1. Retomando.
Fecundidade não é procriação animal. Vimos isto no último texto: o sentido da fecundidade humana é que Deus compartilhou conosco a geração, a multiplicação de sua imagem na criação. Mas isso significa também que a fecundidade humana, quando perfeitamente ordenada (é isto que significa imaginar “como seria no paraíso, sem o pecado original”) e, portanto, perfeitamente humana, prolonga-se no cuidado com os filhos. Isto é, para os seres humanos, rebaixar a fecundidade ao nível animal de multiplicar descendentes e abandoná-los à própria sorte é indigno, e portanto pecaminoso. É por isso que, para o ser humano, a fecundidade envolve a reprodução física, o cuidado com a prole e a transmissão da fé e da cultura, em suma, a geração biológica e o desenvolvimento das virtudes. Neste sentido, a fecundidade envolve fazer nascer filhos de Deus. O significado disso para o celibato sacerdotal é riquíssimo: se o celibato sacerdotal não é fecundo, não é capaz de fazer nascer filhos de Deus, ele não tem sentido.
Com isso em mente, com essa noção plena e responsável de fecundidade, apreciemos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
Geração e degradação são dois lados da mesma moeda, diz o argumento. Tudo o que pode ser gerado pode também ser destruído, e só há fecundidade ali onde há morte. São dois lados da mesma moeda (como Freud percebeu, em nossos tempos). Ora, se não houvesse o pecado, a morte não atingiria os seres humanos. Logo, tampouco a fecundidade estaria aberta para nós, antes do pecado, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Não haveria, de fato, morte, se não houvesse o pecado. Mas isto não estava na própria natureza biológica do ser humano, que, mesmo no paraíso, era biológica mesmo; quer dizer, mesmo no paraíso, nossa natureza estaria sujeita à degradação e à morte, que não chegariam a acontecer por outros fatores, como vimos na questão anterior. O ser humano seria um ser mortal que, em razão do profundo estado de harmonia com Deus, não seria atingido pela morte, enquanto se mantivesse no paraíso. Ora, como seres biológicos e mortais, a morte não nos atingiria, mas a fecundidade, a geração, continuaria existindo. Logo, mesmo antes do pecado, do mesmo modo que éramos naturalmente mortais, também éramos naturalmente fecundos, porque somos naturalmente biológicos.
O segundo argumento objetor.
O sentido da fecundidade, nas espécies biológicas, é perpetuar na existência a espécie, já que os indivíduos tendem a desaparecer pela morte. É por isso que aqueles seres que não perecem não precisam se reproduzir: eles estão perpetuamente na existência, e por isso não precisam se multiplicar em indivíduos da mesma espécie. Ora, no paraíso estaríamos perpetuamente na existência. Assim, não haveria sentido nem necessidade de fecundidade, porque não haveria necessidade de conservação da espécie, uma vez que os próprios indivíduos se conservam na existência, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Se fôssemos apenas seres biológicos, como os outros seres vivos, não haveria outra razão para a nossa reprodução senão a conservação da espécie, diante da finitude dos indivíduos. Mas, como além de biológicos, somos seres espirituais, que trazem em si a marca da imagem de Deus (intelecto, vontade, capacidade de conhecer e amar a Deus), existe outra razão para a nossa fecundidade: colaborar com o trabalho divino de povoar, com sua imagem, a criação. A dignidade individual humana de imago Dei justifica a geração de novos seres humanos, portanto, para além da simples preservação da espécie.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento é um argumento econômico. Ele passa pela ideia de que a propriedade privada, resultante da multiplicação de interesses, não é compatível com o paraíso. Logo, não poderia haver, no paraíso, a multiplicação de pessoas, porque isto levaria ao conflito de interesses.
De fato, diz o argumento, Deus concedeu, aos nossos primeiros pais, o domínio sobre todas as coisas criadas (Gn 1, 28). Constituiu nossos primeiros pais como “proprietários” absolutos do mundo. Ora, se aumentam o número dos proprietários, é necessário que a propriedade seja repartida, porque tudo aquilo que tem muitos donos não é bem administrado por nenhum, e daí surgem os conflitos de interesse.
Ora, sabemos que Deus, ao criar, estabeleceu a destinação universal dos bens, de modo que todas as coisas estariam disponíveis à satisfação do interesse de todas as pessoas. Portanto, se houvesse multiplicação de seres humanos no paraíso, haveria o estabelecimento de propriedades divididas e particulares, o que, certamente, seria incompatível com a vida no paraíso. Assim, não haveria fecundidade no paraíso, para que não surgisse, daí, conflitos de propriedade, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
De fato, diz Tomás, não haveria conflitos de interesse nem propriedade privada no paraíso. Mas, ao contrário de nós, em nossa situação decaída, que olhamos para o outro como adversário e precisamos nos defender dele por meio da apropriação privada (e, por isso, vemos a fecundidade como uma fonte potencial de problemas de relacionamento, ou mesmo econômicos, jurídicos ou ambientais) no paraíso as relações seriam absolutamente saudáveis e, mesmo considerando a destinação universal dos bens, haveria sempre o suficiente para as necessidades de todos. Assim, a fecundidade não seria vista como uma ameaça, mas como um aumento de felicidade para todos, porque haveria um governo perfeitamente coordenado e uma gestão econômica perfeita.
3. Concluindo.
A fecundidade, bem compreendida como aumento do número dos filhos de Deus, é um dom maravilhoso ao ser humano. Daí porque a chamada cultura da morte, que pretende a redução da fecundidade, a eliminação de incapazes pela eutanásia e a liberação do aborto sob demanda é tão contrária à ordem do paraíso. Precisamos, pois, retomar essa visão tão bela de que a vida humana é boa e sua transmissão responsável, um dom.
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