1. Introdução.

A infância implica fragilidade, limite, incapacidade de controlar perfeitamente o próprio corpo, necessidade de desenvolvimento. A questão é: essa condição, ser bebê e ser criança, é própria do ser humano, ou decorre do nosso estado decaído? Será que no paraíso, nasceríamos já andando e falando?

Esta questão é muito mais relevante do que pode parecer à primeira vista. Se a infância é parte da condição decaída, então é resultado do pecado, e portanto não é digna em si mesma. Mas se ela é parte da própria condição humana, então a transmissão da fé e da cultura, na família, são parte da vida humana mesma. Qual é a relevância disso para nós, hoje?

Nos nossos tempos, vivemos desorientados quanto à noção de família. Já não sabemos o que é uma família. O Estado tende a abraçar a tarefa de formar as crianças, como se a família não fosse naturalmente o primeiro espaço de formação. Há uma desconfiança, abertamente plantada, na primazia da família em relação à criação e educação das crianças. Mas se esta dimensão da família é parte da estrutura da própria família, pelo reconhecimento de que é próprio do ser humano nascer como um bebê e viver a infância entre seus próprios parentes, recebendo deles a primeira socialização, a primeira instrução, a primeira educação na fé, então recuperamos a legitimidade da estrutura familiar como célula de convivência entre os sexos e as gerações, tal como seria num mundo não maculado pelo pecado original.

Vamos acompanhar este debate rico.

2. A hipótese controvertida inicial.

A primeira hipótese, apresentada justamente para provocar o debate e a polêmica, é a de que, se não vivêssemos num mundo decaído pelo pecado, os seres humanos não nasceriam como bebês frágeis e incapazes de se controlar, nem passariam por uma infância e uma adolescência de progressivo amadurecimento. Se não houvesse o pecado, já nasceríamos com perfeito domínio sobre nossos próprios corpos, com capacidade, por exemplo, de falar, caminhar, dominar as necessidades fisiológicas e realizar todas as funções corporais de um adulto. Assim, teria sido a queda no pecado que gerou a necessidade de que o ser humano nascesse como um frágil bebê e passasse pelo progressivo domínio do corpo durante a infância e a adolescência. Em suma, a hipótese controvertida é a de que, no paraíso, no estado de inocência original, as crianças nasceriam com perfeito domínio corporal. Há quatro argumentos objetores iniciais que tentam comprovar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Como sabemos, os argumentos objetores tentam provar que a hipótese inicial é verdadeira. O primeiro argumento objetor recorre à obra de Santo Agostinho sobre o batismo de crianças. Ali, o grande santo ensina que “a debilidade do corpo corresponde à debilidade da mente”; isto é muito claro nas crianças: de fato, elas não têm domínio sobre a mente, de tal modo que os bebês não conseguem aprender intelectualmente nem dominar o próprio corpo. Ora, continua o argumento, no paraíso os seres humanos eram dotados de perfeito domínio intelectual sobre si mesmos, como vimos em textos anteriores, e as pessoas eram dotadas de todas as virtudes intelectuais e morais que aperfeiçoam os seres humanos. Logo, no paraíso não haveria a debilidade da idade: não haveria bebês nem crianças engatinhando e balbuciando, porque todos já nasceriam com perfeito autodomínio, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Muitos animais já nascem com perfeito domínio do próprio corpo, com instintos plenos e são capazes de andar, correr e mesmo atacar, imediatamente depois de nascer. Ora, o ser humano não pode ter sido criado com menos perfeição do que os animais irracionais. Portanto, toda a debilidade que vemos, hoje, nos bebês e nas crianças devem ser atribuídas às consequências do pecado original, e podemos acreditar que, no paraíso, no estado de inocência original, os seres humanos já nasciam com pleno controle sobre suas funções corporais, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Quando queremos alguma coisa que é boa e agradável para nós, não obter o que desejamos nos causa frustração e desprazer. Mas se os bebês e as crianças, no paraíso, não tivessem o pleno domínio sobre seus corpos, não conseguiriam falar nem se locomover, o que resultaria no fato de que, muitas vezes, não conseguiriam expressar suas vontades ou obter o que queriam ou precisavam, o que seria fonte de frustração e desprazer pra elas. De fato, bebês e crianças choram de frustração quando não conseguem aquilo que desejam – e isto é resultado da desordem causada pelo pecado no mundo. Ora, não poderia haver desprazer e frustração no paraíso. Logo, no paraíso, os seres humanos já nasceriam com pleno domínio sobre sua própria corporeidade, conclui o argumento.

O quarto argumento objetor.

Há uma simetria curiosa na vida humana: somos corporalmente débeis quando nascemos, quando somos bebês e quando somos crianças pequenas. Mas também somos corporalmente débeis na velhice, quando nossos corpos já não têm o mesmo vigor da juventude. Ora, como vimos em textos anteriores, a debilidade da velhice é causada pelo pecado original, já que, no paraíso, seríamos constantemente renovados no vigor de nossos corpos. Portanto, se a debilidade é sinal da consequência do pecado, ela não poderia se manifestar também em bebês e crianças; logo, no paraíso, não haveria a debilidade corporal da infância, e já nasceríamos com pleno domínio das funções corporais, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

Toda geração é um processo que vai do incompleto ao completo, do imperfeito ao perfeito. Ora, já vimos, nos textos anteriores, que havia fecundidade, sexualidade e reprodução no paraíso, isto é, o modo pelo qual Deus mesmo concebeu a espécie humana envolve a reprodução sexuada.

Mas a reprodução sexuada envolve a gestação e o parto, ou seja, o surgimento de seres humanos pequenos em tamanho e incompletos em domínio corporal. Logo, mesmo no paraíso haveria uma fase em que os seres humanos seriam bebês e crianças, com pouco domínio sobre as funções corporais, e sujeitos a um desenvolvimento físico e motor, conclui o argumento, negando a hipótese inicial.

5. Encerrando.

O próprio Deus foi bebê. Gerado no seio imaculado de Maria Santíssima, ele nasceu, foi amamentado, aprendeu a controlar as funções corporais, a andar, a falar e recebeu a cultura e a fé de sua família. Isto sinaliza que a fragilidade infantil não decorre do pecado, mas da própria natureza humana, que ele assumiu.

Mas estamos nos adiantando. No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.