1. Retomando.

Vimos, no texto anterior, que a perspectiva, no paraíso, seria de uma vida infinitamente extensa, não marcada por doença ou morte, daqueles que nascessem ali, sem a marca do pecado original. Mas as portas da vida eterna, daquela que ressurge como ressurreição após a cruz, só nos foi aberta por Jesus: está aqui a origem do velho ditado que diz: “Deus não permitiria o mal se não pudesse retirar dele um bem maior”. De fato, do bem da liberdade, que pressupõe a possibilidade de falhar na identificação, aceitação e realização do bem, veio a queda; mas dela surgiu a ressurreição.

Vimos, no texto anterior, que o debate girava em torno da ideia de que o fato de nascer imaculado e já provido da graça santificante, num mundo não marcado pelo pecado original, já implicaria necessariamente a salvação final para todas as pessoas, sem que houvesse a possibilidade de que, pecando, optassem contra Deus e se perdessem. Vimos a hipótese que propunha isso, bem como os argumentos objetores que tentavam comprovar essa hipótese.

Examinemos agora a resposta sintetizadora de Tomás.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Adão e Eva, no paraíso, tinham a graça santificante que permitia a eles entrar em relação com Deus, embora uma relação ainda mediada, ou seja, não uma relação de bem-aventurança final; eles não podiam ver Deus face a face. Eram, pois, justificados pela graça, mas não eram, ainda, bem-aventurados na glória – poderiam rejeitar Deus pelo pecado, e de fato foi isso que fizeram. Eles tinham o livre arbítrio, poderiam rejeitar a liberdade que Deus lhes concedia e optar pelo pecado. Ainda não gozavam, pois, da liberdade final e completa de estar na presença do Bem absoluto. Embora, antes do pecado, fossem imaculados.

Ora, se esta era a condição de Adão e Eva no paraíso, eles não poderiam transmitir aos filhos, que ali eventualmente fossem gerados, mais do que aquilo que possuíam: a graça santificante, mas não a glória final. Os filhos não podem nascer com mais perfeição do que os pais, porque, repita-se, os pais não podem transmitir aos filhos senão aquilo que possuem.

Há um outro aspecto interessante a ser levantado aqui: a própria procriação é um fato biológico.

Ora, diz Tomás, a vida eterna na glória não é uma vida biológica. Ali, onde os bem-aventurados veem Deus face a face, já não há mais a possibilidade do pecado. De fato, Deus é todo o bem, é o bem no sentido puro e absoluto. Quem vê Deus face a face não escolhe nada contra Deus, porque não há bem que possa ser mais atrativo, mais completo, mais perfeito do que o próprio Deus. Para falar metaforicamente, seria como estar faminto num restaurante de comidas deliciosas e gratuitas e preferir sair à rua para pagar caro pelo direito de comer dejetos podres numa lixeira: ninguém que tivesse acesso àquele restaurante faria isso. Simplesmente não faria sentido. Assim, quem está na glória, quem vê Deus face a face, já não exerce livre arbítrio: o livre arbítrio consiste em escolher entra coisas que não são bens absolutos, ponderando seus aspectos de bem. Mas a vida eterna na glória consiste em ter o bem absoluto numa posse infinita, gratuita e saciante. Não há mais o que escolher.

Ora, na vida biológica não há a visão da glória. Portanto, todas as coisas perante as quais temos que escolher, mesmo a relação mediada com Deus que a graça nos possibilita aqui no mundo, são bens limitados. Portanto, nesta vida biológica, em que há a reprodução, há sempre a possibilidade de escolher mal, ainda que sob o influxo da graça. Essa possibilidade existia para Adão e Eva (e eles escolheram mal). Essa possibilidade haveria para qualquer criança que houvesse nascido deles, se o pecado original não tivesse ocorrido. Essa possibilidade existe para nós, que nascemos como filhos de Adão e Eva num mundo marcado pela queda.

Assim, em nosso mundo, mesmo que as crianças nascessem sem a marca do pecado original, estariam sempre expostas a escolher contra Deus e pecar, rejeitando-o. Somente uma concessão excepcional de Deus, que assistisse alguém com graças plenas e especialíssimas, faria com que essa pessoa ficasse preservada de escolher mal: acreditamos que esse foi o caso de Maria Santíssima. Mas não é o nosso caso, nem o caso da humanidade inteira. Nem de Adão e Eva.

Ora, a glória final, que faz com que os santos contemplem Deus por essência e já não sejam movidos a pecar, é algo que ocorre após a morte, e por isso não ocorreria no paraíso com Adão e Eva. Quem está na glória, e mesmo quem já ressuscitou materialmente (como Jesus e Maria), não se reproduz mais, porque tem corpo espiritual, não tem mais o corpo biológico.

Portanto, se Adão e Eva tivessem filhos no paraíso, antes da queda, essas crianças nasceriam justificadas pela graça santificante, como os próprios primeiros pais o eram. Mas não nasceriam com a visão beatífica da glória, e portanto não estariam na situação final e definitiva de salvação, na qual já não poderiam escolher o pecado. Poderiam cair, como Adão e Eva caíram.

3. Encerrando.

Esta é, também, a nossa situação: mesmo tendo recebido, sem merecimento, a justificação por Jesus, pela cruz e ressurreição, a perda da glória é sempre uma possibilidade para nós: quem está de pé, veja que não caia, diz São Paulo em 1 Cor 10, 12.

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.