1. Introdução.

A teologia nos ensina que nossos primeiros pais foram criados com todo o conhecimento que um ser humano pode ter, ou seja, perfeitos em ciência. É claro que esta situação se deu no paraíso, ou seja, numa posição que, tendo ocorrido antes da queda, já não é mais acessível a investigações estritamente científicas, como a arqueologia, a paleontologia ou a ciência histórica: de fato, o que quer que o paraíso tenha sido, está fechado, hoje, ao nosso conhecimento natural, investigativo. Esta inacessibilidade está registrada em Gn 3, 24: às portas do Paraíso estão os guardiões de Deus e as chamas flamejantes. Mas faz sentido: o ser humano foi concebido em plenitude, por Deus. É isto que significa dizer que, no paraíso, ele foi criado em plena ciência. Todo conhecimento que podemos adquirir, nós o adquirimos porque ele é proporcionado a nós, fomos criados para conhecer e o conhecimento foi criado para ser adquirido a nós. Não haveria, no universo, áreas fechadas ao nosso conhecimento natural, se não fosse o véu do pecado. Isto motiva o desenvolvimento da ciência.

Mas  não é da própria natureza humana surgir na vida com toda a ciência; somos a única criatura capaz de apreender intelectualmente. Os anjos não aprendem: para eles, o ser e o saber têm a mesma extensão: eles são seu próprio conhecimento. Este não é o caso do ser humano: somos animais racionais, ou seja, existimos como animais, aprendemos como seres humanos. Mas o fato é que toda aprendizagem parte de uma ignorância: aquele que não ignora não precisa aprender.

Então a pergunta a ser respondida é: será que nossa ignorância original é um traço mesmo da nossa natureza, ou seja, seria próprio do ser humano surgir para a vida, ser concebido, em ignorância, ou isso é uma consequência do pecado original em nós? Se não houvesse o pecado, será que seríamos concebidos como nossos primeiros pais, ou seja, já em conhecimento pleno? Será que essa necessidade de aprender é resultado do pecado original, ou mesmo um ser humano concebido de modo imaculado teria essa abertura e essa necessidade de aprender?

Este é o debate neste artigo. Vamos a ele.

  1. A hipótese controvertida inicial.

Já sabemos que todo artigo da Suma começa com uma hipótese, sempre unilateral e desequilibrada, sobre o assunto, de modo a provocar o debate. Neste caso, a hipótese inicial propõe que nós todos deveríamos já ter sido gerados, concebidos no seio das nossas mães, já com todo o conhecimento sobre a criação, com toda a ciência, se não fossem os efeitos do pecado original. Isto é, a natureza humana, se não fosse ferida pelo pecado, não ignoraria nada, desde a concepção, e portanto essa ignorância original é fruto do pecado original, e não um traço da própria natureza humana, diz a hipótese. Há três argumentos objetores iniciais no sentido desta hipótese. 

  1. Os argumentos objetores iniciais.

Como sabemos, os argumentos objetores são aqueles argumentos que tentarão comprovar a hipótese inicial, mas que são também desequilibrados, e que receberão, depois, a devida retificação por Tomás. Cada artigo traz, também, como sabemos, um ou mais argumentos sed contra, isto é, que tentará negar a hipótese inicial, e também será analisado por Tomás em suas próprias respostas. Estudemos esses artigos, assim como eles são apresentados agora; nos próximos textos estudaremos as respostas de Tomás a eles.

O primeiro argumento objetor.

Os seres humanos transmitem aos seus filhos aquilo que são. Ora, nossos primeiros pais foram criados com ciência completa, ou seja, com todo o conhecimento que o ser humano pode obter. Ora, se é assim, se eles não tivessem cometido o pecado original, de tal modo a fazer com que a humanidade sofresse as consequências, eles transmitiriam a seus filhos aquilo que eles mesmos tinham: toda a ciência sobre todas as coisas, desde a concepção. Então o fato de sermos concebidos de modo ignorante é consequência do pecado, e não parte da nossa própria natureza humana, conclui o argumento. 

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lembra que, de acordo com São Beda, também a ignorância é fruto do pecado. Ora, a ignorância é exatamente a privação de conhecimentos. Portanto, o fato de nascermos privados de conhecimentos é um fruto do pecado de nossos primeiros pais. Logo, se o pecado original não tivesse acontecido, as crianças já seriam concebidas com todo o conhecimento intelectual que um ser humano pode adquirir, ou seja, sem nenhum tipo de ignorância intelectual, conclui o argumento. 

O terceiro argumento objetor.

Vimos, no texto anterior, que as crianças já seriam concebidas numa situação de amizade com Deus, pela graça santificante; ou seja, seriam justas desde a geração. Ora, para a justiça, ou seja, para viver a santidade efetivamente, é necessário ter os conhecimentos adequados para dirigir o próprio comportamento, vale dizer, deve ser provido da virtude da prudência, que é uma virtude intelectual. Portanto, nascer em justiça implica não ser ignorante, e as crianças que nascessem num mundo não marcado pelas consequências do pecado original já nasceriam sem nenhum tipo de ignorância, conclui o argumento. 

  1. O argumento sed contra

Aristóteles descreve a alma humana, na sua obra Sobre a Alma, Livro III, como uma folha em branco, na qual nada está escrito. Ora, o que está sendo descrito por Aristóteles, aí, não é simplesmente a condição da alma humana após o pecado, mas a própria natureza humana. Assim, mesmo que nossos primeiros pais não tivessem cometido o pecado original e nós vivêssemos no paraíso, as crianças seriam concebidas como uma página em branco, sem a ciência de todas as coisas, e teriam que aprender pela vida afora, independentemente de viverem no paraíso ou em nosso mundo decaído, conclui o argumento.

  1. Encerrando. 

Jesus nasceu imaculado. E nasceu de um ventre imaculado. Mas passou pelo processo humano natural de educar-se, de aprender, de crescer em graça, sabedoria e estatura diante de Deus e dos homens, como está escrito em Lc 2, 52. Esta é a natureza humana, não o efeito do pecado original, que não atingiu Jesus.

Mas estamos nos adiantando. No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás.