1. Retomando.
Há muitas coisas que vivemos, mas não são simplesmente nossas: são bens relacionais, que decorrem da nossa relação com Deus. Seria isso exatamente o que a teologia chama de “graça”? Sim, de certo modo, se tomarmos a noção de graça num sentido muito amplo. Por exemplo, se recebo a graça da conversão e passo a viver uma vida mais eclesial, conquistarei amigos, conquistarei uma formação catequética que me ajudará a viver melhor a fé, conquistarei momentos de oração comunitária e até de lazer e convivência, como quermesses, celebrações de aniversários e refeições comunitárias. Eu poderia dizer que tudo isso é graça, mas não num sentido estrito: são, na verdade, bens que adquiro por causa de uma relação com Deus.
A graça, em sentido estrito, é um desses bens. Se não me relaciono com Deus, não posso viver na graça. A vida, no sentido pleno, também é um desses bens. Tanto a graça quanto a vida plena foram perdidas pelo pecado dos nossos primeiros pais, que romperam a relação com Deus. “Que agora ele não estenda a mão e colha também da árvore da vida, e coma e viva para sempre”, Gn 3, 22. Esta é a descrição que a Bíblia nos dá sobre esta ideia de que, na relação original com Deus no paraíso, a imortalidade, que não está inscrita em nossa natureza, podia ser desfrutada como dom de Deus renovado na relação com ele.
Mais uma vez, estou me adiantando ao próprio Tomás. Vamos acompanhar a resposta sintetizadora dele a este problema tão interessante.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
As coisas com as quais nos deparamos cotidianamente são corruptíveis, isto é, estão sujeitas à degradação, à destruição. E, se forem coisas vivas, estão sujeitas à morte. Em geral, as coisas materiais estão irremediavelmente sujeitas à degradação no tempo. Esta é uma experiência que todos nós temos: as coisas surgem, passam por um ciclo de existência e tendem à degradação e à extinção.
Apenas em três casos as criaturas não estão sujeitas à degradação e à destruição:
1. Quando são imateriais, como os anjos e as puras formas ou ideias. A ideia de que um triângulo é uma figura fechada, com três lados retos, na qual a soma dos ângulos interiores resulta em 180º era tão verdadeira no tempo de Tomás quanto no tempo de Aristóteles, quanto é hoje. A ideia de triângulo não envelhece, como os anjos não envelhecem, porque não são coisas materiais, e portanto não estão sujeitos ao tempo e ao espaço. Ainda sob este aspecto, poderíamos imaginar que, mesmo uma coisa material que tivesse um determinado tipo de matéria que não fosse apropriado a nenhuma outra coisa, mas somente a ela própria, tampouco sofreria corrupção e destruição, porque a matéria estaria inteiramente submetida àquela forma, e somente na perfeição daquela forma ela encontraria existência, de tal modo que ela não poderia entrar na composição de nenhuma outra coisa: não seria adequada, quer dizer, não seria potencial para nenhuma outra coisa senão para aquilo. De certo modo, como os corpos celestes não sofrem degradações que sejam visíveis senão em escala não observável pelos seres humanos, e, por exemplo, o sol e a lua apresentam-se imutáveis por milhões, e até bilhões de anos aos olhos humanos, os antigos acreditavam que também eles seriam formados por um tipo de matéria especial, sem potencialidade para ser outra coisa, e portanto não sujeitos à degradação e à destruição. Hoje sabemos que não é assim. Portanto, apenas os entes imateriais entram nesta primeira categoria de indestrutibilidade.
2. Com a destruição de algum ente material, também a forma que o sustentava perece, pelo menos quanto àquele indivíduo. Sabemos, por exemplo, que vegetais e animais irracionais têm alma, ou seja, têm formas capazes de lhes conceder a capacidade vital. Mas, morto aquele ser, animal ou vegetal, também sua alma perece. Mas isso não ocorre com a alma humana: por ser intelectual, ou seja, por ser capaz de assimilar ideias em sua imaterialidade, a alma humana tem uma capacidade que ultrapassa o corpo do qual ela é a forma. Assim, ela não é destruída pela morte, mas possui a capacidade de sobreviver à destruição do corpo. É neste sentido que Santo Agostinho diz que a alma humana foi criada de tal modo que fosse capaz de salvar-se e entrar na glória, incorrupta, mesmo animando um corpo corruptível. Vale dizer, dentre todas as formas que atualizam seres materiais, apenas a alma humana possui essa capacidade individual de sobrevivência.
3. Por fim, no estado de pureza original, não haveria uma causa interior para que a vida humana se perdesse. No paraíso não haveria doenças, envelhecimento, guerras, homicídios, desastres naturais ou qualquer outra causa que pudesse dar fim à vida humana. Por outro lado, a capacidade de regeneração, de realimentação, do ser humano imaculado e ligado a Deus, seria de tal forma eficaz que, alimentando-nos permanentemente de vida, nossa vida não poderia ter fim. Somente se nós próprios escolhêssemos conscientemente a morte é que a morte nos atingiria. Nossa alma imortal seria capaz, com a relação com Deus, de restaurar e manter a cada dia o corpo material em perfeita ordem, de modo a que a corrupção final, a destruição pela morte, nunca nos atingisse.
No paraíso, portanto, não haveria uma morte causada por fatores externos a nós. A alimentação, a oração, o estímulo físico e espiritual, tudo isso seria suficiente para nos renovar a cada dia, sem decadência, sem doença, sem degradação, enquanto permanecêssemos ligados a Deus, ou seja, imaculados em nossa caminhada. A morte somente nos poderia atingir por escolha nossa. Somente nós poderíamos causar a nossa própria morte, no paraíso. Lamentavelmente foi justamente isso que aconteceu.
3. Encerrando.
Não é, portanto, que o ser humano fosse naturalmente imortal, ou seja, que, como os anjos, fosse capaz de permanecer para sempre no mesmo modo. Mas a sua capacidade de renovação completa, na união com Deus, aliada à falta de ameaças internas ou externas à integridade de sua saúde, seria capaz de mantê-lo vivo indefinidamente. Ou, pelo menos, até que ele mesmo se matasse: escolhesse, consciente e deliberadamente, romper sua relação com Deus.
Ainda hoje, se escolhemos contra Deus, perdemos a vida espiritual que só existe como relação com ele. Graças a Ele, temos a vida sacramental para adquirir e manter, desde agora, essa relação que, mais do que nos fazer sobreviver, nos dá a vida divina. Em especial os sacramentos da iniciação e da cura: batismo, eucaristia, crisma, reconciliação e unção dos enfermos.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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