1. Introdução.

A questão aqui não diz mais respeito à razão teorética, científica, que foi tratada no artigo anterior. Agora o que está em questão é a razão prática. Já sabemos que o intelecto das crianças, mesmo que fossem concebidas imaculadamente, sem os efeitos do pecado original, seriam como folhas em branco, e teriam que passar pelo processo de aprendizagem e descoberta para adquirir ciência e sabedoria. Mas a questão agora é outra: será que as crianças imaculadas já seriam capazes de ponderar suas próprias inclinações, seus afetos e paixões, de tal modo a submetê-los à razão, desde o primeiro momento? As crianças nascidas de modo imaculado já seriam maduras, prudentes, capazes de comportamento ponderado, desde o primeiro momento? Nasceriam prudentes?

Note-se que as coisas não são coincidentes. Na verdade, há pessoas que ainda não adquiriram grandes progressos em conhecimentos teóricos, mas são muito ponderados e prudentes no agir. É exatamente isto que agora debateremos: mesmo considerando que não possuíam ainda a ciência teórica, será que os recém-nascidos, se não fossem os efeitos do pecado original, seriam capazes de agir ponderadamente desde o primeiro momento? Acompanhemos este debate.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial, para provocar o debate, é a de que, se não fosse o pecado original, as crianças já nasceriam capazes de ponderar suas próprias ações, agindo racionalmente. Teriam maturidade, prudência, discernimento no agir, desde o primeiro momento de seu nascimento.

dois argumentos objetores que tentam comprovar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor cita o Livro da Sabedoria, 9, 15, que diz: “O corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime o espírito carregado de cuidados”. Ora, sob essa linguagem existe a afirmação bíblica de que a condição humana, sob o pecado original, é de desarmonia entre o corpo e a alma; o corpo, que deveria ser submisso à alma (inteligência e vontade), torna-se pesado, desobediente, desordenado e, portanto, insubmisso à razão. Nada disso ocorreria se não fosse o pecado original; logo, crianças imaculadas, nascidas sem os ônus do pecado original, teriam, desde o nascimento, um corpo submetido à razão, e portanto seriam capazes, desde o primeiro momento, de agir razoavelmente, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Muitos animais, imediatamente após nascer, já têm senso de estimativa em suas ações, e são capazes até de identificar predadores e fugir deles. Vê-se, por exemplo, na natureza, que muitos herbívoros fogem dos lobos imediatamente após nascer.

Ora, o ser humano é muito mais precioso que os animais irracionais. Logo, se os seres humanos fossem concebidos e nascessem no paraíso, sem os efeitos do pecado original, seriam ainda mais argutos do que os animais irracionais, e teriam capacidade de ponderar e reagir de modo prudente e razoável logo após o nascimento, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

Como sabemos, logo em seguida aos argumentos objetores, o artigo apresenta um argumento que se coloca de modo contrário à hipótese inicial e, quase sempre com base numa autoridade, procura negá-la.

No presente caso, o argumento usa apenas uma observação natural: a natureza sempre é processual, sempre caminha da potência para o ato, do imperfeito para o perfeito, do incompleto para o completo. Assim ocorre também com a natureza humana, e isto não é algo que decorre do pecado original, mas é próprio do ser humano mesmo.

Assim, nascendo com a necessidade de aperfeiçoamento e desenvolvimento de suas capacidades naturais, o ser humano, mesmo antes do pecado original, nasceria sem a plenitude da razão prática, e portanto incapaz de submeter suas ações à razão, conclui o argumento.

5. A resposta sintetizadora de Tomás.

Já vimos, em outros debates anteriores, que o ser humano é unitário, de tal modo que sua razão, mesmo sendo espiritual, não está dissociada das suas faculdades sensoriais, que são eminentemente corpóreas. Assim, se as capacidades sensoriais não estão perfeitamente desenvolvidas ou ativas, tampouco a razão pode operar de modo perfeito e desimpedido. É fácil constatar isto nas pessoas que estão dormindo, ou naquelas que possuem alguma condição neurológica ou psiquiátrica, ou mesmo nos que estão sob efeito de alguma substância psicoativa que represente algum obstáculo a essa integração.

