1. Retomando.

Reafirmar a veracidade das Escrituras é reafirmar o valor da Revelação. A Escritura não mente. Mas não podemos examiná-la com os olhos cientificistas: ela não traz ciência no sentido acadêmico da palavra; a verdade das Escrituras está no campo da confiança, muito mais do que na literalidade textual. Ou, como diz o Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a revelação Divina, “E assim, como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que fosse consignada nas sagradas Letras. Por isso, ‘toda a Escritura é divinamente inspirada e útil para ensinar, para corrigir, para instruir na justiça: para que o homem de Deus seja perfeito, experimentado em todas as obras boas’ (1 Tim. 3, 16-17)”.

É com este olhar, atento ao sentido profundo das Escrituras, que reafirmamos a materialidade, a corporeidade da criação. Deus não criou outro mundo; criou justamente este em que estamos, que agora está decaído, mas que saiu perfeito de suas mãos. É isto que este artigo quer reafirmar: não há um “outro mundo” platônico, ideal, imaterial, de onde nós saímos para cair “neste mundo” material, que seria mau porque material. A matéria é boa, foi neste mundo que nossos pais foram criados, aqui pecaram, aqui fomos redimidos, aqui seremos renovados no final. A ressurreição humana é material, a recriação de que tratam os dois últimos capítulos do Apocalipse é material.

Veremos como Tomás reafirma isso em sua resposta sintetizadora, que passamos a examinar agora.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Critérios para interpretar a Revelação nas Escrituras.

Não há nenhum problema em fazer uma leitura espiritual dos relatos bíblicos de criação, diz o próprio Santo Agostinho. De fato, há ali uma enorme riqueza de simbolismo, de significados espirituais, de verdades imateriais. Mas não se pode esquecer de que o relato é também factual. A Revelação está tratando, ali, da relação de Deus-Trindade com este mundo em que vivemos, e que foi criado por ele, e foi criado como lugar, como material e formal, como corporal e repleto de espiritualidade. Não devemos, pois, esquecer que a Bíblia não está relatando uma fábula, nem falando de outra realidade senão a nossa, em toda a sua concretude. Não podemos imaginar, então, que o paraíso seria uma espécie de reino das ideias transcendente, de estilo platônico, do qual nós caímos para vir para este mundo. Não. É deste mundo que o relato bíblico fala. O paraíso se deu aqui, como um modo de viver em pureza o projeto de Deus para sua criação.

O paraíso como orientação.

É certo que o paraíso se encontra fechado para nós, agora. Mas ele permanece como orientação, como sentido. É por isso que o relato descreve o paraíso como um jardim situado no oriente (Gn 2, 8). Para lembrar que o paraíso estava neste mundo mesmo, muito bem localizado e situado, embora já inacessível para nós, por conta do pecado. Mas é este mundo, este lugar, que deve ser redimido e que será transformado em novo céu e nova terra (Apocalipse 21, 1). Não podemos, pois, perder o paraíso de vista: a Bíblia ensina que ele está no oriente, ali onde a luz nasce em primeiro lugar a cada dia, o que nos lembra, também, a luz da ressurreição, que nos deve guiar.

Por isso tudo, não devemos nos deixar levar pela ideia de que não somos daqui, de que somos como que “anjos exilados num mundo material”, e de que o relato bíblico seja alguma espécie de alegoria ou fábula espiritual. Ela tem, é claro, a dimensão espiritual, mas ela é o relato sobre a relação do nosso mundo, deste mundo material, corporal, em que vivemos, por um lado, e Deus, criador e regente do mundo, por outro. Assim, nossos primeiros pais viveram sua vida imaculada em algum lugar deste mesmo planeta em que habitamos hoje, lugar em que floriu uma natureza em paz com os seres humanos e com Deus, e que foi perdido pelo pecado. O paraíso é, neste sentido, tanto um lugar quanto um modo de viver e de se relacionar com Deus. São dois aspectos inseparáveis desta verdade que é a criação.

3. Encerrando.

Bela aula de hermenêutica bíblica: o sentido literal deve sempre fundamentar o sentido espiritual. E, quanto à criação, ao paraíso, ao pecado e à queda, estamos tratando da história do ser humano mesmo, tal como vista sob os olhos da revelação. É deste mundo, é deste ser humano, que estamos falando.

Nos próximos textos examinaremos as respostas aos argumentos objetores iniciais.