1. Voltando para encerrar.

Aprender é parte da estrutura natural do ser humano. Assim, não saber não é um defeito. Haveria, pois, uma diferença entre não saber, por um lado, e estar mal-informado, compreender mal, distorcer. Estas últimas coisas não aconteceriam com pessoas imaculadas, que nascessem sem a marca do pecado original: seriam capazes de entender com facilidade, assimilar com perfeição, compreender com amplitude, lembrar sem distorções. Mas, ainda assim, teriam que passar pelo processo de descoberta ou de educação: precisariam investigar ou receber o ensinamento.

Examinemos, agora, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, que queriam comprovar que os seres humanos, se fossem imaculados, já nasceriam com todo o conhecimento natural que cabe a um ser humano. Veremos o modo elegante como Tomás os responde, corrige, completa e esclarece.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

Todo ser que se reproduz transmite à sua prole aquilo que ele próprio é. Ora, já vimos que nossos primeiros pais foram criados com plena ciência, ou seja, dotados de todos os conhecimentos naturais que um ser humano pode obter. Assim, eles deveriam transmitir esta característica a seus próprios filhos, se não fosse o pecado original e a respectiva queda. Portanto, quaisquer filhos que tivessem nascido no paraíso nasceriam com ciência plena, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Ter sido criado com a plenitude da ciência é algo peculiar a Adão e Eva; de fato, eles eram como que paradigmas, modelos para toda a espécie humana, de tal modo que neles todas as perfeições humanas eram plenas. Mas eles não foram gerados, e sim criados por Deus; daí esta peculiaridade acidental que, como dissemos, era um dom a eles, em razão de sua peculiaridade de terem sido criados e não gerados, e de serem os primeiros seres humanos, modelares para todos. De tal modo que a plenitude das virtudes (inclusive das intelectuais) não é parte da natureza humana, mesmo da natureza humana imaculada. Assim, mesmo as crianças que houvessem sido geradas de modo imaculado nasceriam sem a plenitude do conhecimento e teriam que passar pelo processo de descoberta e aprendizagem, porque isto é próprio da natureza humana, e não efeito do pecado original.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lembra que, segundo São Beda, a ignorância é uma marca do pecado original em nós. Ora, portanto, se não houvesse o pecado original, as crianças já nasceriam sabendo tudo e não ignorariam nada, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Há uma diferença, diz Tomás, entre a ignorância e o simples não saber. A ignorância, nos termos colocados por São Beda e associada aos efeitos do pecado original, diz respeito a algum conhecimento que seria adequado a uma idade e a uma determinada condição; o não saber diz respeito a algum conhecimento que não estaria naturalmente disponível àquele ente naquele tempo e naquelas condições.

Ora, as crianças são concebidas e nascem sem o saber, mas isto não as torna ignorantes neste sentido, mas apenas não-sabedoras. Como o próprio Jesus não sabia sobre os computadores e smartphones do século XXI, quando caminhava entre nós em Nazaré no século I. Mesmo os Santos Anjos não sabem tudo o que está no coração de Deus, como dizia o Pseudo-Dionísio, sem que isto signifique alguma ignorância da parte deles, mas apenas o próprio limite do não-saber criatural. Assim, não é por causa do pecado original que as crianças nascem não sabendo. Mas certamente uma criança que nascesse com uma natureza não marcada pelo pecado não teria dificuldade de adquirir o conhecimento adequado para cada fase do seu desenvolvimento, sem dificuldade ou desconforto. O efeito do pecado original no ser humano, aqui, pode ser percebido, então, no próprio processo de formação e educação, que transforma as crianças em adultos, que é tão penoso em nossa realidade decaída, e não seria, no paraíso.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor lembra que, na questão passada, debatemos e concluímos que as crianças que fossem geradas de modo imaculado, sem os efeitos do pecado original, já nasceriam justificadas, isto é, na graça santificante da amizade com Deus. Ora, a graça santificante eleva a natureza e a pressupõe. Logo, o fato de nascerem justificados implica dizer que nasciam já perfeitos em conhecimentos, intelectualmente maduros, capazes de se manter em amizade com Deus, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

As crianças nascidas de modo imaculado teriam discernimento suficiente, adequado para cada fase de sua vida, que os possibilitaria andar sempre em amizade com Deus. Para elas, seria simples discernir os princípios da razão especulativa e os princípios da razão prática de modo natural, de tal maneira que poderiam sempre caminhar na justiça de Deus. Muito mais do que nós, eles perceberiam tais princípios e suas implicações de modo natural e gradativo, e estes princípios, muito mais do que qualquer tipo de legislação positiva, seriam guia para seu agir. Assim, nasceriam com capacidade de discernimento muito mais aguda do que nós, hoje.

3. Concluindo.

Assim, como Maria Santíssima nasceu imaculada e Nosso Senhor Jesus Cristo não foi tocado pelo pecado, mas tiveram um percurso de crescimento nos conhecimentos e no discernimento, também as crianças que nascessem imaculadas, no paraíso, se não houvesse o pecado original, passariam por este mesmo processo de aprendizagem e educação; processo natural, embora, para eles, muito mais fácil do que para nós, que sofremos com os efeitos do pecado original.