1. Retornar para encerrar.
Estabilidade na paz e na felicidade, imperturbável por estímulos contrários do ambiente. Não se trata de deixar de receber estímulos, ou de discernir que esses estímulos podem ser perturbadores. Mas a ordem virtuosa do ser humano não maculado pelo pecado leva as paixões a serem ordenadas, e com isso a paz é imperturbável. É assim que devemos entender a impassividade: não com frieza, não como desprezo, não como insensibilidade, não como o orgulho estoico de quem quer se transformar num robô isolado do ambiente, mas como a segurança de quem está lastreado em Deus, e por isso sabe que a paz não é passageira. Rir com os que riem, chorar com os que choram, como diz São Paulo em Romanos 12, 15. É certo que não haveria, no paraíso, motivos para chorar; mas certamente a simples possibilidade de perder o amor de Deus deveria ser motivo justo para o temor, no paraíso. Isso teria impedido nossos pais de comer o fruto daquela árvore maldita.
Impassividade, portanto, não é desprezo orgulhoso dos sentimentos, nem é frieza egocêntrica de quem “não está nem aí”; no paraíso, significa simplesmente estabilidade na felicidade. Neste sentido, a impassibilidade no paraíso – assim como na glória – torna-nos mais sensíveis, mais capazes de admiração e contemplação, não menos.
Mas estamos divagando. É certo que essa noção correta de impassibilidade, no sentido que Tomás usa na Suma, é muito boa de debater; e eu estou longe de esgotá-la: apenas exerço minha parca meditação sobre ela.
Examinemos, agora, as respostas de Tomás sobre os argumentos objetores iniciais, que tentam provar que a alimentação não era uma necessidade no paraíso, antes da queda. Tomás nos dará mais uma bela lição sobre a nossa própria humanidade: ser biológico não é um fardo, não é um castigo, mas é um dom, parte da própria condição humana – ainda que não esgote o que é humano, uma vez que somos biologia e espírito num único e indivisível ser. Vamos a Tomás.
2. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
Alimentar-se tem um sentido, diz o argumento: recuperar as forças perdidas pelo desgaste necessário para viver, que deteriora progressivamente nossos corpos. Ora, no paraíso, não haveria desgaste no viver, porque as coisas, no paraíso, não estavam sujeitas à deterioração. Nem nosso corpo, que, no paraíso, seria incorruptível, e portanto não se desgastaria. Portanto, comer não teria sentido, no paraíso, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
É certo que o próprio Santo Agostinho questionou: “por que um corpo imortal teria necessidade de alimentos? Aquilo que é imortal – diz Santo Agostinho – não tem necessidade de comida nem de bebida”. Ocorre, como já vimos nos textos anteriores, que fomos criados como seres biológicos, que, portanto, envolvem-se com o meio, trocam energia, perdem e ganham matéria. Logo, a imortalidade nunca foi uma característica própria da natureza humana, como tal – a morte é própria dos seres biológicos, ou seja, dos animais que somos. É certo que a nossa alma sobrevive à morte, mas a própria morte está inscrita em nossa natureza animal. No paraíso, porém, dada a situação de perfeito equilíbrio e a relação íntima com Deus, a morte não ocorreria, porque a ordem perfeita e o governo pleno da providência agiriam no sentido de sempre restaurar os desgastes de modo pleno e perfeito. Mas os desgastes ocorreriam, por serem próprios da vida biológica. Assim, a alimentação, mesmo no paraíso, era necessária, sendo parte do perfeito equilíbrio dinâmico que vivíamos ali.
O segundo argumento objetor.
Nutrir-se significa sofrer uma influência corporal do meio que nos cerca; ou seja, uma passividade, uma alteração em nós provocada pela interação com o ambiente. Ocorre que no paraíso o ambiente não poderia nos prejudicar, não poderia nos provocar alterações, porque seríamos imutáveis, perfeitos, completos. Impassíveis, essa é a palavra para descrever quem não pode sofrer alterações por influência ambiental. Logo, a alimentação é alguma coisa que não poderia ocorrer no paraíso, antes da queda pelo pecado original, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Nada poderia nos prejudicar no paraíso, isso é certo; nesse sentido, seríamos impassíveis: nada poderia tirar nossa paz, nossa felicidade, nossa completude humana. Mas alimentar-se não é algo que prejudica quem se alimenta; de fato, talvez prejudique o próprio alimento, que, assimilado pelo nosso organismo, vira energia e tecidos corporais nossos. Mas o fato de que o alimento seria transformado, pela nossa digestão, em energia e em nossos próprios tecidos corporais, não significa que pudéssemos ser tirados do nosso próprio estado de estabilidade na perfeição (ou seja, da chamada impassibilidade), mas apenas que aquilo que foi dado como alimento (Gn 1, 29) não teria garantia de impassibilidade e poderia ser eventualmente digerido e eliminado. O que não retiraria o equilíbrio perfeito do paraíso, porque estava perfeitamente dentro dos desígnios divinos. Quanto a nós, aquelas influências externas que eventualmente sofrêssemos, e que se desse para nosso próprio bem, seriam perfeitamente admissíveis no paraíso, como vimos no artigo anterior.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento vai na mesma linha do primeiro argumento: se a razão de comer é conservar a vida, e se nossos primeiros pais não estavam sujeitos à morte, então não precisariam comer, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
É verdade que a morte não nos atingiria, no paraíso, salvo, é claro, se pecássemos. Mas deixar de se alimentar quando se tem fome, permitindo o próprio enfraquecimento, seria um pecado, e portanto abriria as portas para a morte. Assim, mesmo no paraíso, alimentar-se seria uma necessidade, e não se alimentar, um pecado.
O quarto argumento objetor.
Quem come, defeca. Mas defecar, diz o argumento, é algo fedorento, sujo, deselegante, e, com certeza, é algo indigno do ser humano imaculado que vivia no paraíso. Logo, comer não era uma necessidade ali, porque defecar no paraíso seria indigno, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Aqueles que acreditam que defecar é desagradável, mas percebem que comer seria uma necessidade biológica, mesmo no paraíso, costumam defender que, no paraíso, o ato de alimentar-se seria tão perfeito que não haveria resíduos alimentares a serem emitidos como evacuação. Portanto, mesmo que se imaginasse que defecar fosse uma atividade incompatível com o paraíso, não seria necessário imaginar que comer implicasse sempre defecar. Mas, ainda que acreditemos que o processo digestório necessariamente envolvesse a formação de dejetos com aquilo que não fosse adequado à nutrição, não precisamos imaginar que, no paraíso, defecar envolvesse as inconveniências que envolve hoje: ali, seria uma atividade adequada, perfeitamente integrada no ciclo de vida e sem envolver nenhuma consequência indecente ou desagradável. Em suma, ainda que a digestão produzisse a necessidade de evacuar, a evacuação não seria realizada de uma forma inconveniente, ali. Por outro lado, evacuar é parte do processo natural biológico, pelo que não estaria excluída da atividade animal em geral, no paraíso.
Portanto, nada disso pode levar à conclusão de que o fato de que esta é uma atividade, hoje, tão desagradável, descaracterizasse a necessidade de alimentação no paraíso.
3. Concluindo.
No paraíso se comia. E se comia bem, virtuosamente, com prazer, alegria e moderação. Nossos primeiros pais, já no paraíso, eram seres biológicos com uma dimensão espiritual na alma; dotados das funções biológicas que temos hoje. E isto não poderia se fonte de nenhum mal. Porque, no paraíso, estaríamos em perfeita harmonia conosco, com Deus e com o ambiente.
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