1. De volta.

A vida eterna, ou seja, a participação na própria vida divina, que Boécio já definiu como a posse total, simultânea e perfeita de uma vida interminável, difere de uma vida humana interminável. A vida interminável no tempo e no espaço, que é aquilo que nossos primeiros pais teriam se não tivessem caído pelo pecado, seria sempre uma vida contingente, aberta ao livre arbítrio, e portanto sem a visão beatífica. Esta seria a vida que eles transmitiriam a seus filhos, se não houvessem caído. E os seus filhos, que nasceriam imaculados, e portanto dotados da graça santificante, sempre estariam sob a possibilidade de pecar. Vale dizer, a graça santificante não implica necessariamente a glória eterna. Quem recebe a graça da justificação está sempre sob a possibilidade radical de rejeitar Deus e, com isso, perder a glória.

Examinemos, agora, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

No seu Comentário ao Livro de Jó, São Gregório diz que se nossos primeiros pais não tivessem caído pelo pecado, não gerariam jamais filhos para a perdição, mas somente eleitos, que se salvariam, agora, pelo nosso Redentor. Assim, se Adão e Eva não tivessem pecado, seus filhos já nasceriam justificados, incapazes de pecar e confirmados para a glória, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Quando São Gregório diz que os filhos que nasceriam dos nossos primeiros pais, se não fosse a queda, não seriam filhos para a perdição, ele quer dizer que os filhos de Adão e Eva não nasceriam em inimizade com Deus, mas nasceriam já justificados, se não fosse o pecado original. Não se pode, porém, deduzir daí que eles não poderiam cometer pecados pessoais e perder a justificação inicial; de fato, poderiam. O pecado sempre seria uma possibilidade em sua vida, salvo se Deus os mantivessem sempre imaculados, por uma relação de pertença e oração permanente com ele, em sua divina Providência. De fato, Nossa Senhora, que nasceu imaculada e plena de graça santificante, foi preservada de todo pecado em toda a sua vida, por especial providência de Deus; o mesmo poderia ocorrer com os filhos imaculados dos nossos primeiros pais, se tivessem nascido num mundo não marcado pela queda.

O segundo argumento objetor.

Segundo Anselmo da Cantuária, se nossos primeiros pais tivessem resistido àquela primeira tentação, e vivessem sem pecar, seriam confirmados na amizade de Deus de tal modo que já não pecariam, nem eles, nem sua prole. Assim, se não houvesse a queda, as crianças já nasceriam salvas, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Anselmo está apenas especulando, e não afirmando com autoridade aquilo que ele propõe sobre esta hipótese, diz Tomás. É um exercício de imaginação, o que fica claro pelo fato de que neste texto ele usa expressões como “parece que…”. Assim, não podemos tomar o texto de Anselmo como prova para nada.

O terceiro argumento objetor.

O bem é mais poderoso que o mal. Ora, se do pecado de nossos primeiros pais, que foi um mal, resultou a inclinação de todos os seus descendentes para o pecado e o mal, então, se eles tivessem resistido à tentação e vivido sempre virtuosamente, resultaria para seus descendentes uma inclinação indefectível para o bem, de tal modo que não poderiam pecar. Assim, se nossos primeiros pais não tivessem pecado, seus filhos jamais pecariam, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

O argumento é fraco e inconvincente, diz Tomás, embora o próprio Anselmo de Cantuária tenha sido seduzido por ele. É claro que estamos, também aqui, no terreno da pura especulação, mas, ainda assim, o argumento não tem força lógica.

De fato, diz Tomás, os filhos de Adão e Eva nascem inclinados ao mal. Mas isto não significa que não possam ser salvos: eles ainda são capazes de, uma vez atingidos pela graça, experimentar a conversão e ser justificados, persistir no bem e alcançar a glória, pela via aberta por Jesus. Isto é, não nascem condenados ao mal eterno, mas são redimíveis, como, aliás, Jesus veio fazer.

Assim, se Adão e Eva não pecassem, o fato de que esta inclinação para o mal não existiria não significaria que eles já não pudessem pecar: do mesmo modo que, marcados pelo pecado, inclinamo-nos ao mal mas podemos ser justificados pela graça, se não fôssemos marcados pelo pecado não estaríamos livres de uma eventual queda no pecado pessoal. Aqui, nos dois casos, há inclinações, não necessidade confirmada. Esta, a confirmação imutável, só existe na vida eterna para aqueles que alcançarem a glória, ou na danação eterna para os que a rejeitarem.

O quarto argumento objetor.

Quando Lúcifer caiu, os anjos que o seguiram foram imediatamente confirmados eternamente no mal. De modo similar, os anjos que se mantiveram fiéis a Deus e resistiram a seguir Lúcifer foram confirmados imediatamente na glória, de modo que já não poderiam mais pecar. Assim, se nossos primeiros pais tivessem resistido à tentação e optassem pela fidelidade a Deus, teriam sido imediatamente confirmados na graça e já não estariam submetidos ao pecado, de modo que nem eles, nem sua prole, estariam mais sujeitos ao pecado e à queda, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Os seres humanos não são como os anjos, neste particular. Os anjos não são seres biológicos como nós, não estão aprisionados no tempo e no espaço como nós. Nossas decisões são sempre parciais, concretas, limitadas, perfectíveis, condicionadas, diferentemente dos anjos, que sempre decidem incondicionalmente, irremediavelmente, de modo universal e necessário. Assim, não há paralelo entre a decisão de Adão e Eva quanto ao pecado, que deixou espaço para a redenção, e a queda de Lúcifer, para o qual esse espaço não existe. Como não existirá para nós após a morte, quando já não estaremos presos ao tempo e espaço e, portanto, já não poderemos mudar nossas opções. Mas a queda de Adão e Eva deu-se na vida biológica, na qual sempre há margem para redenção. Portanto, mesmo se eles não tivessem caído, cada um dos seus filhos, mesmo nascendo imaculados e dotados da graça santificante, estariam sempre sujeitos a tentação e queda.

3. Concluindo.

Estudando esta questão tão profundamente especulativa, devemos levantar as mãos para o céu e agradecer a redenção oferecida por Jesus, que nos concede a graça e nos abre a glória.

Grande foi a culpa de nossos primeiros pais. Mas ali onde abundou o pecado, superabundou a graça, como nos lembra São Paulo em Romanos 5, 20. Glória a Deus por isso.