1. Introdução.
Platonismo e a matéria má.
A filosofia grega, especialmente a platônica, tem uma dificuldade com a matéria. De fato, Platão é um espiritualista, que considera que o ser humano, em sua vida biológica, é essencialmente um anjo, uma alma subsistente que foi aprisionada num corpo; assim, a dimensão material, física, não faz parte da essência do ser humano, mas constitui, para Platão, algo mau, aprisionante, um verdadeiro desterro. As almas, segundo a doutrina exposta na obra “Fedro”, viviam felizes no mundo espiritual, mas, em razão das suas imperfeições e de ter de algum modo desagradado aos deuses, foram exiladas na vida corporal. Assim, a nossa vida biológica é uma provação, uma prisão, e neste sentido cada ser humano é “encarnado” para expiar suas culpas.
Ora, como sabemos, os seres humanos não são “espíritos encarnados”. Nós somos uma unidade, que é gerada simultaneamente em suas dimensões física, biológica, mental e espiritual. Seres humanos não “encarnam”, porque não há nada em nós que preexista a nós mesmos e que venha a “entrar” na matéria. Apenas para Jesus é que se pode falar em “encarnação”, já que ele existia como Verbo divino antes de ser gerado historicamente.
Vê-se, pois, a importância de reafirmar a materialidade mesma do paraíso: isto implica reafirmar a sacramentalidade da criação, quer dizer, a ideia de que a matéria não é alguma espécie de exílio mau em que fomos lançados por conta do pecado original, mas é algo que foi criado por Deus mesmo, desde o início, como elemento do que somos naturalmente. A matéria é sustentáculo da graça, o corpo é dimensão nossa, junto com a alma espiritual. A própria Igreja é corpo visível, Jesus encarnou-se e ressuscitou na carne, e seu corpo espiritual como que leva a matéria para dentro de Deus mesmo.
Negar, pois, que a criação é material desde o início, que o paraíso, ou seja, a vida inocente, deu-se de modo material, é cair num platonismo cujas consequências se repetem na história: desvalorização da corporeidade, do matrimônio como instância de santificação, dos sacramentos como sinais materiais da graça invisível de Deus. Daí a importância deste artigo: reafirmar a bondade da matéria.
Dois aspectos a observar.
Ao lê-lo, no entanto, devemos nos atentar a dois aspectos que nos parecerão estranhos, e que devem ser bem discernidos, porque o próprio Tomás os discerniu: 1) temos que ter cuidado para não canonizar uma visão científica do mundo, nem 2) podemos nos aferrar a determinadas leituras bíblicas muito rígidas, mas devemos estar prontos a aceitar a ciência como válida em seus limites e a exegese bíblica como uma ciência, e portanto também sujeita a desenvolvimentos.
Hoje, a leitura da Bíblia identifica duas narrações completas da criação, nos dois primeiros capítulos da Bíblia, ambos inspirados pelas mesmas linhas de verdade (dependência com relação a Deus, onipotência de Deus, bondade do mundo criado, etc.), mas que não devem ser como que “harmonizados” para produzir uma leitura que fosse um “terceiro texto” que força a concordância entre eles. Devemos respeitar as dificuldades textuais, sem negar as verdades ali transmitidas.
O outro ponto é respeitar a ciência sem canonizar sua visão. No tempo de Tomás, a física e a astronomia viam os corpos celestes como constituídos de uma “quinta essência”, mais perfeita do que os elementos terrestres. Hoje, nosso paradigma evolucionista fala em big bang, fala em evolução e até em multiversos, mas também sabemos que é próprio da ciência ser precária, superável, e por isso é sempre um risco tomá-la como definitiva e tentar harmonizar a Bíblia com ela. Corremos o risco de ver a Bíblia afundar junto com um paradigma científico ultrapassado, e a fé nas Escrituras ser caracterizada como irracional. Não precisamos correr este risco: a Bíblia não quer ser um livro de ciências, mas se caracteriza por ser a revelação da verdade necessária à nossa salvação. Nesta questão da Suma, devemos, pois, evitar atribuir à fé de Tomás aquilo que era limite científico e filosófico de seu tempo, e que ele respeitava.
Registremos, também, por oportuno, que reafirmar que a criação é física, que a condição da vida paradisíaca de nossos primeiros pais deu-se em algum lugar físico, não significa afirmar que este lugar seja acessível à investigação científica. Os sacramentos são físicos, corporais, e o próprio Jesus tem um corpo ressuscitado, mas o significado dessa dimensão física teologal não se dá à ciência, mas à fé. Também algo análogo pode ser dito da materialidade do paraíso: não pode ser objeto de investigações científicas, porque somente se abre à fé.
Vamos ao artigo.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial é platonizante, espiritualizante, e nega a concretude material do paraíso, assim como saiu das mãos de Deus. Ele seria um estado estritamente espiritual, não físico, e portanto não seria um “lugar”, ou seja, não seria corpóreo, material. Há cinco argumentos objetores iniciais, no sentido desta primeira hipótese.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Segundo São Beda, o paraíso se estenderia “até o círculo lunar”. Ora, se é assim, o paraíso não pode ser um lugar físico, geográfico, porque nenhum lugar da Terra se estende até o círculo lunar. Ademais, mesmo que existisse um lugar com centenas de milhares de quilômetros de altura, de modo a alcançar o círculo lunar, ele teria problemas com a atmosfera, a gravidade e tudo mais. Claramente, então, São Beda não está descrevendo um lugar geográfico, mas uma simbologia, um estado espiritual que não é um lugar físico. E assim é o paraíso: não é um lugar no sentido material, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Quando a Bíblia descreve o Paraíso, no segundo relato de criação, ela menciona quatro rios que correriam ali. Ora, a geografia demonstra que esses rios têm nascente e curso em lugares diversos daqueles descritos na Bíblia. Disso já sabiam até os antigos, uma vez que o próprio Aristóteles, em sua Meteorologia, descreve esses cursos d’água de modo completamente diferente do bíblico. Portanto, não se pode entender o paraíso como um lugar físico, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
A ciência investigou e mapeou todo o globo terrestre, mas nunca encontrou nenhum espaço geográfico que correspondesse à descrição bíblica. Logo, o que a Bíblia descreve, como sendo o paraíso, não pode ser um lugar no sentido corpóreo, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
A Bíblia, no segundo relato da criação, faz menção à “árvore da vida”, como uma planta que se encontrava no paraíso. Ora, o Livro dos Provérbios, 3, 18, diz que a sabedoria “é uma árvore de vida para aqueles que lançarem mãos dela”. Ora, a sabedoria é uma realidade imaterial. Se ela é a árvore da vida, então a árvore da vida é apenas um modo de falar de uma realidade que não é corpórea, mas espiritual, assim como todas as outras realidades relativas ao paraíso. Portanto, o paraíso, como descrito na Bíblia, não é uma realidade física, mas espiritual, conclui o argumento.
O quinto argumento objetor.
Se compreendermos o paraíso como uma realidade literalmente material, veremos que o relato bíblico está cheio de contradições. De fato, por exemplo, o relato menciona a criação das árvores “no terceiro dia”, mas em seguida, após descrever os seis dias da criação, menciona que o paraíso não possuía vegetação, e só depois as árvores foram plantadas. Assim, fica claro que a Bíblia descreve, sob uma linguagem que apela a figuras materiais, uma realidade puramente material. Portanto, o paraíso não era um lugar corpóreo, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
Segundo Santo Agostinho, há teólogos que defendem que o paraíso é estritamente espiritual e nada material. Há outros que entendem o relato de maneira estritamente literal, e acham que o paraíso foi apenas um lugar físico, um espaço geográfico e nada mais. Por fim, há quem entenda que a descrição diz respeito a aspectos corporais e espirituais da criação. E Santo Agostinho confessa que é esta última opinião que mais o agrada; dada a autoridade de Santo Agostinho, o argumento conclui que o paraíso é uma realidade com dimensões espirituais e corporais, conclui o argumento, negando a hipótese inicial.
5. Encerrando.
O artigo é longo e rico. Voltaremos a ele nos próximos textos.
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