1. Retomando.

A fecundidade, como já vimos no texto anterior, é uma característica importante para ser debatida, sobre o paraíso. De fato, se imaginamos que o paraíso se parece mais com um belo mausoléu, com um ambiente imutável e pronto, não há lugar, nele, para a fecundidade. O novo sempre transforma, sempre muda, sempre questiona. E não é por outra coisa, por toda a ameaça que o novo representa com relação ao egoísmo, ao fechamento, que a nossa era tem tantos problemas com a fecundidade: chegou ao ponto de considerá-la como uma doença a sofrer tratamento médico, por meio dos protocolos de contracepção artificial, e de propagar a ideia de que pessoas sem filhos são mais felizes, ou de que a fecundidade é uma ameaça a instituições consolidadas e ao meio ambiente. No meio de toda essa resistência, as crianças, os migrantes, os vulneráveis em geral, transformam-se como que em adversários. A fecundidade é parte do plano original de Deus, ou é uma consequência do pecado?

A discussão é interessantíssima. Vamos ver a opinião de Tomás sobre ela.

2. A resposta de Tomás.

O pecado original não pode ser causa própria do bem.

Tomás não tem dúvida aqui, nem faz nenhuma distinção de conceitos, como é tão comum que ele faça em outros temas. Aqui, ele já começa dizendo, com todas as letras, que a fecundidade humana não é algo que surgiu com o pecado original, mas é uma característica da própria concepção do ser humano, assim como pensado por Deus; a fecundidade é um traço imaculado, original, do ser humano, não um fardo imposto pela queda, como consequência do pecado. Desde o início, quando a nossa relação com Deus era plena e o equilíbrio reinava na criação, o ser humano já estava convidado a se multiplicar. A ser fecundo.

De fato, a fecundidade, que é a transmissão da vida, da cultura, do amor a Deus, é um bem indiscutível. Porque o ser humano é um bem indiscutível, e a multiplicação desse bem é igualmente um bem. Ora, se esse bem tivesse decorrido do pecado, então teríamos que louvar o pecado como fonte de bem, o que seria uma grande contradição, ou seja, que um bem tão claro e tão grande só tivesse surgido em razão do pecado. Neste caso, teríamos mesmo que afirmar que o pecado foi necessário, o que também seria um absurdo: o mal pode ser tolerado, pode ser até consentido, mas não pode ser considerado causa própria do bem.

Um pouco de antropologia.

Para compreendermos um pouco melhor a noção de fecundidade, quanto ao ser humano, devemos considerar a sua estrutura: o ser humano é um ser unitário com dupla dimensão: física e espiritual. Somos animais, e por isto estamos sujeitos à morte, que é a destruição física. Mas somos constituídos com uma alma espiritual, isto é, naturalmente indestrutível. Nosso corpo atesta que somos biológicos como os outros animais, e portanto naturalmente destrutíveis. Mas nossa alma espiritual nos coloca na situação de, diferentemente deles, sobreviver à morte.

Ocorre que a natureza sempre tem uma direção, e a direção que a natureza das coisas corruptíveis, destrutíveis, aponta, é diferente da direção apontada pelas coisas incorruptíveis. De fato, a natureza sempre tem direções fixas, permanentes, e por isso ela nunca tem como direção final alguma coisa cuja existência é apenas temporária. O que significa isto?

A direção da natureza à conservação da existência.

Contemplemos uma planta: se comemos uma fruta, a planta permanece, e é capaz de dar mais frutas. Mas se destruímos a planta, não há mais frutas a serem comidas. Isto significa que a direção da natureza está mais voltada para a planta do que para a fruta. Em outras palavras, a fruta existe por causa da planta, e não o contrário.

Prosseguindo no exemplo, sabemos que, se a planta for destruída, a natureza será capaz de fazer brotar uma outra planta da mesma espécie, apenas pela sua semente. De fato, podemos dizer, aqui, que, nas coisas que morrem, a natureza volta sua direção mais para a espécie do que para o indivíduo. E isto pode ser constatado cientificamente: vemos muitas vezes que animais e vegetais podem sacrificar-se individualmente, ou sacrificar indivíduos semelhantes e descendentes, pelo bem da sobrevivência da espécie. Em outras palavras, nos seres sujeitos à morte, o indivíduo existe para o bem da espécie, e não o contrário. Podemos, aliás, deduzir daqui a gravidade que envolve a extinção de uma espécie de seres vivos por interesses econômicos humanos.

