1. Retomando.
Vimos, então, no texto anterior, toda a carga de incompreensão antiga e medieval sobre a diferenciação sexual, com toda a ideia de que a mulher seria algo como um “homem falho” ou “incompleto”. E vimos como Tomás, embora respeitoso com a ciência e a filosofia de seu tempo, é capaz de reafirmar a dignidade igual de mulheres e homens, e repor a diferença sexual ali onde ela nasceu: na natureza humana, a partir do desígnio divino.
Vejamos agora as respostas dele aos argumentos objetores iniciais.
2. As respostas aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor reproduz o velho equívoco da filosofia grega sobre as mulheres, que Aristóteles expressou ao afirmar que a fêmea é um macho falho, incompleto. Ora, como não pode haver falhas da natureza no paraíso, ali só haveria machos, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Vemos, aqui, Tomás demonstrar o respeito à ciência e à filosofia que imperavam em seu tempo, sem se deixar desviar da verdade. De fato, diz ele, ainda que a ciência ou a filosofia viessem a demonstrar que o processo inicial de formação humana fosse o de formar um ser humano do sexo masculino, e o surgimento do sexo feminino se desse por alguma falha ou desvio no processo, isto não mudaria o fato de que homens e mulheres são parte do projeto de Deus e dimensões igualmente dignas da sua imagem na criação.
Curiosamente, hoje sabemos que a biologia é exatamente o contrário: na verdade, a tendência genética é de que as mulheres fossem formadas automaticamente, e os homens representassem uma espécie de desvio embriológico. Ou seja, a ciência que conhecemos hoje é muito mais avançada do que aquela que Tomás conheceu, e isto não mudaria em nada a sua bela resposta: as particularidades do processo de formação embrionária não atingem a dignidade essencial de homens e mulheres.
O segundo argumento objetor.
As coisas semelhantes geram coisas semelhantes, diz o argumento. O fogo gera fogo, o frio gera frio e assim por diante. No tempo de Tomás, a ciência ainda não havia descoberto os gametas femininos; assim, acreditava-se que o homem fornecia os gametas, que seriam o princípio formal da geração, e a mulher forneceria o espaço e a matéria para o novo ser. Assim, o argumento diz que o normal seria que os homens formassem, na reprodução, sempre outros homens, e que apenas alguma falha no processo, seja por deficiência do gameta, seja por inadequação da matéria, levaria à formação de uma mulher. Ora, prossegue o argumento, no paraíso não haveria falhas, e portanto, mulheres nunca seriam formadas, se não fosse o pecado e suas consequências, que inseriram a possibilidade de falha nos processos naturais, conclui.
A resposta de Tomás.
Tomás registra que há muitas explicações diferentes, em seu tempo, sobre o processo reprodutivo, quanto à diferenciação sexual. Havia quem defendesse que a diferenciação decorresse do vigor do macho ou de alguma falha na recepção da semente pela mulher, ou que isso decorresse da direção que o vento sopra no momento da concepção, ou por algum outro motivo, talvez até do fato de que a alma tivesse já a masculinidade ou a feminilidade. Parecia, diríamos hoje, que a teoria do gênero das universidades de hoje já estivesse influenciando de alguma maneira naquele tempo.
No entanto, diz Tomás, nada disso modifica a igualdade de dignidade entre homens e mulheres. Tomás chega a sugerir que, no paraíso, se vivêssemos uma vida imaculada, mulheres e homens seriam tão prudentes e sensatos que seriam capazes mesmo de definir, em vistas ao bem comum, no ato sexual mesmo, se seria mais adequado gerar, num determinado momento ou configuração histórica, uma menina ou um menino.
O terceiro argumento objetor.
Segundo este argumento, a finalidade da geração, antes do pecado, seria a multiplicação da espécie humana, mas não em função da necessidade de reposição da população, porque no paraíso não haveria a morte, e todos viveriam para sempre. Assim, não seria necessário que surgissem mais mulheres além de Eva, que viveria perpetuamente e seria a mãe de todos os viventes. Logo, no paraíso, não seria necessário que nascessem crianças de ambos os sexos, mas poderiam nascer apenas meninos, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Somos animais, não podemos esquecer disso. Somos animais racionais, espirituais, mas não somos duas coisas, ou seja, não somos como que anjos que usam corpos. É sempre uma tentação perigosa imaginar que os seres humanos são duas coisas diferentes, espíritos em corpos ou alguma coisa assim. Não somos. Somos animais espirituais, repitamos. Assim, seja hoje, no mundo decaído pelo pecado, seja se vivêssemos num mundo imaculado, seríamos um povo de mulheres e homens, com uma vida biológica plena, capazes de comer, dormir, rezar, fazer sexo e procriar. Cada um de nós. Assim, tanto nesta vida decaída pelo pecado, quanto no paraíso imaculado dos inícios, haveria mulheres e homens em quantidades proporcionais, de modo que todos e cada um de nós pudesse formar família, ter sexo e procriar, de modo a sermos completos humanamente. Por isso, seria um absurdo imaginar que a diferença sexual não existiria se não houvesse o pecado.
3. Concluindo.
Somos indivíduos humanos, individualmente incompletos em nossa humanidade, porque a humanidade é diferenciada em homens e mulheres. Somente na união sexual complementar, exclusiva e fecunda nos tornamos seres humanos plenos. Pode parecer escandaloso aos puritanos, mas não é absurdo dizer que a relação sexual, santamente consumada, pode ser a imagem mais perfeita da Trindade. Isto é paradisíaco. E somente uma forte distorção na visão da sexualidade poderia levar alguém a conclusões diferentes. Ninguém explicou melhor essa realidade, em tempos recentes, do que São João Paulo II em suas catequeses sobre o corpo humano, chamadas de “teologia do corpo”. Estão disponíveis na Internet, e eu recomendo fortemente a consulta para os que quiserem se aprofundar nesta questão.
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