1. Introdução.
Deus não criou a morte. De fato, se vasculharmos os dois primeiros capítulo do Livro do Gênesis, ou mesmo os relatos de criação que estão registrados no Livro dos Salmos e em outras partes da Bíblia, não há nenhum relato de que Deus tenha criado a morte. Na verdade, a morte entrou no mundo pelo pecado. Mas precisamos dizer mais uma palavrinha sobre isto.
A palavra “morte”, na Bíblia, nem sempre é unívoca. São Paulo, por exemplo, diz, em Romanos 6, que estamos “mortos para o pecado”, e a Primeira Carta de São João 5, 16 fala de “pecados que conduzem à morte”. Parece, pois, haver mais de um sentido para a noção de “morrer”, que inclui a morte espiritual, a morte na amizade para com Deus. Isto parece implícito no diálogo da serpente com Eva, quando ela garante: “não morrereis!” (Gn 3, 4), em resposta à declaração de Eva de que Deus teria decretado a morte de quem comesse aquela fruta. De fato, Adão e Eva comem e não morrem imediatamente, pelo menos no plano físico; morrem, porém, para a amizade com Deus e a graça. imediatamente
Mas a morte física é uma realidade inegável para cada um de nós, como era desde Adão. Seria assim se não houvesse o pecado? Mesmo no estado de inocência original, teríamos enfrentado a velhice, a doença, o enfraquecimento e a morte, antes de chegar à glória? Haveria um curso que levaria à morte, por fatores internos de degradação ou por motivos externos, como acidentes ou tragédias naturais?
É o que vamos debater agora.
2. A hipótese controvertida inicial.
A morte parece algo que faz parte mesmo do modo de ser de entes materiais como nós. Se entendemos que somos materiais desde o começo, que fomos criados como entes materiais, então teríamos que admitir que a degradação e a morte nos atingiria naturalmente, como parte do percurso da nossa existência, e não simplesmente como uma consequência do pecado, diz essa hipótese. Assim, a hipótese propõe que, aparentemente, o ser humano, mesmo antes da queda pelo pecado, não estaria livre de morrer. Há quatro argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor já inicia dizendo que “mortal” é parte da própria definição de ser humano: se dizer que alguém é humano é o mesmo que dizer que se trata de um ente vivo, inteligente e mortal. Logo, se havia alguém ou alguma coisa no paraíso ao qual não poderíamos aplicar a ideia de “mortal”, então esse ente não se enquadraria na definição de ser humano. Portanto, se havia seres humanos no paraíso, eles seriam necessariamente mortais, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
As coisas estão classificadas em espécie e gênero, como sabemos. Os seres humanos são da mesma espécie que outros seres humanos, e do mesmo gênero que os animais; estes são do gênero das coisas vivas que, por sua vez, são do gênero das coisas destrutíveis. Coisas como as ideias, os anjos ou as leis naturais estão em outro gênero, o gênero das coisas indestrutíveis: não se pode destruir uma ideia, ou um anjos. E coisas de gêneros diferentes não se transformam umas nas outras. Aquilo que é de um gênero não passa a ser de outro gênero.
Portanto, as coisas destrutíveis não pertencem ao mesmo gênero das coisas indestrutíveis. E umas não podem passar a ser do gênero das outras. Veja-se o exemplo dos anjos: foram criados como indestrutíveis por Deus, e o fato de que muitos deles pecaram e decaíram não os transformou em seres corruptíveis.
Então, se os seres humanos, antes do pecado original, pertencessem ao gênero das coisas indestrutíveis, como os anjos, então o pecado não poderia nos ter mudado de gênero: seríamos indestrutíveis até hoje. Mas somos corruptíveis. Logo, éramos mortais desde o início, mesmo quando estávamos no paraíso e ainda imaculados do pecado original, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor inicia afirmando que os seres humanos, no estado original de inocência, poderiam estar isentos da morte por dois motivos: ou 1) porque sua natureza humana não seria suscetível a ela, ou seja, por ser naturalmente imortal, ou 2) pela graça de Deus.
Mas o ser humano não tem uma natureza imortal. De fato, o pecado foi cometido por seres humanos, e somos humanos ainda hoje, isto é, nossos pais, que cometeram o primeiro pecado, eram tão naturalmente humanos como nós. Se é parte da nossa natureza que sejamos mortais, também seria necessariamente parte da natureza deles, portanto.
Tampouco pela graça o ser humano poderia ser imortal. De fato, conforme a Bíblia (Sb 10, 2), nós, humanos, voltamos a receber a graça, já que fomos novamente levantados por Deus. Mas não somos imortais. Logo, não é a graça que concede a imortalidade. Assim, mesmo no estado inicial de inocência, nem a natureza, nem a graça, impediria o ser humano de morrer, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
A imortalidade não é algo que o ser humano tenha recebido ao ser criado, mas é algo que lhe foi prometido como prêmio, como está dito no Livro do Apocalipse, 21, 4: “Não haverá mais morte”. Ora, aquilo que é prometido como prêmio não pode existir desde o início, mas deve ser conquistado no final. Assim, no paraíso, no estado original de inocência antes do pecado, o ser humano não era imortal, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra cita uma passagem bíblica: Romanos 5, 12. Ali, está dito; “por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte”. Assim, antes que o pecado fosse cometido, o ser humano não estaria sujeito à morte, conclui o argumento.
5. Encerrando por enquanto.
É interessante imaginar que, no paraíso, não existiriam a doença, a degradação, os desastres naturais, a decadência, e portanto nada que pudesse nos encaminhar no processo de corrupção e morte. Como seria então? É o que veremos no próximo texto.
Deixe um comentário