E faz sentido que seja assim: a natureza prioriza o que é permanente sobre o que é temporário. Isso permite a continuidade da existência. E, no caso dos seres vivos, a existência continua pela preservação da espécie, muito mais do que pela preservação deste ou daquele indivíduo. Disto sabem muito bem os ecologistas. Eis porque a fecundidade é tão importante, na natureza: a espécie nunca existe como uma ideia, como uma informação desencarnada; ele existe apenas nos indivíduos singulares. Multiplicar-se é, portanto, cumprir a direção da natureza e garantir a perpetuação da espécie, que é imaterial, indestrutível, sobrevive aos indivíduos e, portanto, permanece.

Quanto àquilo que não está sujeito à morte, ou seja, que é incorruptível, a direção da natureza não envolve a fecundidade. Anjos são indestrutíveis, e, por isso, não precisam se multiplicar para que sua espécie continue existindo. Eles continuarão existindo individualmente sempre, porque são imateriais e, portanto, imortais. Anjos não se reproduzem. Se um anjo fosse destruído (o que é impossível, pois não se pode destruir uma forma imaterial), sua espécie desapareceria. Isso significa que, aqui, a direção da natureza, sua inclinação para continuar existindo, volta-se para os próprios indivíduos, porque, nos seres imateriais, cada espécie só tem um indivíduo, e ele continuará existindo para sempre.

O caso especial dos seres humanos.

Quanto aos seres humanos, somos biológicos. E, por isso, mortais. Mas somos espirituais, e por isso nossa alma não se destrói com a morte: uma vez criada, permanece para sempre. Poderíamos dizer que, em nós, a direção da natureza submete, então, o corpo ao bem da alma, e não o contrário.

Ocorre que nossa biologia animal tende a desaparecer, e por isso a natureza a inclina a reprodução. Mas, na espécie humana, cada indivíduo tem uma dimensão espiritual, indestrutível, que o torna, de certo modo, imortal e portanto mais permanente do que a biologia de que somos formados. No nosso caso, não se aplica aquele raciocínio que diz que é bom que um indivíduo morra pelo bem da conservação da espécie: temos dignidade individual, por sermos espirituais.

Mas, diferentemente dos anjos, que são puramente individuais, por serem puramente espirituais, nós somos estes animais espirituais, e nossa individualidade não se transmite pela reprodução: cada um de nós é imagem de Deus, e essa individualidade espiritual não é obra dos pais, mas de Deus mesmo.

Ocorre que, neste caso, Deus nos quis colaboradores de seu poder criador: ao contrário dos anjos, que já foram criados com o número pleno de indivíduos, no caso dos humanos cada indivíduo, para existir eternamente como imagem de Deus, precisa ser gerado por reprodução biológica, que receberá a individualidade espiritual diretamente de Deus. Portanto, em nós, a intenção da natureza está na individualidade de cada espírito humano que é imagem de Deus, e a condição para a multiplicação dessas imagens de Deus é a reprodução biológica. Por isso, para os seres humanos, a reprodução, a fecundidade, não se subordina simplesmente ao bem da espécie, como nos outros seres vivos: ela se direciona naturalmente para a multiplicação da imagem de Deus no mundo criatural. E é por esse motivo que a fecundidade humana existia, mesmo no paraíso: mesmo ali, a direção da natureza era a multiplicação da imagem divina, e não a eventual preservação da espécie por causa do desaparecimento dos indivíduos. De fato, mesmo antes do pecado, quando nós não estávamos sujeitos ao desaparecimento, ainda assim estávamos convidados a colaborar na multiplicação da imagem de Deus que somos nós!

3. Encerrando.

Alguém já disse que o ser humano é um centauro metafísico: de modo análogo àquela figura mitológica que incorporava em si as características dos seres humanos e dos cavalos, nós incorporamos características dos anjos e dos animais, o que determina que o próprio significado de nossa fecundidade seja muito diferente do significado da fecundidade dos outros seres vivos.

No próximo texto, estudaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.