1. Introdução.
Neste artigo, veremos como Tomás consegue debater com toda a carga de machismo que vem de Aristóteles e de toda a tradição grega, e que era abraçada, em seu tempo, mesmo pelas universidades e pelas ciências naturais. Com base em Aristóteles e nos gregos, acreditava-se que a mulher era uma espécie de “macho falhado”, incompleto, porque não desenvolvia órgão sexual externo, barba e voz grossa. Lamentável equívoco. Homens e mulheres são expressões da riqueza humana, da diferença instituída por Deus mesmo para melhor expressar a insuficiência individual dos seres humanos e levá-los à relação familiar, mais bela expressão da Trindade no mundo criado. Tomás não evita completamente os preconceitos de seu tempo, e devemos desculpá-lo nisto: seria um anacronismo julgá-lo com critérios nossos. Mas ele consegue reafirmar a dignidade feminina, lastreando-a na própria vontade de Deus e na realidade imaculada do paraíso. Muito belo ver que isto é o fruto da devoção cristã a Nossa Senhora, plena de graça em seu corpo feminino, verdadeira Arca da Aliança.
Feitas estas advertências, e esvaziando nossos corações de raivas retroativas, examinemos este artigo, louvando a Deus pela posição de Tomás, grande avanço no sentido da plena dignidade da mulher – herança cristã em Maria Santíssima – num tempo tão preconceituoso como o dele.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial, que não é meramente um ponto de partida retórico para o debate, mas uma posição que era defendida por religiosos (das grandes religiões monoteístas), filósofos e cientistas do tempo de Tomás, é a de que não nasceriam meninas no paraíso, antes do pecado original, mas apenas meninos, porque as mulheres seriam seres humanos incompletos, algo como homens falhados, cujo surgimento se deveria ao pecado original, que tornou a matéria desobediente à forma, ou seja, à alma. Em suma, a alma humana sempre tenderia a formar um homem, e a mulher seria uma falha de formação. Há três argumentos objetores no sentido desta hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor cita logo Aristóteles que, na obra sobre a geração dos animais, afirma textualmente que a fêmea é um macho que falhou. Portanto, a fêmea, segundo Aristóteles, é algo que não tem conformidade com a natureza, que deveria ser um macho mas teve seu desenvolvimento interrompido de algum modo, por algum fator que atrapalha esse desenvolvimento. Ora, no paraíso não haveria imperfeições, nem fatores atrapalhando a natureza. Logo, não nasceriam meninas, mas apenas meninos, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor parte da ideia de que tudo aquilo que gera outra coisa, gera alguma coisa semelhante a si mesmo, salvo se seu poder de gerar for deficiente ou a matéria disponível for imperfeita. Assim, por exemplo, o fogo gera o fogo, salvo se o fogo atinge lenha verde ou úmida (matéria imperfeita) ou se a chama for fraca, sem poder suficiente para transmitir seu calor ao objeto a ser queimado, como no caso de alguém que tenta acender um grande toro com apenas um pequeno palito de fósforo.
Na geração humana, como a ciência do tempo de Tomás acreditava, é o homem que transmite a semente; assim, ele deveria sempre originar outros homens, semelhantes a si, como o fogo origina fogo. Se isso não ocorre, isso se deveria ou a que sua semente é fraca, ou a matéria que ele encontra no útero de sua mulher é imperfeita. Mas nenhuma das duas circunstâncias ocorreria no paraíso, onde nem a fraqueza nem a imperfeição existiriam. Logo, só haveria a geração de meninos, nunca de meninas, no paraíso, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Considerando que os homens são a perfeição e as mulheres representam algum tipo de privação, mas considerando que a mulher é necessária à geração de novos seres humanos, e considerando que no paraíso ninguém morreria, dada a capacidade de regeneração concedida pela árvore da vida, só seria necessário existir, ali, uma única mulher, Eva, que seria a mãe de todos os meninos imortais que dela nasceriam. Logo, não haveria a necessidade da geração de meninas no paraíso, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
Depois de ter examinado esses argumentos objetores tão estapafúrdios, que simplesmente não compreendem a natureza e a dignidade da mulher, o artigo apresenta agora o argumento sed contra. Nele, diferentemente daquelas visões distorcidas vindas da filosofia grega, a dignidade da mulher está lastreada na própria Bíblia. De fato, a natureza só pode agir conforme Deus determinou na criação. E na criação Deus nos fez homens e mulheres, ambos igualmente imagens de Deus. A mulher, assim, não é menor, nem menos digna do que o homem, nem resulta de algum incidente da natureza, mas é pela expressão da criação de Deus, que nos quis essencial e naturalmente homens e mulheres. Assim, independentemente das consequências do pecado original, o ser humano sempre nasceria dos dois modos, ou seja, sempre haveria meninos e meninas, aqui ou no paraíso, conclui o argumento contrário.
5. A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás não precisa de muita conversa nem de muita argumentação para responder com muita precisão: o ser humano foi criado com a diferença sexual, ou seja, somos homens e mulheres, e a imagem de Deus está inscrita em nós igualmente. A diferença sexual é parte da riqueza da perfeição da espécie humana, assim como estabelecida por Deus, e não o resultado de alguma deficiência ou falha do processo reprodutivo. Isto é o que ensina a Bíblia, isto é o que ensina a tradição judaico-cristã: diferentes sexualmente, absolutamente iguais em dignidade, refletindo conjuntamente a imagem de Deus. Portanto, a reprodução humana produz meninos e meninas, e isto é assim por um fato da natureza mesma, por vontade de Deus, e não por algum defeito ou consequência da queda no pecado original.
6. Encerrando.
Muito bonito ver que, num mundo dominado por um platonismo (e um aristotelismo) que se equivocou profundamente quanto à natureza da diferença sexual, Tomás teve o discernimento de esclarecer, com largos fundamentos bíblicos e com um largo discernimento sobre a natureza humana, a dignidade igual de mulheres e homens.
Deixe um comentário