1. De volta para concluir.

A beleza da condição humana é exatamente a aceitação dos limites criaturais, que não são imperfeições, mas parte do dom. Cada um de nós é apenas um pedacinho, uma parte, uma gota que expressa, de modo criado e analógico, a magnitude da perfeição integral e ilimitada de Deus. Isto é, nossos limites, maiores ou menores em razão de fatores como idade, compleição física, situação geográfica e posição social, não retiram em nada a nossa dignidade. Crianças não são homens maduros, bebês não são mulheres adultas, embriões não são idosos. Mas cada um é humano a seu modo, e todos igualmente dignos e perfeitos naquilo que são. Eis um reconhecimento que a humanidade, marcada pela queda, sempre teve dificuldade em admitir. Não há outro fundamento para a dignidade do outro senão a nossa condição comum de criaturas de Deus, feitos à sua imagem e semelhança. Eis um presente da revelação judaico-cristã à humanidade, incorporado às inúmeras declarações de direitos humanos de caráter laico. Mais ainda longe de ser pleno: mostram-no a permanência de discriminações, permissões para aborto e eutanásia, conflitos racistas e xenófobos, dentre outros.

É neste contexto que devemos enxergar a proposta de Tomás para debater a existência de bebês e crianças, mesmo na condição imaculada do paraíso: a fragilidade corporal e a imaturidade motora dessa fase da vida não são imperfeições, mas limites, e têm um profundo significado humano: o estabelecimento de relações familiares e sociais, a transmissão cultural e religiosa, enfim, toda a relação de amor interpessoal e mesmo mais ampla, social, que deve reger a vida humana. Mas deixemos de digressões e examinemos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento, citando santo Agostinho, relaciona a fragilidade corporal, presente em bebês e crianças, com a imaturidade neurológica e com a incompletude mental. Ora, prossegue o argumento, no paraíso não havia imaturidade ou imperfeição de nenhuma espécie, nem biológica, nem neurológica, nem mental. Então tampouco haveria bebês e crianças, mas apenas adultos perfeitamente formados e dominando suas funções corporais, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Precisamos, aqui, distinguir o que é limite próprio da fase de desenvolvimento humano, como o fato de que bebês não conseguem ainda andar e falar, com eventuais desvios ou mesmo situações indesejáveis, como bebês temperamentais que, mesmo tendo acesso ao alimento, preferem chorar e se contorcer do que tomar o seio materno, ou seja, àqueles desvios com relação ao que seria próprio de cada idade. Isto fica claro quando se examina o que o próprio Santo Agostinho registra, um pouco antes do trecho mencionado no argumento, em que ele menciona bebês que, mesmo quando colocados no seio materno, preferem chorar e se debater do que saciar a fome. Esse tipo de imperfeição, que envolve desordem nas próprias inclinações, não haveria no paraíso, e decorre das consequências do pecado. Mas os limites inerentes às próprias fases da vida humana não são imperfeições, mas características. Eles existiriam, mesmo no paraíso. Por isso, haveria bebês, ali.

O segundo argumento objetor.

Muitos animais irracionais nascem já com o perfeito domínio das funções corporais, de modo que já surgem com as mesmas habilidades dos adultos, capazes de andar, correr, atacar e emitir seus grunhidos. Ora, os seres humanos são muito mais dignos do que os outros animais, pois trazem em si a imagem de Deus. Parece claro, então, que não há razão para que os bebês humanos nasçam com menos capacidades do que os filhos dos outros animais, senão a consequência do pecado original e da queda, afirma o argumento. Assim, se nossos pais não tivessem cometido o pecado original, as crianças já nasceriam com todas as capacidades corporais dos adultos, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A resposta de Tomás parte da ciência da época, que acreditava que o desenvolvimento cerebral passava pela progressiva diminuição dos líquidos intracranianos, abundantes nos bebês e mais raros nos idosos. Assim, dizia Tomás, de acordo com essa ciência, uma vez que os animais irracionais têm, muitas vezes, atividades muito mais simples do que as atividades humanas, e seus filhotes nascem com muito menos umidade no cérebro, a conclusão seria que, para as atividades típicas das espécies mais simples, eles já nascem suficientemente maduros. Mas para as atividades tipicamente humanas, que sempre envolvem discernimento e são marcadas por uma complexidade muito maior, o processo de amadurecimento não é uma imperfeição, mas fases naturais da vida humana. Por isso, não se pode comparar a infância humana com a prole de outros animais.

O terceiro argumento objetor.

No paraíso o sofrimento jamais estaria presente. Mas quando alguém não consegue obter aquilo que lhe dá prazer, ou mesmo que supre suas necessidades, o sofrimento é inevitável. Ora, se os bebês e as crianças, no paraíso, não tivessem controle sobre o próprio corpo para obter o que precisam e desejam, correriam o risco de sofrer, caso não conseguissem satisfazer pessoalmente suas necessidades e dependessem de outros. Mas não deve haver sofrimento no paraíso. Logo, os bebês e as crianças, no paraíso, tinham pleno controle de suas funções corporais, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Esta objeção já foi suficientemente respondida: no paraíso, os bebês e as crianças não seriam malcriadas, birrentas ou sujeitas a impulsos desordenados, mas teriam as inclinações adequadas às suas necessidades. Ademais, no paraíso, sempre haveria uma assistência perfeita para qualquer necessidade que demandasse a intervenção de outras pessoas; isto quer dizer que as necessidades dos bebês e das crianças, mesmo aquelas que elas não pudessem satisfazer sozinhas, teriam sempre a resposta adequada, por parte dos responsáveis, de modo que elas não estariam sujeitas a sofrimento.

O quarto argumento objetor.

Existe uma simetria na vida humana: a debilidade na infância corresponde à debilidade da velhice. Ambas são marcas de deficiência com relação à idade adulta, diz o argumento. Ora, no paraíso nunca haveria nenhum tipo de deficiência, e por isso não haveria a senilidade da velhice. Logo, não haveria também a imaturidade da infância, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A geração humana é um bem; a decadência, a doença e a morte são males. Logo, no paraíso, mesmo na plenitude da idade, os seres humanos não entrariam em decadência, nem adoeceriam, nem morreriam, como já vimos em textos anteriores.

Mas isto não se aplica aos limites próprios da infância, que implica desenvolvimento, amadurecimento, aprendizagem e aperfeiçoamento. Esses limites, como já vimos, não são maus, não são defeitos, não são doença, mas características próprias da vida humana.

3. Concluindo.

Toda a beleza da infância, sua limitação, sua abertura, sua processualidade, estariam presentes no ser humano, mesmo que não houvesse a queda. Por outro lado, a maturidade, a plenitude da idade, não seriam seguidos de doenças, decadência ou morte. Mas toda a processualidade da vida humana estaria presente. Muito bela essa visão. De respeito pela dignidade de todos, em qualquer fase da vida, desde a concepção até a mais avançada plenitude. As fases da vida humana não são defeituosas. São riquezas.