1. Introdução.
Nesta questão, debateremos um assunto importante, que ainda causa grandes debates, por exemplo: entre católicos e protestantes: a diferença entre justificação e salvação. É preciso, em primeiro lugar, lembrar que, teologicamente, a justificação tem a ver com a amizade com Deus: justo não é simplesmente aquele que cumpre leis ou que dá a cada um aquilo que é seu; justo é quem está na amizade de Deus. A amizade de Deus é um dom, algo que não se compra nem sequer se conquista. Deus não está à venda, nem pode ser seduzido. Quando Adão e Eva pecaram, cometendo o pecado original, romperam voluntariamente a amizade com Deus. É claro que, sem amizade com Deus, não há salvação possível. E é claro que a amizade com ele, ou seja, o estado de justiça, é pura graça, sem nenhum merecimento do homem. Mas a Igreja Católica sempre defendeu, com base em textos da Escritura, que estar justificado não implica necessariamente estar salvo: dizendo mais tecnicamente, a justificação é um pressuposto necessário para a salvação, mas não é condição única e suficiente. De fato, aos justificados, é preciso manter essa amizade, vivendo de acordo com a fidelidade a Deus, de tal modo a morrer em paz com ele e poder entrar na glória. Em outras palavras, a graça que nos faz estar em amizade com Deus precisa ser vivida coerentemente, de tal modo que, ao fim da vida, possamos entrar na glória. A graça não pode ser conquistada, mas pode ser perdida, como pode ser aumentada, pelo modo com que o ser humano vive coerentemente sua amizade com Deus. O exemplo maior é o de Adão e Eva: nasceram em justiça, em amizade com Deus, viveram na graça mas perderam a salvação porque escolheram o pecado.
É claro, pois, que a salvação pode ser perdida – e portanto de certo modo sua conquista envolve o mérito do ser humano. Isto será debatido no segundo artigo desta questão. Neste primeiro artigo, o debate é sobre essa amizade inicial com Deus que se chama, teologicamente, justiça. Sabemos que Adão e Eva estavam em justiça, quando foram criados. Sabemos que perderam a justiça pelo pecado, e com isso todos os seus descendentes também a perderam (ninguém transmite aquilo que não tem). O debate, aqui, envolve o seguinte: se não houvesse o pecado, os descendentes dos nossos primeiros pais, que tivessem nascido imaculadamente no paraíso, nasceriam já em amizade com Deus, ou seja, nasceriam justos?
Vamos ao debate.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida, aqui, para estimular o debate, é a de que, se nossos primeiros pais não tivessem pecado e tivessem procriado no paraíso, no estado imaculado inicial, seus filhos não nasceriam em amizade com Deus; isto é, não nasceriam justificados no sentido teológico do termo. Note-se que o debate, aqui, não é sobre a salvação final, ou seja, sobre entrar na glória eterna, mas sobre a justificação inicial, isto é, sobre a amizade com Deus. De fato, Adão e Eva foram criados justos, mas perderam a justiça pelo pecado original. Se eles não tivessem pecado, a sua prole já nasceria em amizade com Deus, ou seja, os filhos de Adão e Eva já nasceriam justos?
Não, eles não nasceriam necessariamente justos, diz a hipótese inicial. Há três argumentos objetores iniciais, que tentarão demonstrar que a justiça de Adão e Eva não se transmitiria automaticamente para os filhos que tivessem no paraíso. O pressuposto, aqui, é a de que a reprodução humana, mesmo imaculada no paraíso, apenas transmitiria a natureza humana, e não a graça da amizade com Deus que, justamente por ser graça, seria personalíssima, e portanto não transmissível. Examinemos os argumentos objetores.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor cita Hugo de São Vítor, que afirmou que os nossos primeiros pais, se não tivessem caído pelo pecado, gerariam uma prole sem pecados, mas não necessariamente justificados, ou seja, transmitiriam uma natureza humana em perfeito estado, não tocada pelos efeitos do pecado, mas não a amizade com Deus, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
A amizade com Deus é puro dom da graça divina. Ora, dons não se transmitem, apenas são recebidos e aceitados. O dom da amizade com Deus não é parte da natureza humana: somos criaturas, e apenas podemos ser justos, ou seja, amigos de Deus, se ele próprio nos conceder essa amizade. Logo, os primeiros pais, mesmo antes do pecado original, não poderiam transmitir a graça da justificação aos seus filhos, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Na reprodução humana, não são os gametas dos genitores que causam o surgimento da alma espiritual do filho: sendo espiritual, ela não pode resultar da transmissão das informações biológicas, mas de uma criação direta e individual por Deus, que participa, assim, do processo de reprodução humana a cada vez que um novo ser humano é gerado.
