1. De volta.
Deus não regateia a graça. Ela é de graça, como o nome diz. Mas pressupõe a natureza humana: pode ser rejeitada. Esta relação entre natureza e graça não é mágica: a graça pressupõe a natureza e a eleva, diz um velho ditado medieval. A graça não vai, por exemplo, transformar num músico litúrgico alguém que nunca aprendeu a tocar. É preciso saber tocar naturalmente para poder, pela graça, louvar a Deus por seu instrumento musical.
Assim, vale recordar que a natureza humana não tem a capacidade de ver diretamente a essência divina. Somente o igual vê o igual: só Deus pode se ver. Por isso, no paraíso, antes da queda, nossa relação com Deus era fundamentada na graça que ele nos concedia e que, elevando nossa natureza humana, possibilitava uma relação de amizade com ele. Com o pecado original, a natureza humana não foi destruída, mas a graça foi perdida; ora, se a natureza foi criada com a abertura para receber a graça e ser elevada, perder a graça deixa a natureza humana ferida, incompleta, aberta para um complemento que ela própria rejeitou. É essa natureza ferida, destituída da graça, que é transmitida aos descendentes de Adão. Como um ex-milionário que transmite apenas dívidas para seus filhos, nós recebemos de Adão e Eva a falência da relação com a graça. E se não houvesse o pecado original?
Vimos, no texto anterior, que a natureza imaculada teria a abertura perfeita para a graça, como o anjo Gabriel nos mostrou quando saudou Maria: salve, plena de graça! (Lc 1, 28). Os filhos de Eva seriam assim, imaculados pelo pecado e plenos de graça, vimos ali.
Veremos, agora, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor cita Hugo de São Vítor, que afirmou: os nossos primeiros pais, antes da queda, gerariam filhos imaculados, mas não transmitiriam a graça como uma herança paterna. Logo, se vivêssemos num mundo não marcado pela queda, as crianças não nasceriam necessariamente em amizade com Deus, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A graça vem sempre de Deus; dela gozaram Adão e Eva antes da queda. Ora, os filhos de Adão e Eva nasceriam com a predisposição para a graça, e em amizade com Deus por causa da amizade dos pais. Mas a graça não chegaria a eles como uma espécie de “direito hereditário” que recebessem de Adão e Eva, porque aí já não seria graça, mas direito a ser reivindicado. Tendo nascido na amizade entre os seres humanos e Deus, esta amizade prosseguiria, Deus concederia sua graça, mas, ainda assim, ela adviria do amor de Deus e teria que ser acolhida na liberdade pelos filhos, e não de uma “transmissão” incondicionada e impositiva a partir dos pais. Portanto, diz Tomás, Hugo de São Vítor não está falando, aqui, das disposições para esta amizade, que seriam efetivamente recebidas pelos filhos de Adão e Eva apenas em razão do estado habitual de amizade com Deus. Ele fala da efetividade desta amizade nos filhos, que não suprimiria, neles, a liberdade de rejeitá-la. Isto será explicado ainda melhor na próxima resposta de Tomás.
O segundo argumento objetor.
A amizade com Deus, que as Escrituras chamam de justiça, vem da graça divina. Ora, a graça não se transmite, porque a reprodução transmite apenas a natureza dos pais aos filhos, e a graça não é parte da natureza, mas é algo concedido especialmente por Deus. Então os filhos de Adão e Eva, se não houvesse a queda pelo pecado, não nasceriam necessariamente justos, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Vamos examinar também, logo, o terceiro argumento objetor, já que a próxima resposta de Tomás examinará e abrangerá os dois.
A reprodução humana é um fato biológico. Por isso, ela transmite aos filhos toda a carga biológica humana. Mas a amizade com Deus, que chamamos de “justiça”, é um fato espiritual. Relaciona-se com nossa alma espiritual, não com a nossa biologia. Mas a nossa alma espiritual não é transmitida biologicamente, mas criada individualmente por Deus. Assim, nem nossa alma espiritual é transmitida pelos pais, logo nem tampouco a justiça original seria, conclui o argumento.
A resposta de Tomás a esses dois argumentos.
A resposta de Tomás, aqui, usa o jargão teológico: de fato, diz ele, a graça é gratuita, e por isso é graça.
Em razão dessa gratuidade, alguns defenderam que os filhos de Adão e Eva, se não tivessem nascido após o pecado original, não nasceriam dotados da amizade com Deus, no sentido daquela amizade que permite ao ser humano agir bem no campo sobrenatural, mas apenas com a natureza imaculada que, teologicamente, chamamos de justiça original.
Ocorre que não se pode fazer essa separação. De fato, no estado original de inocência, nasceríamos retos, ordenados a Deus, com uma natureza imaculada, prontos para receber e viver a graça santificante, mas a própria condição de pureza imaculada é inseparável da graça, que permite e viabiliza que a nossa natureza humana esteja perfeitamente submetida ao amor de Deus. Essa graça que nos permite viver santamente, e que por isso é chamada de graça santificante, foi concedida por Deus aos nossos primeiros pais junto com a sua criação mesma, ou seja, com a sua natureza humana ordenada vem inseparavelmente a graça. Por isso, os filhos do paraíso receberiam dos pais uma natureza imaculada, e junto com ela Deus concederia a graça santificante, infalivelmente, como dom. Ela, de fato, não seria transmitida aos filhos pelos pais, mas nem por isso deixaria de estar sempre presente desde a concepção dos filhos, porque Deus mesmo participa dessa concepção, criando a alma espiritual de cada novo ser humano e, no caso de serem imaculados, concedendo-lhes desde logo a graça santificante. O fato de que a graça é dom não significa que ela não estivesse presente desde logo: do mesmo modo que a ação de Deus faz com que, na concepção de novos seres humanos, a alma espiritual seja infalivelmente criada, sem que os filhos deixem, por isso, de ser filhos dos seus pais biológicos, também o fato de que a graça santificante é concedida como dom elevante de Deus não deixaria de acontecer a cada nova concepção, se não tivesse ocorrido a queda original. Não podemos dividir radicalmente os seres humanos entre uma “biologia” transmitida pela reprodução e uma “espiritualidade” criada diretamente por Deus: somos uma unidade indivisível, a pessoa humana, que, se não estivesse sob os efeitos do pecado original, nasceria imaculada e justa.
3. Concluindo.
O pecado original retirou parte de nossa herança, que era a justiça original. A amizade com Deus. Nós a rompemos, por culpa nossa. Culpa infinita, que jamais poderíamos corrigir sozinhos, porque somos finitos. Somente Jesus, Deus e homem, poderia recuperá-la para nós.
Deixe um comentário