1. Introdução.
Vivemos num mundo no qual a fecundidade é um problema. De fato, não somente o sexo foi tornado, em grande medida, infecundo por meios artificiais, como as nossas instituições, a nossa fé, as nossas sociedades também têm se caracterizado pelo fechamento, pela exclusão, pela infecundidade. Por um lado, o repúdio e o preconceito contra imigrantes, por outro lado uma falta de preocupação com os jovens que, sem conseguirem passar pelo processo de transição para uma vida adulta independente – faltam empregos, faltam casas, faltam instituições sociais sólidas para apoiar as famílias estáveis – saem dos próprios países para procurar espaço em outros lugares. As religiões institucionais não conseguem transmitir a fé, e a Igreja se vê envelhecer, sem conquistar uma nova geração. Os conventos e mosteiros, antes vistos como centros de fecundidade evangelizadora, hoje talvez sejam lugares de conservação valente e contracultural, ou até pontos de cuidado social e debate político, mas dificilmente são vistos como polos de disseminação evangélica. As famílias dissolvem-se na falta de critérios, e o amor conjugal simplesmente parece algo fora de moda. As crianças crescem muitas vezes longe de pais ou mães, em lares reconstituídos ou uni parentais, sob o pretexto de que os adultos têm o direito de abandonar o lar para buscar supostamente a própria felicidade individual. As próprias crianças são vistas como ameaças econômicas ou ambientais, e muitas vezes as famílias numerosas são olhadas com desprezo e incompreensão. É como se a renovação, o crescimento, o surgimento de uma nova geração, não fosse algo bem-visto ou querido por quem já está no mundo. Celebra-se a “diversidade sexual” que representa relações interpessoais naturalmente estéreis, ou, no caso das relações potencialmente férteis, há quem defenda a liberdade de abortar como marca de progresso civilizacional.
Eis, portanto, a importância desta questão 98 do tratado antropológico da Suma Teológica. Ele é um tratado sobre fecundidade e sexualidade; dois temas tão mal compreendidos e mal debatidos, inclusive socialmente. O sexo é resultado do pecado, ou seja, o sexo é alguma coisa que decorre da queda? O estado inicial de pureza imaculada, isto é, o plano de Deus para a felicidade plena da criatura humana, abriria espaço para a fecundidade e para a sexualidade? O sexo, para acontecer e ser cheio de alegria e prazer, precisa envolver o pecado e excluir a fecundidade?
Temas impossíveis de esgotar; mas certamente nos enriqueceremos vendo as meditações de Tomás, tão antigas e ao mesmo tempo tão atuais. Vamos ao artigo.
2. A hipótese controvertida inicial.
Poderia parecer, a quem não parasse para refletir com cuidado, que o paraíso, antes do pecado original, era um lugar consumado, no qual tudo seria perfeitamente ordenado e, portanto, não haveria lugar para nada novo. O paraíso, ainda imaculado, teria como que a imobilidade de um mausoléu: tudo deveria permanecer do modo que estava, nada poderia modificar, nenhuma geração de algo novo, e portanto a fecundidade seria um conceito inexistente, ali. Como se, depois de descansar no sétimo dia, Deus zelasse ciosamente para que nada do que fez fosse minimamente modificado por ninguém. Assim, a criação seria uma obra completa, perfeita, permanente e consumada, e qualquer geração seria uma alteração necessariamente para pior: a novidade, no paraíso, segundo essa visão, não seria bem vista. A fecundidade seria inadmissível. Uma perturbação no que já estaria completo. Não é difícil ver esta atitude presente no mundo de hoje, que também tem dificuldade com a fecundidade, com a novidade, com a abertura a quem chega.