Assim, a alma não é transmitida pelos pais, mas criada diretamente por Deus.
Ora, a justificação, ou seja, a amizade com Deus, é algo que se relaciona com a alma espiritual dos seres humanos. Mas se a alma espiritual não é transmitida aos filhos pelos pais, tampouco faria sentido dizer que a justificação, que reside nela, pudesse ser transmitida aos filhos pelos pais. Logo, os filhos de Adão e Eva, mesmo que tivessem nascido no paraíso, e mesmo que não houvesse o pecado original, não nasceriam justificados, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra traz a autoridade de Anselmo da Cantuária que, tratando da concepção virginal, afirma expressamente que a prole dos nossos primeiros pais, se não houvesse ocorrido o pecado original, seriam concebidos logo em justiça, por Deus mesmo que lhes infunde a alma espiritual. Quer dizer, junto com a alma espiritual imaculada, receberiam de Deus, na concepção, já a sua amizade e, portanto, nasceriam justos.
5. A resposta sintetizadora de Tomás.
A geração faz transmitir à prole as caraterísticas biológicas da espécie. Disso sabe a ciência biológica. Filhos de seres humanos são sempre seres humanos. É certo que, algumas vezes, há falhas na reprodução, e defeitos na formação biológica do novo ente. Mas esses erros não ocorreriam no paraíso, no qual tudo se daria sem a possibilidade de alterações ou falhas.
Ocorre que, se, por um lado, na reprodução biológica, as características da espécie são necessariamente transmitidas, aquilo que é característica individual não necessariamente é transmitido dos pais aos filhos. Assim, um filho de Eva poderia ter nascido com olhos semelhantes dos do pai, ou com o formato das orelhas mais próximo ao da mãe.´Além disso, aspectos como temperamento, humor, caráter, forma de reagir, tudo isso é acidental, individual, e portanto não necessariamente transmissível. Características individuais podem ou não ser transmitidas para a prole, lembra Tomás.
Ora, a amizade com Deus é claramente uma característica individual, uma graça de Deus concedida aos nossos primeiros pais, e não alguma coisa que estivesse inscrita na natureza deles. É certo que a natureza humana foi criada com a capacidade de ser elevada pela graça. A própria graça, porém, não é natural, mas sobrenatural.
Ocorre que, na criação, a natureza imaculada dos nossos primeiros pais recebeu a graça de Deus como algo que decorria do próprio fato de serem imaculados, e portanto perfeitamente abertos a ela. Assim é, portanto, a natureza humana, como originalmente criada por Deus: Deus, que é amor infinito, não nega a plenitude da graça àqueles cuja natureza imaculada está plenamente aberta para recebê-la. Disso dá testemunho o anjo Gabriel que, dirigindo-se a Maria Santíssima (Lucas 1, 26), chama-a de kecharitomene, ou seja, repleta de graça, como deve ser uma natureza imaculada.
Portanto, a prole dos nossos primeiros pais, se tivessem nascido no paraíso, antes do pecado original, nasceriam imaculados, e portanto perfeitamente abertos à graça plena de Deus – que não a negaria a eles.
Tomás, aqui, faz um raciocínio por oposição: se o pecado original levou à perda da graça, e a prole dos nossos primeiros pais recebeu uma natureza ferida, desprovida da santidade original que a abre à graça de modo pleno, como se pode perceber em Gênesis 3, 16, então a prole que tivesse nascido no paraíso, de modo imaculado, já seria concebida provida da graça justificadora. Os filhos de Adão e Eva, se não fosse o pecado, nasceriam justos, conclui Tomás.
6. Encerrando.
Adão e Eva foram criados perfeitos em natureza. Imaculados, porque Deus não criou o pecado. Desse modo, sua natureza estava perfeitamente aberta à graça. Perdida a graça, a natureza fica como que incompleta, como um copo que derramou sua água. E foi essa natureza incompleta que foi transmitida à prole de Eva, até os dias de hoje. Como um copo que, por ter escolhido o furo, já não retém água e nem pode evitar transmitir esse furo a sua descendência.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
Deixe um comentário