1. Introdução.

Como seria a organização da humanidade se não houvesse a queda no pecado? Se não fosse o pecado, ou seja, se vivêssemos na plenitude do plano de Deus, será que haveria algum tipo de ascendência, de hierarquia, de poder de um ser humano sobre o outro? Será que Hobbes e Rousseau estavam certos em afirmar que, antes que nós nos organizássemos em sociedade, o ser humano vivia uma vida de absoluta falta de restrições e de liberdade total, sem nenhum tipo de coordenação ou se sujeição recíproca? Será que o ser humano nasce como um ser absolutamente incondicionado, e vai sendo diminuído por causa dos outros, por causa da convivência que sempre envolve o poder de um sobre outro, e, neste sentido, o inferno são os outros, como Jean-Paul Sartre afirmou em algum momento? Ou seja, será que a própria organização social, com sua necessidade de governo, de liderança, de comando, é fruto do pecado? Viveríamos uma vida sem submissões, sem coordenação, sem comando de um ser humano sobre o outro, se estivéssemos no estado de inocência original? O paraíso seria o individualismo levado ao extremo, ou seria como que uma vila hippie, cada um cuidando de fazer o que mais lhe agrada?

A modernidade criou muitas fábulas sobre o “estado da natureza” do ser humano, como a frase famosa de Rousseau de que o ser humano nasce bom, é a sociedade que o corrompe; ou mesmo a frase de Hobbes de que o homem é o lobo do homem. Ou ainda a proposição de Jean-Paul Sartre de que a existência precede a essência, no sentido de que o ser humano teria surgido sem nenhum significado, sem nenhum propósito em si mesmo, e somente adquire uma essência pelo exercício da própria vontade, na qual Deus não deve ser considerado.

Há outro ponto em jogo aqui: a convivência social humana, com suas exigências de coordenação e de governo, é algo que pode ser considerado natural, como uma exigência da própria natureza humana assim como Deus a criou, ou nasce do pecado e da queda? Se é assim, então o contrato social, seja ele expresso ou tácito, funda a própria sociabilidade humana: ou seja, toda sociedade, toda política, todo governo, seria uma criação cultural, artificial, dos seres humanos decaídos. Mas se a sociabilidade é uma exigência da natureza humana mesma, e precede a queda, então a sociedade e o governo são dimensões naturais no ser humano, ainda que algum tipo de contrato social seja útil e necessário para firmar as condições dessa convivência.

Assim, o poder de governo, a liderança social, a subordinação hierárquica entre os seres humanos é algo que está na natureza humana, assim como criada por Deus, ou surge por consequência do pecado? É o que debateremos agora.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial propõe que não havia nenhuma tipo de sujeição a poder de mando, da parte de um ser humano para outro, no estado de inocência original. Assim, todo poder político, de governo, de mando, de subordinação ou liderança, existente entre os seres humanos, é resultado das consequências da queda após o pecado, e não faz parte dos planos originais de Deus para o ser humano. Há três argumentos objetores iniciais no sentido desta hipótese, para iniciar o debate.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que foi o próprio Santo Agostinho, na obra “Cidade de Deus”, que declarou que Deus não quis que o ser humano, que foi feito racional, com a dignidade de ser imagem de Deus, exercesse domínio sobre os outros seres humanos, mas apenas sobre os entes irracionais: o ser humano não deve dominar outros seres humanos, mas apenas os animais irracionais, diz Agostinho. Logo, o ser humano não possuía, no estado original de inocência, domínio sobre outros seres humanos.

O segundo argumento objetor.

Aquilo que foi proclamado por Deus como consequência da queda de Adão e Eva deve ser entendido como punição, ou seja, como realidades que não existiam antes da queda, e só existem como consequência do pecado. Ora, em Gênesis 3, 16, Deus diz a Eva: “estarás sob o poder de teu marido”. Ora, se Deus declarou que “estar sob o poder de outro” seria uma das penas do pecado de Adão e Eva, então essa realidade não existia antes do pecado original. Assim, não havia, no paraíso, no estado original de inocência, nenhum poder de um ser humano sobre outro, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Ser sujeito a outro, ser dominado, opõe-se a ser livre. Quem é submetido a outro não é livre, e no paraíso todos seriam livres. Ora, a liberdade é aquilo que se apresenta como mais fundamentalmente desejável para um ser humano. No paraíso, nada do que é desejável e bom para o ser humano poderia faltar. Logo, qualquer sujeição, qualquer domínio, de um ser humano sobre outro, é algo que não existia no paraíso, mas veio a surgir apenas em razão das consequências do pecado original, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

Os anjos foram criados todos em inocência; alguns optaram contra Deus e caíram no pecado. Outros optaram pela santidade, e vivem num estado sem a mácula do pecado. Ocorre que, mesmo entre os Santos Anjos, existe hierarquia, e uns estão subordinados a outros, sem que isto decorra de pecado, mas apenas do governo das coisas celestes. Tanto assim que a própria Bíblia registra que, dentre os anjos, há “potestades e dominações” (Ef. 1, 21). Logo, que haja hierarquia e subordinação, mesmo num estado de santidade, está comprovado na Bíblia no caso dos anjos, e não poderia ser diferente para os seres humanos, mesmo que não tivessem caído no pecado, conclui o argumento.

5. Encerrando.

Será que o paraíso seria, no início, uma espécie de anarquia individualista no qual cada um faria somente aquilo que quisesse? Seria este o estado desejável do ser humano, caso não houvesse pecado? Não poderia existir nenhuma ordem social, nenhuma coordenação, nenhuma missão comum? É o que estudaremos no próximo texto.