1. Introdução.
A nossa era gosta muito de super-heróis. De carto modo, eles substituíram os cavaleiros medievais e os aventureiros da modernidade para fazer renascer a ideia dos semideuses gregos poderosos. Valentes, robustos, poderosos, alguns deles são verdadeiramente invulneráveis a agressões externas. A pergunta é: uma vez que os sentidos funcionam por meio da recepção de estímulos externos, que não são diferentes das agressões externas senão em grau (ou seja, os estímulos são suaves, mas as agressões são intensas e podem nos prejudicar, ferindo-nos), será que, apenas do ponto de vista lógico, ser invulnerável também não implicaria ser impassível, ou seja, ser isolado de estímulos externos, sem aberturas sensoriais para o mundo, isolado de qualquer relação que implique alguma sensação?
Esta é uma boa pergunta. Uma vez que vimos, no artigo anterior, que não haveria a possibilidade de que fôssemos corporalmente ameaçados por acontecimentos externos, no paraíso, será que isso implicaria que fôssemos também impassíveis, no sentido estoico de isolados, distantes, insensíveis aos estímulos externos?
Este é o debate que agora se estabelece.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese inicial parte justamente da ideia de que o ser humano não estava isolado do meio ambiente, no paraíso, e poderia sofrer as consequências da atividade ambiental que incidisse sobre ele. De fato, diz esta hipótese, o ser humano, no paraíso, não era insensível, impassível, mas mantinha uma relação dinâmica com as outras coisas, de modo que poderia sofrer a ação delas.
Este é um daqueles artigos em que precisamos ficar atentos ao debate inteiro, inclusive aos próximos textos, porque a hipótese inicial não é abertamente errônea, mas imprecisa, incompleta, e somente será esclarecida adequadamente com a resposta sintetizadora de Tomás, e com as apreciações que ele fará a respeito dos argumentos objetores iniciais. Então é um artigo que demanda paciência e atenção para ser adequadamente compreendido.
Há quatro argumentos objetores que tentam comprovar esta hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores que tentam comprovar a hipótese inicial.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra justamente que a capacidade de receber estímulos sensoriais se dá pelo mesmo mecanismo que nos torna, de certo modo, vulneráveis a agressões externas: por exemplo, o olho que vê é o mesmo olho que, ao voltar-se diretamente ao sol, pode sofrer uma lesão irreversível. Se o olho não tivesse a abertura para ser lesionado pela luz solar, também não teria abertura para enxergar. E o mesmo se dá com os outros sentidos: se a pele fosse invulnerável a lesões por fricção com uma superfície áspera, ela também seria incapaz de perceber, pelo tato, a aspereza dessa superfície, num contato suave; seria insensível por ser invulnerável. Logo, uma vez que nossos primeiros pais tinham o uso perfeito dos órgãos dos sentidos, ou seja, podiam ser atingidos por estímulos externos, tampouco eram invulneráveis a agressões externas, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O sono, ou seja, dormir, não é uma ação humana, mas algo que acontece conosco, e portanto uma paixão, uma vulnerabilidade, uma resposta involuntária de nossa dimensão biológica a estímulos externos. Um ser impassível, portanto, não dormiria, porque não teria uma resposta biológica a estímulos externos como a noite, o esforço, determinadas substâncias calmantes, etc. Ora, no entanto, a própria Bíblia narra que Adão, mesmo antes do pecado, dormia: Gn 2, 21 narra que Deus fez cair um torpor sobre Adão, e ele dormiu. Logo, os nossos primeiros pais não eram impassíveis, no paraíso, antes da queda, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento ainda é bíblico. Um ser invulnerável, que não é suscetível a nenhum acontecimento exterior que lhe atinja, que lhe diminua, que lhe faça sofrer, também não pode ser mutilado ou amputado. Ora, mas a própria Bíblia diz que Adão foi amputado, quando perdeu uma costela para que Eva fosse criada (Gn 2, 22). Logo, Adão podia ser amputado, e não era impassível, invulnerável, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
Não somos feitos de diamante nem de algum material semelhante. Nosso corpo é feito de pele, carne e osso, de tal modo que, se for atingido por algum material mais duro que ele, será ferido. Os corpos mais duros são capazes de atingir, modificar e até destruir os corpos mais moles, e isto era verdade no paraíso tanto quanto é verdade hoje. Portanto, nossos primeiros pais, mesmo no paraíso, não eram invulneráveis, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
Se um ente é vulnerável, e portanto dotado de sensibilidade externa e da possibilidade de ser atingido, estimulado, ou mesmo ferido e destruído, esse ente também necessariamente é corruptível e destrutível, porque as mesmas forças que podem ser percebidas sensorialmente podem agredi-lo e alterar sua substância mesma; entre os estímulos sensoriais e as agressões destrutivas a diferença é apenas de grau, não de natureza. Logo, os nossos primeiros pais eram impassíveis a essas interações, conclui o argumento sed contra.
5. Encerrando esta primeira parte.
O debate está posto. Adão e Eva eram invulneráveis, no paraíso? Seriam eles impassíveis, incapazes de receber os estímulos das coisas, já que estavam, como vimos no artigo anterior, numa vida que não poderia ser destruída por fatores externos? Se Adão e Eva eram blindados contra agressões externas, eles também teriam que ser blindados contra os estímulos externos: a mesma aspereza da pedra que estimula o sentido do tato é a aspereza que fere a pele. Seriam eles de fato invulneráveis e impassíveis?
Não podemos perder o próximo texto, no qual Tomás tirará nossas dúvidas.
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