Ora, como sabemos, as crianças recém-nascidas têm o corpo muito pouco desenvolvido, e portanto incapaz de fornecer a elas as funções corporais necessárias ao uso adequado da razão (a ciência, no tempo de Tomás, falava em “excesso de umidade cerebral” como a razão pela qual o sistema nervoso das crianças não funcionava adequadamente; hoje, sabemos que s razões são outras, mas isto não invalida o argumento, que se mantém igualmente válido).

É muito interessante notar, portanto, que Tomás, com a ciência de seu tempo, vê a alma espiritual da criança como íntegra e digna, embora ainda sem os conhecimentos que adquirirá durante a vida. Sua falta de controle corporal, portanto, não decorre de alguma falta de dignidade espiritual, mas da imperfeição corporal.

Assim, pela necessidade de amadurecimento biológico, mesmo que não houvesse ocorrido o pecado original, e que não estivéssemos marcados por seus efeitos, os bebês não seriam capazes de agir razoavelmente, conclui a resposta. Somente com o amadurecimento biológico é que esse autocontrole viria.

No entanto, por serem imaculados, não estariam sujeitos a certos comportamentos desordenados, como a birra, o imediatismo, o apego, a gula e o egocentrismo que às vezes vemos em crianças muito pequenas.

6. As respostas aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor, como lembramos, cita Sabedoria 9, 15, que registra que, se agora não temos total domínio racional sobre nosso corpo, isso se deve ao fato de que a nossa alma, após a queda, tem uma relação não adequadamente ordenada com o corpo. Ora, se é assim, então antes da queda a relação da alma com o corpo era de integração e ordem total, em todos os momentos da vida. Ou seja, já nasceríamos com o domínio racional sobre nós mesmos, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Existe, de fato, uma desarmonia entre o corpo e a alma, no sentido de que, após o pecado, o desenvolvimento das virtudes morais é lento e custoso, como efeito da queda. Antes do pecado original, a alma dominava integralmente o corpo, de modo fácil e natural. Mas isto não significa que o ser humano, antes do pecado, não tivesse que passar pelas etapas próprias da infância e da adolescência; o processo de amadurecimento, de crescimento e de desenvolvimento das virtudes, em sua progressividade, não é resultado do pecado, mas parte da própria natureza humana.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lembra que, mesmo em nosso mundo decaído, muitos animais irracionais têm domínio sobre o próprio corpo imediatamente após o nascimento, de modo que vemos muitos filhotes capazes de identificar e fugir dos predadores imediatamente após nascerem. Ora, o ser humano, sendo um animal racional, deveria ter uma constituição mais perfeita do que aquela dos irracionais. Assim, o fato de que não dominamos, pela razão, nossos corpos após o nascimento, não pode ser parte da natureza humana, mas efeito da queda; assim, as crianças que nascessem no paraíso, sem os efeitos do pecado original, dominariam imediatamente o próprio corpo, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Mesmo os animais irracionais cuja prole nasce apta a se mover ainda apresenta algum tipo de desenvolvimento entre o estágio do nascimento e a idade adulta, com a progressiva maturação corporal. Isto é, nenhum animal nasce completamente maduro, com todas as capacidades sensoriais e corporais inteiramente desenvolvidas, salvo aquelas espécies muito simples, com poucas atividades e sem muitos atributos de sensorialidade.

Ora, dentre todas as espécies, certamente a espécie humana é a mais complexa, a mais rica e a que mais demanda amadurecimento e transmissão de conhecimentos para atingir a plenitude da maturidade. No tempo de Tomás, a ciência atribuía isso a um “excesso de umidade” no cérebro das crianças, que seria progressivamente reduzido, de modo a possibilitar o amadurecimento. Hoje sabemos que o processo de desenvolvimento é muito complexo; possibilita, inclusive, a transmissão cultural, que é peculiar à nossa espécie. Assim, não é por causa do pecado original, mas pelas características naturais do ser humano, que passamos pela infância e adolescência e progredimos em conhecimento e autocontrole.

7. Concluindo.

A infância e a adolescência são fases naturais do ser humano. Belíssimas, concebidas por Deus e não resultado do pecado original. Elas nos ensinam o valor da confiança, da fecundidade como mais do que transmissão biológica e da naturalidade da família como algo diretamente querido por Deus. Precisamos redescobrir tudo isso.