Assim, a hipótese controvertida inicial, para gerar o debate, é a de que qualquer tipo de fecundidade, de geração, decorre da queda no pecado, e não faz parte dos planos originais de Deus para a vida plena dos seres humanos. Logo, segundo essa hipótese, não haveria fecundidade nem geração no paraíso. Há três argumentos objetores em favor dessa hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que, no paraíso, antes do pecado, nada poderia se degradar, não havia destruição, não havia a corrupção das coisas e a morte das pessoas. Ora, a degradação e destruição nada mais são do que a outra face da moeda, com relação à geração: aquilo que não degrada, tampouco gera. Logo, não havia abertura à geração, no paraíso, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
A fecundidade é próprio daquilo que deve se conservar na existência como ser material, perecível, e portanto depende da multiplicação para continuar a existir. Uma espécie biológica que já não pode se multiplicar entra em extinção; basta pensar em tantas espécies que foram extintas justamente porque a aniquilação dos indivíduos foi mais rápida do que a taxa de fecundidade da espécie. Lembremos também dos anjos: eles não estão sujeitos a fenômenos como a decadência, a doença e a morte, portanto tampouco são fecundos. Cada anjo é de uma espécie diferente, e a espécie continuará a existir eternamente naquele indivíduo apenas, sem precisar multiplicá-lo.
Ora, continua o argumento, no paraíso, antes do pecado, os seres humanos jamais pereceriam: teriam uma vida sempre continuada, sempre renovada, infinda. Logo, neste estado, eles não precisariam da procriação para que a espécie humana continuasse a existir; logo, não havia fecundidade nem geração de novos seres humanos no paraíso, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Deus deu a Adão e Eva o domínio do mundo. Eles eram, portanto, os senhores, os donos de todo o mundo. Ora, se tivessem filhos, teriam que dividir esse domínio com seus filhos, porque eles também nasceriam com o senhorio sobre a Terra e é claro que o senhorio não pode ser superposto, mas deve ser dividido e organizado, para ser efetivo. Mas se, já no paraíso, houvesse uma divisão de poderes entre os seres humanos, isso seria contrário à noção da destinação universal dos bens, ensinada desde sempre pela Igreja, como testemunham os Padres da Igreja, em especial Santo Isidoro. Assim, não havia procriação no paraíso, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
Por fim, para tentar negar a hipótese inicial, o argumento sed contra traz simplesmente uma citação bíblica. De fato, em Gn 1, 28, Deus ordena a Adão e Eva: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a”. Ora, a fecundidade foi uma ordem direta dada a nossos primeiros pais no paraíso, antes do pecado original. Assim, existia a fecundidade e a geração no paraíso, antes do pecado original, conclui este argumento.
5. Encerrando.
Os três argumentos objetores, que tentam provar que a fecundidade humana é algo que é consequência do pecado e não do plano original de Deus, são muito interessantes e atuais, e ainda serve, mesmo hoje em dia, como fundamento para repúdio à fecundidade e abertura à vida, ao novo. De fato, a luta científica pela cura da morte parece tornar superada a ideia de fecundidade: nós, os poderosos de hoje em dia, esperamos viver para sempre. Para que precisamos de filhos? Se seremos eternos logo, os filhos não são necessários, pensam alguns. A ideia de uma prolongação da experiência humana, ou mesmo de uma multiplicação dos filhos de Deus, sobre a Terra, parecem soar mal numa era, como a nossa, em que o individualismo nos faz pensar assim: filhos não me impedirão de morrer, mas a ciência pode alcançar essa vitória para mim.
Além disso, nosso egoísmo nos leva ao fechamento: mais gente significa ter que dividir os nossos escassos recursos com gente de fora: muitos deixam de ter filhos porque querem ter dinheiro para comprar carros novos, casas maiores, fazer viagens e consumir muito. Ou repudiam imigrantes e estrangeiros pela ameaça a seu próprio bem-estar. Fecundidade e egoísmo são opostos, portanto. Se o egoísmo esteve ausente do paraíso, a fecundidade necessariamente deveria estar presente.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás.
3 de julho de 2023 at 12:28
Suas considerações iniciais são muito pertinentes, especialmente no que tange à extrapolação do conceito de fecundidade.
CurtirCurtido por 1 pessoa