1. Introdução.
Vimos, no artigo anterior, que se não tivéssemos sofrido os efeitos do pecado original, nossos primeiros pais teriam transmitido a seus filhos uma natureza ordenada, imaculada, coroada imediatamente com a graça santificante que traz a justificação, ou seja, a amizade com Deus. O problema a ser debatido, agora, decorre daquele: será que, tendo nascido imaculados e imersos na graça santificante, aqueles que nascessem sem o pecado original estariam necessariamente salvos, isto é, já não poderiam mais pecar?
Algumas considerações precisam ser feitas, aqui. A primeira é a respeito da própria natureza da liberdade. A liberdade não consiste essencialmente na capacidade de escolher indiferentemente entre o bem e o mal, ou seja, ela não se confunde com o livre arbítrio. Se assim fosse, os santos não seriam livres: no céu não há mais a possibilidade de escolher o mal. Assim, precisamos entender a liberdade adequadamente: ela consiste na capacidade de reconhecer o bem e dirigir-se a ele livremente, alcançando-o, de modo a não se enganar nesse percurso. Livre é aquele que é capaz de identificar o bem e optar por ele por um movimento virtuoso, interno, de todo coração, sem coação ou violência, e de seguir com alegria e unidade de espírito até ele, sem se enganar, sem errar o caminho, sem se deter, até alcançá-lo e repousar nele, plenificando-se. O livre arbítrio é um acidente do caminho para o bem.
Além disso, é impossível escolher o mal sob razão de mal. O mal, por definição, é aquilo que afasta a vontade, afasta qualquer inclinação, repele as tendências. Deste modo, tudo o que é escolhido, é escolhido sob a razão de bem. Mesmo quem escolhe e pratica o mal o faz porque vê, nele, alguma razão de bem. Está enganado, neste caso: troca o bem real, divino, absoluto, por algum bem aparente, criado, limitado, sensorial, superficial. O mal, portanto, do ponto de vista moral, é a troca do bem maior pelo menor. Isto implica, também, rejeitar a salvação: quem, pelo uso do livre arbítrio, troca o bem real pelo aparente, ainda que em assuntos que, superficialmente, não digam respeito a Deus, compromete a própria salvação: fica na situação daqueles que dizem “Senhor, Senhor”, mas honram a Deus com os lábios e têm o coração longe dele (Mt. 7, 21 e Mt 15, 8, que cita Isaías 29, 13).
Assim, na verdade, escolher o mal sob a aparência de bem, embora seja uma possibilidade incluída no livre arbítrio, não faz parte da liberdade. A possibilidade de escolher o mal, contida no livre arbítrio, existe para que alcançar o verdadeiro bem seja realmente algo interno, pessoal, não coagido nem violento. Neste sentido, somente os santos são verdadeiramente livres, porque não há nenhum bem em sentido próprio, nenhum bem verdadeiro, que esteja fora de Deus – e isto significa que quem repousa em Deus tem a liberdade plena, e já não tem livre arbítrio – simplesmente porque ele não é mais necessário. Somente em Deus somos plenamente livres para repousar no bem absoluto!
O outro aspecto que precisa ser lembrado é a diferença entre viver para sempre (promessa que havia para nossos primeiros pais, no paraíso), e entrar na vida eterna, que é a promessa que Jesus traz para nós hoje. Viver para sempre significa estar para sempre inserido no tempo e no espaço, sem morrer, sem envelhecer, sem adoecer. Assim viveriam os seres humanos se não houvesse acontecido a queda, e é isso que buscam, hoje, alguns milionários e cientistas, inclusive sob a descrição de “trans-humanismo”: uma vida terrena para sempre. Mas o que Jesus nos oferece é infinitamente maior: participar da própria vida divina, que é, de acordo com Boécio, “a posse total, simultânea e perfeita de uma vida interminável” (como já debatemos na questão 10 da Suma). A vida eterna dos bem-aventurados que foram resgatados por Jesus ultrapassa, pois, infinitamente, qualquer promessa que havia no paraíso, bem como qualquer possibilidade da ciência, da tecnologia ou do dinheiro.
Por isso, façamos as seguintes distinções: 1) justificação não é salvação; 2) viver para sempre não é ter vida eterna.
