1. Retomando.
Nossa civilização tem dificuldade com a fertilidade. Isto é fácil de constatar: basta examinar os debates sobre o aborto, inclusive aqueles feitos no Supremo Tribunal brasileiro: é fácil constatar como temos dificuldade de reconhecer os nascituros como pessoas humanas. Não é difícil perceber que esse fechamento atinge também os bebês e crianças já nascidos: os levantamentos populacionais, inclusive o Censo 2022 no Brasil, demonstram a queda assustadora nos nascimentos. A infância nos assusta.
Mas de certo modo assustou também nossos antepassados; é interessante ler os argumentos objetores, que estudamos no texto anterior a este, e ver que muitos, no tempo de Tomás, tendiam a considerar a incompletude e a imaturidade infantis como traços de uma humanidade ferida pelo pecado. Assim, tinham dificuldade para imaginar como seriam os bebês e as crianças num mundo sem pecado. Chegaram mesmo a negar que eles existissem num mundo assim: para eles, num mundo livre do pecado, todos nasceriam como adultos, caminhando e falando. Ou seja, toda a relação de cuidado, de transmissão de amor, de cultura, de tradições, não existiriam se não houvesse o pecado, pensam eles. Mas Tomás não pensa assim.
Estudemos, então, a resposta de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás começa sua resposta reafirmando a sua confiança na razão humana. De fato, diz Tomás, aquelas coisas que foram reveladas por Deus como matéria de fé são recebidas e cridas por causa da autoridade divina. Mas em todas aquelas realidades que não dizem respeito à fé, à revelação, devemos acreditar na nossa inteligência, na nossa capacidade de entender o mundo criado e sua consistência interna. De fato, o mundo tem uma inteligibilidade, expressa na natureza, que nós somos capazes de conhecer. Assim, temos que adotar uma postura de muito cuidado, para não tentar colocar a revelação divina como critério para entender aquilo que é simplesmente natural, e que pode ser melhor compreendido pela ciência.
Ora, não é preciso recorrer à revelação para constatar que as crianças nascem pequenas e imaturas, incapazes de dominar o próprio corpo, necessitadas de atenção e acompanhamento, inclusive para nutrição e higiene. Isto é parte da própria natureza humana: a concepção, a gestação, o nascimento, toda a formação humana implica um processo de geração e crescimento que é gradual, e que determina fortes relações, familiares, afetivas, culturais, civilizacionais e religiosas, entre a prole e os genitores. Nada disto resulta do pecado, mas da própria natureza humana.
É certo que a revelação bíblica parece apontar que Deus criou nossos primeiros pais já como seres adultos, perfeitos e plenos. Deus pode fazer isto, e faz muito sentido, aos olhos da fé, que ele tivesse agido assim. A Bíblia ensina, em Eclesiastes 7, 29, que “Deus fez o homem reto, mas é ele quem procura os extravios”. A Tradição da Igreja lê este versículo como um ensinamento de que Adão e Eva foram criados já maduros, integrados, inteligentes, instruídos e virtuosos, e por isso seu pecado foi tão grave a ponto de atingir toda a espécie humana. Não decorreu de imaturidade, inexperiência ou ignorância, mas de deliberação. De qualquer modo, o que é narrado na Bíblia como história de origem de nossos primeiros pais não é algo acessível à exploração científica, porque, o que quer que tenha ocorrido no paraíso antes da queda, não está mais aberto às nossas investigações científicas hoje, a partir da nossa condição decaída; somente em Jesus podemos ter um vislumbre do homem perfeito; e Jesus, diferentemente de Adão e Eva, teve infância.
Assim, prossegue Tomás, não é ilógico que as crianças eventualmente geradas de modo imaculado, sem o peso do pecado original, viessem a ter infância. Mesmo admitindo que, no paraíso, antes do pecado, os seres humanos tivessem sempre a perfeição de suas atividades, essa perfeição pode ser proporcionada às fases da vida, como, aliás, deve ter ocorrido com Jesus: ser um bebê perfeito não implica ser capaz de correr e de falar, mas de fazer com perfeição aquilo que um bebê deve fazer: mamar, defecar, sorrir, chorar, interagir. E essas capacidades podem se desenvolver progressivamente no decorrer da infância e da adolescência, sem que isto implique imperfeição: não podemos confundir o fato de que as criaturas humanas são limitadas, por serem criaturas, com a ideia de que elas podem ser plenamente bebês ou crianças perfeitas, vivendo os limites da fase de desenvolvimento, como diz a Bíblia, sobre Jesus, ao narrar que ele crescia em sabedoria e graça perante Deus e os homens (Lc 2, 52).
3. Encerrando.
Há perfeição humana em cada fase da vida: desde a concepção até sua extinção natural, o ser humano é uma maravilha biológica, intelectual e espiritual, e cada dimensão dessa é um dom a ser aperfeiçoado em nossa vida. O fato de que algumas de nossas potencialidades não possam ser exercitadas logo que somos concebidos, ou após uma longa e frutuosa vida, não nos torna menos dignos. Está aqui a irracionalidade de propostas como o aborto e a eutanásia: querem mensurar a dignidade humana a partir de uma ideia de capacidade, talvez econômica, talvez social, talvez algum padrão de independência ou de produtividade, que desconsidera essa maravilha que somos, maravilha que não se exclui nem se diminui por motivos econômicos, sociais ou de autonomia individual.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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