1. Voltando.

Comer é expressar a animalidade, mas, para o ser humano, não existe uma animalidade pura: há sempre a cultura que se constrói por sobre a biologia. Isto é bom: o fim do ser humano nunca é atingido apenas por deixar que as inclinações naturais sigam seu curso: a razão prática se insere na própria inclinação natural para guiá-la de modo livre a seu fim: este percurso que a inclinação natural faz, guiada pela razão, para o seu fim, de tal modo a plenificar o ser humano, chama-se virtude. Assim, no paraíso, comer seria uma atividade virtuosa. E, por isso, cheia de alegria.

Visitemos agora a Resposta Sintetizadora de Tomás, na qual ele tratará justamente da alimentação humana intocada pelo pecado original.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

A diferença entre a inocência original e a glória da ressurreição.

Como vimos nos textos anteriores, a inocência que o ser humano vivia, quer dizer, o fato de que vivia no paraíso no estado de pureza original, sem ter sido tocado pelo pecado, não é igual à glória da ressurreição. No paraíso, nossos primeiros pais eram (como nós também somos hoje) animais racionais. Na ressurreição seremos aquilo que Jesus ressuscitado é: corpos espirituais, não mais animais. Como ressuscitados, já não seremos mais animais racionais, mas espíritos corporais, em corpo glorioso. Não sabemos ainda o que será isto, tivemos apenas um breve vislumbre pelo contato com Jesus ressuscitado, que, na Bíblia, é bastante obscuro. De fato, São João Evangelista nos alerta que aquilo que haveremos de ser ainda não se manifestou (1Jo 3, 2), e o próprio São Paulo diz que a nossa ressurreição ultrapassa tudo o que possamos imaginar (1 Cor 2, 9).

O certo é que, como animais, precisamos do alimento para nossa sobrevivência. Precisamos deles agora, no estado decaído de pecadores, como precisávamos na inocência do paraíso, porque somos animais, como éramos no paraíso. Mas na glória final, no paraíso, não precisaremos de alimentos, porque teremos a vida espiritual e corpos espirituais. No entanto, como sabemos, os ressuscitados têm pleno domínio sobre a matéria e podem, inclusive, comer, se quiserem. É o que Jesus fez com os discípulos, em Lc 24, 41 e em João 21, 5. Mas comer, para o Ressuscitado, não é inclinação de necessidade, mas gesto de comunhão.

A estrutura humana: antropologia da inocência.

Fomos criados como animais. E, como animais, somos estruturados como seres vivos corporais, isto é, com uma estrutura que envolve, inseparavelmente, uma dimensão material (o corpo) e uma dimensão imaterial, que chamamos de alma espiritual, e que nos dá tanto a vida quanto a inteligência. Neste sentido, chamamos a estrutura imaterial humana de alma espiritual. E isto tem uma razão: nossa estrutura imaterial tem função dupla em nós: como alma, ela compartilha da natureza da alma de todos os seres vivos, ou seja, ela compartilha da natureza vegetal (pela qual ela nasce, cresce, se alimenta, se reproduz e morre, atividades vegetativas da alma) e da natureza animal, pela qual ela controla um corpo dotado de sentidos, de emoções, de tendências e necessidades. Assim, nossa alma tem a dimensão vegetativa e a sensorial, e isto nos torna semelhantes a todos os outros seres vivos da criação material.

Mas a dimensão espiritual da alma humana caracteriza-se pela capacidade de conhecer intelectualmente o mundo. Conhecer de modo universal e abstrato, assim como conhecem os anjos, a partir das próprias razões das coisas que estão na mente de Deus. Esta capacidade nos foi dada, dentre todos os seres materiais, de modo exclusivo. É uma diferença qualitativa com relação aos outros animais e aos vegetais: não se trata apenas de que podemos conhecer mais e melhor do que os animais (talvez por sermos mais evoluídos, como querem, por exemplo, os darwinistas e evolucionistas em geral), mas que temos uma capacidade que decorre de uma diferença essencial entre nós e eles: somos seres corpóreos, anímicos e espirituais, mas os outros seres vivos são apenas corpóreos e anímicos.

No entanto, a nossa dimensão espiritual não anula as dimensões anímicas, isto é, não deixamos de ser seres biológicos por causa disso. Somos seres de alma espiritual. E, de fato, foi assim que fomos criados: como seres biológicos, como animais ao lado dos outros animais. Isto está registrado no Livro do Gênesis, 2, 7: “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem se tornou um ser vivente”. O sopro de Deus é o espiritual em nós, como o barro vivente é o anímico.

Assim, lá no estado original de inocência, nosso corpo animado pela alma (este é justamente o significado de corpo animal) possuía, como hoje, todas as funções de um ser vivo, compartilhadas por todos os seres vivos, desde os vegetais até nós: alimentar-se, reproduzir-se e crescer. E é assim até hoje: alimentamo-nos, porque somos animais. Somos essencialmente biológicos. E a vida biológica implica necessidade de alimentação. Isso não mudou com o pecado. Mudou, isto sim, o modo pelo qual a alimentação se dá: aquilo que se realizava lá em perfeita integração com o mundo, com prazer perfeito e perfeito equilíbrio e temperança, hoje necessita do desenvolvimento progressivo de virtudes adequadas a combater o desequilíbrio instalado pelas consequências do pecado em nós e no mundo.

Antropologia da ressurreição.

Na ressurreição, como estudaremos mais profundamente em outras passagens da Suma, teremos um corpo glorioso, que já não será um corpo anímico, ou seja, animal, mas um corpo espiritual, como nos ensina São Paulo em 1 Coríntios 15, 44: “Semeia-se corpo natural, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual”. Todos ressuscitaremos em corpo e espírito, os redimidos para a glória (corpo glorioso), os maus para a perdição (corpo tenebroso) como nos ensina João 5, 29: “os que praticaram o bem irão para a ressurreição da vida, e aqueles que praticaram o mal ressuscitarão para serem condenados”. Ora, se seremos todos ressuscitados, bons e maus, nós o seremos em corpos espirituais, já não animais. Assim, como Cristo ressuscitados, teremos poder sobre a matéria, mas ela já não terá poder sobre nós. Em suma, já não precisaremos comer, já não termos necessidade biológica de alimento, como os animais precisam, e como nós precisávamos no paraíso original e no estado em que vivemos hoje.

3. Encerrando.

Os ressuscitados não têm necessidade biológica de alimento. Nossos primeiros pais a tinham, no paraíso, mesmo antes da queda. Nós a temos hoje.

Poderíamos aduzir algumas meditações sobre a eucaristia e o banquete dos bem-aventurados no céu. Mas não é isto que está em debate agora. O que está em debate é a continuidade entre a vida biológica dos nossos primeiros pais e a nossa.

No próximo texto, examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.