1. Introdução.
A alimentação humana sempre foi alguma coisa que preocupou pessoas, culturas, civilizações. E continua preocupando: mesmo hoje em dia as pessoas têm – talvez mais do que antigamente – preocupações alimentares fortes. Profissionais dedicam-se a prescrever dietas, religiões defendem que a elevação espiritual implica deixar de se alimentar com coisas materiais e viver só de energia cósmica, muita gente trata com muito mais rigor aquilo que come do que a própria atividade sexual. A pergunta é: será que comer é algo que decorre do fato de que vivemos numa situação de queda, marcados pelo pecado? Se vivêssemos no paraíso, imaculados pelo pecado original, precisaríamos comer?
Eis o debate posto. Vamos a ele.
2. A hipótese controvertida inicial.
Comer parece uma coisa um tanto rude. Implica a destruição de alguma coisa pelo bem de outra. Implica ter que se abrir ao mundo, constatar a própria animalidade, ou melhor, até mesmo a própria vegetalidade. Ter contato com a biologia que somos. Implica ter gula, selecionar e enfeitar alimento por prazer estético, enfim, envolve uma série de condutas e comportamentos que estão muito longe da vida dos anjos, e mesmo até de uma vida ascética. E implica eventualmente digerir e defecar. Tudo isso seria compatível com uma vida imaculada, como aquela que havia no paraíso antes da queda pelo pecado original?
A hipótese inicial, aqui, é a de que a própria atividade de comer, a necessidade mesma, decorre apenas da queda no pecado. Ou seja, se não vivêssemos num mundo decaído pelo pecado original, não precisaríamos nos alimentar. De acordo, então, com essa hipótese controvertida inicial, nossos primeiros pais, no paraíso, não precisavam se alimentar. Ter que comer seria resultado da situação decaída pelo pecado, diz a hipótese. Existem quatro argumentos objetores iniciais, no sentido dessa hipótese. Lembremos sempre que esses primeiros argumentos são chamados de “objetores” porque normalmente trazem posições falsas ou incompletas, e que somente serão adequadamente respondidas quando Tomás vier a analisá-los. O que só examinaremos nos textos seguintes a este. Vamos aos argumentos.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Qual é a razão pela qual precisamos comer? É o que pergunta este primeiro argumento. Comemos, responde ele, porque precisamos nos recompor, ou seja, porque nossas energias se corrompem, nosso corpo se enfraquece, e assim essa energia precisa ser reposta e nosso corpo precisa ser fortalecido, para não entrar num processo de degradação pela fome, que pode inclusive conduzir à morte.
Mas não havia, no paraíso, nenhum processo de degradação e morte do ser humano. O ser humano, no paraíso, como vimos nos artigos anteriores, era incorruptível e não estava sujeito à morte. Assim, não haveria razão para que ele precisasse comer, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Este segundo argumento pressupõe, de certo modo, o debate que foi feito no artigo anterior sobre a impassibilidade do ser humano no paraíso, ou seja, sua condição de ser inatingível por fatores exteriores. Para melhor compreensão, recomenda-se a leitura dos dois textos anteriores a este.
Quem se alimenta sofre alterações em seu corpo. Digestão, assimilação, eventual entoxicação ou mesmo indigestão e sofrimento. Mas o ser humano no paraíso era, de certa forma, impassível, ou seja, não podia sofrer alterações provocadas de fora. Assim, comer é algo que não se compatibiliza com a vida no paraíso, nem mesmo seria necessário ali, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
A Bíblia nos ensina, diz o argumento, que não existia a morte no paraíso, e que a morte só entraria se Adão e Eva pecassem (Gn 2, 17). Ora, comer é necessário para conservar a vida e evitar a morte. Mas se não havia morte, então não seria necessário comer; logo, no paraíso, a alimentação não era necessária, conclui este argumento.
O quarto argumento objetor.
Quando comemos, nosso processo de digestão separa, no nosso sistema digestório, aquilo que não pode ser absorvido, que é nocivo, ou que é excesso. Isso é evacuado quando defecamos, ou seja, comer e digerir implica necessariamente defecar. Mas esta atividade de evacuar é deselegante, malcheirosa, desagradável e um tanto indigna de uma vida paradisíaca. Defecar definitivamente não é algo adequado a uma vida no paraíso, diz o argumento. Logo, o ser humano, no paraíso, não comeria, não digeriria e não defecaria, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra é muito simples: no paraíso o ser humano era capaz de comer, simplesmente porque a Bíblia comprova isso. De fato, o Livro do Gênesis (Gn 2, 16) registra que Deus disse aos nossos primeiros pais: “podes comer dos frutos de todas as árvores do jardim”. Ora, Deus não teria dito isso se não fosse necessário, ou mesmo possível, comer, no paraíso. Logo, no paraíso, nossos primeiros pais se alimentavam, conclui o argumento.
5. Encerrando.
O debate sobre a alimentação, sua necessidade e seu significado é muito rico. Mas não podemos deixar de registrar: é muito interessante que a discussão, aqui, não se limite à atividade de se alimentar, mas envolva também a evacuação.
E é muito interessante que, na Suma Teológica, que muitos imaginam que seja uma obra desencarnada, idealista, preocupada com anjos e com a vida após a morte, mas pouco ou nada ligada com a vida humana cotidiana, traga um debate sobre a alimentação que chegue a debater o significado de defecar. Fato humano que, aliás, não esteve ausente nem da pregação de Jesus: ele nos adverte que o alimento entra pela boca e sai pela fossa, e isso não torna o ser humano impuro (Mt 15, 17). Ele não teve nenhum constrangimento em falar da atividade de evacuar. Tampouco Tomás terá esse pudor.
E será muito interessante saber, nos próximos textos, não somente como seria a alimentação sem a marca do pecado, como também descobrir como é que o ser humano, no paraíso, levaria a termo essa atividade de evacuar, que é tão, digamos, íntima.
No próximo texto, veremos a resposta de Tomás às muitas questões levantadas aqui.
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