1. Introdução.
A criação é homogênea. Isto significa que vivemos justamente no mundo que Deus criou, mesmo que ferido pelo nosso pecado. É certo que a natureza sofre os efeitos do nosso pecado (Rm 8, 20-22), mas somos principalmente nós os feridos. Sem a graça, nossa natureza perde o sentido. Já não conseguimos nos alimentar e nos renovar nesse equilíbrio maravilhoso que é a relação sadia com Deus, conosco, com os outros e com o resto da natureza. Essa relação não é algo dado de uma vez por todas; Deus quer se relacionar conosco como o esposo com a esposa, nessa renovação diária do amor que é própria da relação de amor entre dois seres vivos e livres. Essa renovação alimenta a alma, renova a vida espiritual, faz-nos possuidores de uma vida sem fim. Mas tem um custo: a insistência diária no amor. Isso foi chamado, pela Bíblia, de comer da Árvore da Vida (Gn 2, 9; 3, 22). As coisas são assim. Somos como flores no ramo, sempre deslumbrantes. Mas, se cortados, podemos até sobreviver biologicamente por algum tempo, como ocorre com as flores de um buquê ou de um jarro, mas é inevitável que murchemos e morramos. Sem a integração perfeita entre a vida espiritual, renovada pela árvore da vida, e a vida biológica, renovada pelos mesmos meios que a vida de todos os animais, não podemos permanecer sempre íntegros. A morte é inevitável.
Este é justamente o assunto deste artigo: qual a relação entre o fato de que, no paraíso, não havia morte, e a Árvore da Vida? Vamos ao debate.
2. A hipótese controvertida inicial.
É certo que, em nossos textos, muitas vezes antecipamos aquilo que Tomás, com muito mais habilidade, deixa em suspenso até o último momento. Isso ocorre também aqui: quando fizemos o debate sobre o artigo 01 desta questão, já adiantamos, de certo modo, o debate que ocorrerá agora: a imortalidade nunca foi parte da natureza humana, nem era, a rigor, algo como a graça santificante que recebemos hoje. Qual seria a causa de que, no paraíso, o ser humano ficaria vivo para sempre, sem experimentar a morte que, no entanto, estava inscrita em sua natureza biológica? Segundo a hipótese aqui colocada, para nos provocar ao debate, talvez essa preservação da morte não fosse resultado de que podíamos, no paraíso, comer da Árvore da Vida. Esta é a hipótese, portanto: não era a possibilidade de comer do fruto da Árvore da Vida que nos preservaria da morte, no paraíso. Há três argumentos que tentam comprovar essa hipótese (os chamados “argumentos objetores”), e um argumento contrário a ela (o argumento sed contra). Vamos examiná-los.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento lembra que, de acordo com as leis da física, nenhum efeito pode ultrapassar o poder da causa; nada pode agir para além daquilo que está inscrito em sua natureza.
Ora, aquilo que se deteriora não pode transmitir incorruptibilidade, porque não a possui. Seria ilógico que alguma coisa destrutível pudesse transmitir indestrutibilidade. Mas tudo aquilo que eu posso comer tem necessariamente que ser digerível, e portanto destrutível. Aquilo que eu como se transforma em massa corporal e em energia, em mim. Logo, se a Árvore da Vida dá frutos comestíveis, seus frutos podem sofrer destruição para se transformar na matéria do meu próprio corpo.
Assim, seria ilógico que a incorruptibilidade humana fosse transmitida por uma árvore cujos frutos são destrutíveis. Portanto, não é na Árvore da Vida que devemos procurar a causa da incorruptibilidade humana no paraíso, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
No primeiro artigo, foi dito que o ser humano nunca foi naturalmente imortal; a imortalidade decorre do estado de ordem profunda e da amizade com Deus existente no paraíso, o que é algo que supera o natural e reflete uma ordem sobrenatural. Ora, se a imortalidade não era algo natural, não podia decorrer de uma consequência da alimentação, ou seja, de comer um fruto de um vegetal, ainda que fosse a Árvore da Vida. De fato, comer um fruto vegetal é um ato natural, e dele só podem surgir efeitos naturais. Assim, a imortalidade não podia resultar de comer o fruto da Árvore da Vida no paraíso, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Aristóteles conta, em tom de galhofa, no Livro III, da Metafísica, que os antigos acreditavam em fábulas ridículas como a de que algumas pessoas podiam ser imortais em razão de comerem determinados alimentos. Ora, como alguém que precisa comer, ou seja, precisa repor as próprias forças, poderia ser imortal, pergunta Aristóteles? Se admitirmos, portanto, que nossos primeiros pais, no paraíso, adquiriam a imortalidade porque comiam certo fruto de certa árvore, caímos no mesmo ridículo, diz o argumento. Logo, comer da Árvore da Vida não concedia imortalidade a nossos primeiros pais, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra é bíblico. Ele lembra que, após o pecado original, Deus expulsou nossos primeiros pais do paraíso, e os impediu justamente de comer da Árvore da Vida. Diz o Livro do Gênesis (3, 22): “que agora não estenda a mão e colha também da Árvore da Vida, e coma e viva eternamente”. A esse respeito, Santo Agostinho, comentando essa passagem, diz que “saborear da Árvore da Vida tinha o poder de deter a degeneração do corpo, mesmo depois do pecado; dessa maneira, eles permaneceriam indestrutíveis, se lhes fossem permitido comer da referida árvore”. Assim, vê-se claramente que o efeito de comer da Árvore da Vida seria permanecer sem a degradação que leva à morte, conclui o argumento.
5. Encerrando.
Há sempre um perigo em ler literalmente as passagens bíblicas; trata-se de mitificá-las, de recair no erro que o próprio Aristóteles denuncia no Livro da Metafísica: transformar a Palavra de Deus numa fábula. É certo que a Palavra de Deus deve falar de coisas que estão além da possibilidade da linguagem humana; uma delas é, sem dúvida, o modo de viver e sobreviver no paraíso. O certo é que havia, ali, uma troca de energia vital relacionando diretamente a manutenção da vida biológica humana à vida divina, ou seja, uma dimensão de vida espiritual que impediria a degradação humana. É curioso perceber que, no paraíso, enquanto mantivéssemos a nossa ligação com Deus (tendo nele a fonte do nosso bem, e ciente de que o mal consistia em se afastar voluntariamente dele) havia apenas uma chance de morrer: matar-se. Neste sentido, podemos compreender a noção de que “comer da árvore do bem e do mal” significava colocar o próprio bem fora de Deus. Desligar-se da fonte da vida. Matar-se. E foi justamente o que fizemos.
No próximo texto, veremos as respostas de Tomás.
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