- Retomando.
O fato de que é necessário conceber aqueles primeiros seres humanos, feitos diretamente por Deus, como seres humanos plenos e terminados, é algo que faz todo sentido: Deus se ocupou pessoalmente deles, e Deus não faz obra incompleta. Por outro lado, o destino da humanidade estava nas mãos deles, de tal modo que não poderiam tomar decisões desinformadas, mas responsáveis, de tal modo a empenhar integralmente sua responsabilidade – e a nossa. Mas estas razões não se repetem quanto à sua prole: aprender é próprio da natureza humana. Somos animais espirituais, e nossa existência se dá no corpo e pelo corpo. Não somos anjos, cuja existência se dá no intelecto e pelo intelecto.
Assim, mesmo que não houvesse a queda, o ser humano nasceria com a necessidade de aprender a partir da própria experiência: o próprio Jesus foi assim. Isto, a ignorância inicial das crianças, não é um defeito, mas uma característica.
Mas não nos adiantemos. Exploremos agora a própria resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
A autoridade como critério de razoabilidade para a Revelação.
As coisas sobrenaturais, que dizem respeito à essência de Deus e sua relação com os seres humanos, sempre nos chegam por revelação. O ser humano não consegue descobrir aquilo que está acima de sua capacidade natural, como é o caso da natureza dos anjos e, muito mais, da essência de Deus.
Mas no caso das revelações divinas, o mais importante é estabelecer a autoridade da revelação: a razoabilidade da fé consiste em termos motivos suficientes para crer na autoridade daquele que revela. Assim, a autoridade de Jesus vem da ressurreição, como a autoridade da Igreja vem da sua santidade, isto é, de ter sido estabelecida e enviada por Jesus e acompanhada pelo Espírito Santo.
Ora, uma vez que não teremos acesso, por nós mesmos, à essência de Deus ou à natureza dos anjos, posto que estão acima da nossa capacidade de investigar (embora não acima de nossa capacidade de receber a revelação e estabelecer sua razoabilidade), temos que ter bons motivos para confiar naquele que revela. Assim, quando se trata de revelação, a autoridade do que revela é a primeira coisa a ser determinada.
É por isso que não podemos aceitar qualquer revelação, mas só aquela lastreada pela própria autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, porque Ele mesmo é a revelação; assim, Ele mesmo é a única autoridade nessa matéria. Como diz São João da Cruz, citado pelo § 65 do Catecismo da Igreja Católica: “Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra – e não tem outra – (Deus) disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única e já nada mais tem para dizer. […] Porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o totalmente, dando-nos o Todo que é o seu Filho. E por isso, quem agora quisesse consultar a Deus ou pedir-Lhe alguma visão ou revelação, não só cometeria um disparate, mas faria agravo a Deus, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e buscar fora d’Ele outra realidade ou novidade”.
A investigação pelos sentidos como critério de razoabilidade das ciências humanas e naturais.
Por outro lado, aquilo que se pode e deve conhecer pela investigação humana, porque tem como objeto aquilo que é natural, material, humano, não é objeto de revelação, mas de investigação e ensino. É certo que a revelação às vezes menciona fenômenos naturais, mas ela não é autoridade em matéria de ciência. Isto Tomás já sabia, e sempre respeitou muito a ciência de seu tempo – como devemos, hoje, respeitar a ciência (a verdadeira ciência) de nosso tempo.
Por isso, para investigar a natureza humana, não devemos partir da ideia de que os seres humanos que foram criados por Deus seriam de uma natureza diferente daquela que temos hoje. O pecado original nos feriu, mas não destruiu nem modificou a natureza humana.
Ora, diferentemente dos anjos, que existem como intelectos, nós, humanos, existimos como animais intelectuais, isto é, não existimos por nosso intelecto. Por isso, nosso modo de conhecer é a aprendizagem. Aprender intelectualmente é próprio do ser humano, e só dele. E isto é próprio da natureza humana, com ou sem o pecado original. Uma criança que nascesse imaculada (como Jesus ou Nossa Senhora) teria que passar pelo processo de aprendizagem tanto quanto cada um de nós.
Assim, mesmo se não houvesse o pecado original, as crianças nasceriam desconhecendo a ciência natural e humana, e teriam que passar por um processo de descoberta e aprendizagem. Mas é claro que a perfeita ordem, que reinaria em nossa natureza caso não houvesse o pecado original, tornaria muito mais fácil educar e aprender, porque não haveria obstáculos de desordem para dificultar o processo. Estudar, pesquisar, descobrir, seriam atividades muito mais simples, não seriam penosas ou trabalhosas como são hoje.
3. Encerrando.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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