1. Retomando.
No início do texto anterior, falávamos dos super-heróis e sua invulnerabilidade. De fato, não podemos pensar em nossos primeiros pais, antes da queda, como super-heróis, mas como pessoas que viveram com perfeição o plano de Deus para elas. É este o sentido do que estamos debatendo aqui: não uma especulação gratuita sobre como seria o paraíso sem o pecado, nem uma espécie de prazer em conversar sobre coisas imaginárias, mas concretamente saber o que é o próprio do ser humano, ou seja, o que seríamos se o plano de Deus para nós não tivesse sido frustrado pelo pecado. Isto nos serve de uma maneira muito prática: ajuda a entender toda a dignidade do ser humano, tudo o que é estragado pelo pecado e tudo o que temos que resgatar para sermos felizes. Funções muito úteis e muito interessantes: para quem está desorientado no escuro, achar as referências leva à saída.
A ideia de sermos impassíveis, inatingíveis por eventos externos, pode nos levar a pensar que estaríamos isolados, como que vestidos com uma armadura que nos isolaria do perigo: mas armaduras também isolam o seu dono de uma interação efetiva com os estímulos ambientais: quem está de armadura não pode, por exemplo, acariciar ou tocar a pétala de uma flor.
Assim, vamos examinar com carinho as respostas de Tomás, para ver como ele resolve esta situação.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
A ideia de ser atingido por estímulos exteriores, que os antigos chamavam de passio, receber estímulos que nos causam respostas sensoriais ou emocionais (ver a luz, ouvir sons, perceber movimentos, ser atingido por objetos), tem dois sentidos, diz Tomás. São eles:
1. Num primeiro sentido, ser passível significa ser atingido por alguma coisa que nos tira do estado natural, como acontece com quem fica muito tempo ao sol e adquire uma queimadura, ou a quem é atingido por uma pedra que desaba de um lugar alto.
2. Num segundo sentido, significa qualquer interação com o meio ambiente que é capaz de nos transformar de alguma maneira. Assim, perceber e aprender seriam expressões de passio, ou seja, seriam respostas a estímulos que nos relacionam com o que nos cerca.
Ora, neste segundo sentido, ou seja, no sentido de receber estímulos e responder a eles, nossos primeiros pais não eram insensíveis, porque a sensibilidade é necessária ao aperfeiçoamento humano: ao contrário, com a percepção livre do pecado, eram capazes de receber a atuação externa e responder adequadamente a ela: contemplar a beleza sem mácula da criação, aprender com as obras de Deus, alegrar-se com um acontecimento feliz.
Mas naquele primeiro sentido, isto é, no sentido de sermos atingidos por alguma coisa que nos prejudicasse, que nos ferisse ou nos tirasse do equilíbrio natural, isso não aconteceria no paraíso, diz Tomás. Mas não porque nossos primeiros pais fossem superpoderosos ou mesmo invulneráveis: simplesmente porque a vida no paraíso era perfeitamente ordenada, tanto do ponto de vista natural quanto do ponto de vista do governo divino. Não havia, ali, desastres, agressões, desequilíbrios ou irregularidades que pudessem feri-los, porque a natureza não estava em combate com a humanidade, nem havia coisas inesperadas ou trágicas, porque a providência divina estava atenta à vida sem mácula desses primeiros pais.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro e o segundo argumentos objetores alegam que o ser humano, mesmo antes do pecado original, eram capazes de perceber, de sentir os estímulos externos, e de sentir sono, como se conta no Livro do Gênesis. Logo, não era impassível. Tomás considera que estes argumentos já foram suficientemente respondidos pela resposta sintetizadora: o ser humano seria impassível, no sentido de não sofrer por si mesmo degradação, e não receberia, no paraíso, ameaças ou desastres, por conta do equilíbrio entre ele e Deus, entre ele e os outros e entre ele e o ambiente. Mas perceber e dormir não são ameaças, senão funções naturais que aperfeiçoam os seres humanos. Assim, ocorreriam no paraíso.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento diz que a própria Bíblia atesta que poderíamos ser atingidos, modificados, até feridos amputados, no paraíso; e diz que isto ocorreu quando Deus nos amputou uma costela para criar Eva. Tomás responderá simplesmente que não se pode ler essa passagem tão literalmente, como se Deus fosse um agente natural que arrancasse um pedaço de Adão para fazer Eva. Na verdade, o que está descrito ali é simplesmente o fato de que somos uns tirados dos outros, somos todos interligados pela geração, sem que isto nos diminua ou prejudique: de modo similar, a troca de gametas que está envolvida na reprodução humana não diminui os pais, na geração dos filhos. Portanto, não se pode dizer, desse episódio, que houve algum tipo de sofrimento ou diminuição para Adão.
O quarto argumento objetor.
O corpo humano é constituído de modo mais frágil do que muitos entes naturais, como as pedras. Assim, se fosse atingido, digamos, por alguma pedra, mesmo no paraíso, seria necessariamente lesionado. Assim, não era impassível, conclui o argumento. Mas Tomás nos lembra que a ordem existia no paraíso, de tal modo que não havia a desordem natural que viesse a causar desastres ou tragédias naturais; além disso, os seres humanos eram dotados das virtudes adequadas, como a ciência, a prudência e a fortaleza, para lidar com situações em que pudessem estar expostos a acidentes, como caminhar em lugares altos ou pedregosos. Por fim, a amizade com Deus trazia a perfeita submissão à providência divina, que os protegia inteiramente de perigos e desastres.
4. Conclusão.
Sim, de certo modo seríamos impassíveis no paraíso, no sentido de vier uma vida equilibrada, inabalável, não corruptível. Mas isso numa relação de perfeita amizade com Deus e de perfeito equilíbrio entre nós e os outros, e entre nós e o ambiente. Vale dizer: não precisaríamos ser invulneráveis no paraíso, porque não havia, ali, ameaças. Nosso corpo tinha a perfeita capacidade de conservação, e não sofria desgastes. Deus estava atento a nossos passos, para que nossos pés não se ferissem em alguma pedra, como diz o salmo 91, 12. Assim, muito longe de sermos impassíveis, no sentido de brutos, de duros, de emocionalmente frios, neste sentido éramos muito mais sensíveis, até.
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