Com estes dois pressupostos em mente, examinemos agora este artigo.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial quer propor que, se não houvesse o pecado original que pesa sobre nós, fazendo-nos nascer já em inimizade com Deus, todas as crianças nasceriam não somente em amizade com Deus, providas da graça santificante, como já estariam confirmadas nesta amizade para sempre e, portanto, impossibilitadas de pecar e definitivamente salvas. A justificação pela graça, o nascimento imaculado, num mundo não afetado pelo pecado original, implicaria a impossibilidade de perder a amizade de Deus e, portanto, a impossibilidade de escolher o mal e a confirmação na salvação eterna desde o nascimento.
Há quatro argumentos objetores iniciais, que tentam confirmar esta hipótese. Vamos a eles.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Na sua obra sobre a moral, São Gregório, comentando o Livro de Jó 3, 13 (“Estaria agora deitado e em paz, dormiria e teria o repouso”), afirma que se os efeitos podres do pecado não tivessem ferido os nossos primeiros pais, eles não gerariam filhos para a perdição, mas apenas filhos escolhidos para a salvação que agora nos é oferecida por Nosso Senhor Jesus Cristo”. Assim, se nosso mundo não estivesse marcado pelos efeitos do pecado original, todos os seres humanos já nasceriam necessariamente salvos, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento cita Santo Anselmo, que, em sua obra Cur Deus Homo, aforma que se nossos primeiros pais tivessem vivido de tal modo que, frente a tentação que sofreram, tivessem resistido e não tivessem pecado, seriam imediatamente confirmados na amizade com Deus, eles e sua descendência, de tal modo que pecar já não seria uma possibilidade para eles. Ora, isto significa que, se nossos primeiros pais não tivessem caído, seus filhos, nascidos imaculados, já estariam confirmados eternamente na amizade com Deus: nasceriam salvos, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O bem é Deus. O mal é uma privação. Ele, a rigor, não é. Logo, não há dúvida de que o bem é mais poderoso do que o mal. Portanto, as consequências do bem, de escolher e fazer o bem, devem ser maiores do que as consequências de escolher e fazer o mal, diz o argumento. Ora, se o pecado de Adão e Eva, ao escolher e fazer o mal, marcaram para sempre seus descendentes com a inclinação naturalmente insuperável para o mal, então se eles tivessem recusado o pecado e agido sempre no bem, deixariam para os seus descendentes uma inclinação natural insuperável para o bem, isto é, os descendentes dos nossos primeiros pais, se não fossem as consequências do pecado, já nasceriam justos, impossibilitados de pecar e, consequentemente, necessariamente salvos, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
Quando houve a queda de Lúcifer, os anjos foram confrontados com a necessidade de optar por Deus, sendo confirmados permanentemente no bem, ou optar contra Deus e confirmados eternamente na perdição irremediável. Aqueles anjos que optaram por Deus foram confirmados na salvação eterna, e já não podiam pecar nem se perder.
Ora, de modo análogo, diz o argumento, se nossos primeiros pais tivessem optado por não pecar frente a tentação demoníaca que sofreram, teriam sido confirmados em sua opção por Deus de modo definitivo, de tal modo que já não poderiam ser afastados dele; assim, quando se reproduzissem, sua prole herdaria essa confirmação eterna, que já era deles, e portanto já nasceriam num estado permanente de salvação eterna, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra cita Santo Agostinho, que na obra Cidade de Deus afirma que A sociedade humana inteira, completa, seria integralmente feliz se os primeiros pais não tivessem transmitido o mal a seus descendentes, e se tampouco algum descendente seu tivesse cometido. Ora, parece claro, pois, que Santo Agostinho acreditava que mesmo que não houvesse o pecado original, os descendentes de Adão e Eva teriam o livre arbítrio para pecar, e de fato poderiam pecar e perder a salvação; deste modo, não estariam salvos do pecado e da perdição desde o nascimento, conclui o argumento.
5. Encerrando.
A justificação, ou seja, estar em amizade com Deus, receber a graça santificante, não retira a necessidade de alimentar, na prática e por nosso agir concreto, esta amizade. O pecado, mesmo quando não seja um pecado diretamente cometido contra Deus, mas contra nós mesmos ou nossos semelhantes, pode nos retirar da graça e nos fazer perder a salvação, mesmo que imprudentemente nos consideremos “salvos só pela fé”. E seria assim, mesmo que não estivéssemos num mundo caído pelo pecado.
Mas estamos nos adiantando. No próximo texto veremos a resposta de Tomás a este assunto tão tormentoso.
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