. Portanto, muito menos importante do que localizar geograficamente um ponto da Terra em que Adão e Eva viveram, (como se o fato do pecado original fosse um fato dentro da história natural, e não o próprio ponto de origem daquilo que se dá à nossa ciência como história natural), é entender a profunda significação da relação constitutiva entre o corporal e o espiritual: aqui fomos criados, aqui pecamos, e aquilo que vivemos antes de pecar foi fechado para nós, por nossa própria culpa. Mas não era um lugar diferente deste em que agora vivemos, embora comportasse uma vida muito diferente daquela que hoje vivemos. Em certo sentido, o paraíso era aqui, e em certo sentido era muito diferente. Porque a realidade é composta de matéria e forma, e nós somos corporais e espirituais. E estas coisas são distintas, mas não separadas entre si.

Examinemos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Começando a responder aos argumentos objetores.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor cita São Beda, que ensinava que o paraíso chegava “até o círculo lunar”. Ora, a órbita lunar está distante da Terra, dista milhares de quilômetros daqui. Seria impossível que existisse um lugar físico no que se elevasse da Terra até a lua. Logo, o paraíso não era um lugar no sentido material, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não devemos tomar as palavras de São Beda como a descrição literal de um ponto da Terra que se elevasse até a lua. Neste sentido, grosseiramente literal, as palavras não são verdadeiras. Há, portanto, dois sentidos principais em que podemos tomar essas palavras:

1. O sentido de que o paraíso, como estado de pleno equilíbrio entre o ser humano, a criação e Deus, atingia toda a região sublunar, ou seja, toda a biosfera, que é a região que influi diretamente na vida humana. Neste sentido, a lua marcaria, para os antigos, a parte da criação diretamente relacionada conosco, na qual a harmonia paradisíaca se revelava mais diretamente.

2. O outro sentido é analógico. Do mesmo modo que a lua, marcando o limite entre o espaço exterior e o nosso, passa por fases, controla as marés e influi no clima e na fecundidade do solo, o dinamismo do paraíso manifestaria esta influência dinâmica, benigna, de tal modo que tudo estivesse inter-relacionado.

Em todo caso, o paraíso envolve harmonia e dinamismo, e é por isso que São Beda menciona a lua. No paraíso, toda a região entre a terra e a lua estaria em paz com o ser humano.

O segundo argumento objetor.

Este segundo argumento lembra que o relato bíblico registra a existência de quatro rios que teriam suas nascentes no paraíso. Ocorre que a ciência demonstra (e já demonstrava desde a antiguidade, como se vê na obra “Meteorológica” de Aristóteles) que estes rios têm nascentes conhecidas, que não ficam no paraíso. Portanto, essa localização geográfica não existe. Logo, o paraíso não é um lugar no sentido material, corpóreo, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Na sua interpretação do livro do Gênesis, Santo Agostinho nos ensina que, quanto à nascente dos rios no paraíso, devemos pensar que essas nascentes, que alimentavam os rios que nos trazem a vida, tornaram-se inacessíveis para nós, pela queda; como ocorre com aqueles rios que nascem, somem no subterrâneo e afloram mais adiante para continuar seu percurso. De fato, tudo o que o paraíso significava de nascente pura de vida foi perdido para nós, pelo pecado; suas nascentes tornaram-se inacessíveis; mas a vida continuou fluindo, embora como que interrompida, neste nosso mundo decaído.

O terceiro argumento objetor.

Muitos cientistas, cartógrafos e geógrafos traçaram cuidadosamente o mapa da Terra, pesquisando todos os lugares que exitem nela; mas nunca encontraram o paraíso como um lugar físico, situado geograficamente em algum lugar. Assim, devemos concluir que o paraíso não é um lugar no sentido corpóreo, mas apenas uma situação espiritual, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A resposta de Tomás não excluía, no tempo dele, a possibilidade de que o paraíso estivesse situado geograficamente em algum lugar de difícil acesso, isolado por montanhas, mares ou outro acidente geográfico que o isolasse. Assim, os cartógrafos e geógrafos não o haviam localizado. De fato, no tempo de Tomás nem sequer a América havia sido descoberta.

Hoje, porém, com o avanço da ciência, esta hipótese está descartada: mapeamos toda a face da Terra, de tal modo que já não podemos afirmar que o paraíso bíblico existe, atualmente, como um lugar preservado e isolado fisicamente. Onde quer que ele ficasse, já não é algo acessível em nossas dimensões ordinárias; na verdade, com o pecado, toda a Terra ficou sujeita à corrupção ( Rom 8, 20-21), de tal modo que aquele lugar que, no princípio, era paradisíaco, hoje também está atingido pelo pecado: é esta Terra mesma. Neste sentido, a “chama da espada fulgurante” e os querubins que guardam o paraíso (Gn 3, 24) representam muito mais uma inacessibilidade à harmonia inicial do que um isolamento geográfico mesmo.

3. Encerrando.

O pecado original dos anjos é o puro pecado moral. Eles não trazem em si a síntese do mundo material, nem participam dele, embora tenham poder sobre ele, mas como que “de fora”. Mas o pecado original do ser humano faz o mal entrar no mundo material mesmo. Estabelece o desequilíbrio ecológico, o senso de desrespeito com a criação, a utilização sem consideração por Deus. Eis uma dimensão que São Paulo menciona no capítulo 8 da Carta aos Romanos, e que `´as vezes não fica clara para nós. Não é a matéria que é má, como acreditam Platão e seus seguidores. A matéria é boa, porque saiu das mãos de Deus. Mas o pecado humano a atinge e corrompe, de um modo tal que o pecado dos anjos não poderia.

No próximo texto examinaremos os últimos argumentos e suas respostas.