1. De volta.

Corporeidade, sexualidade, geração, liberdade, convivência, finitude. Eis as fontes da nossa diversidade, mesmo no paraíso, mesmo abstraindo do pecado. Iguais somos, em essência, mas diferentes, diversos, no acidental, e isso é uma riqueza que o próprio Deus quis para nós. Sobre essa diversidade se fundam as famílias, as cidades, as culturas, as civilizações, que são riquezas relacionais queridas por Deus mesmo.

Depois de termos visto tudo isto nos textos anteriores, passamos a examinar as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra um dito de São Gregório: naquilo em que não resulta de nosso pecado, somos todos iguais. Ora, prossegue o argumento, no paraíso não havia pecado; logo, seríamos todos absolutamente iguais, se a queda pelo pecado original não tivesse acontecido, e todas as diferenças decorrem dele, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

É claro que São Gregório, na citação aduzida, não está se referindo àquela diversidade existente no paraíso mesmo, mas àquelas diferenças relativas ao fato de que a injustiça e o pecado existem, o que gera a necessidade de um sistema externo de punições e recompensas, no qual alguns são punidos e outros são responsáveis por punir. Ademais, as diferenças que resultam do pecado, e que nos tornam diferentes, são injustas, e devem ser combatidas pelos justos. Ao passo que a diversidade querida por Deus, a que existia no próprio paraíso, não somente é desejável, como não gera injustiça.

O segundo argumento objetor.

Há uma tendência a amar mais aqueles que se parecem mais conosco; a semelhança estimula a proximidade, a relação. O Livro de Eclesiástico (13, 19) diz: “Todo ser vivo ama o seu semelhante, assim todo homem ama o seu próximo”. Ora, antes do pecado, ou seja, se vivêssemos ainda no estado de inocência original, o amor entre os seres humanos seria em grau máximo, porque viveríamos na paz perfeita, e o amor é o vínculo da paz. Assim, teríamos a semelhança em grau máximo, ou seja, seríamos todos iguais, sem nenhuma diversidade, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Como vínculo entre as pessoas, o amor entre iguais chega à máxima reciprocidade; certamente, neste caso, o amor é tão mais perfeitamente recíproco quão mais as partes sejam semelhantes entre si, e é este o sentido do versículo bíblico citado. Mas isso não significa que o amor atinja seu ponto máximo entre os iguais; ao contrário, justamente no amor assimétrico ele pode atingir o grau máximo. Basta pensar no amor das mães pelos filhos, que não é recíproco em intensidade: normalmente as mães amam os filhos com muito mais intensidade do que estes as amam, ou que os irmãos se amam reciprocamente. E, acrescentaríamos, quão infinitamente Deus é diferente de nós, e quão infinitamente mais ele nos ama do que nós o amamos. O que não é nenhum pecado, mas parte da ordem natural das coisas. Assim, a diversidade, na situação de inocência original, poderia ser uma fonte de intensificação do amor, ainda que sem necessariamente haver simetria , e não de sua diminuição.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento lembra que a relação de causa e efeito é configurada de tal modo que, cessada a causa, cessa o efeito. Ora, há dois fatores que causam a desigualdade entre os seres humanos: Deus, que faz brilhar os valorosos e pune os maus; e a natureza que, marcada pelo pecado, pode falhar na geração dos seres humanos, fazendo com que alguns nasçam com maiores aptidões e capacidades que outros.

Assim, se não houvesse pecado, não haveria diferença entre os seres humanos perante Deus, já que não haveria maldade para punir nem diferença no valor a ser premiada. Também não haveria imperfeição na geração pela natureza, de tal modo que todos seriam perfeitamente gerados e, portanto, iguais em capacidades e aptidões.

Portanto, se não houvesse o pecado, que causa esses efeitos de diferenciação, não haveria diferença entre os seres humanos, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Deus pode nos fazer diferentes. E não por causa de nossos pecados, mas por causa de sua perfeição inesgotável e da liberdade de seu amor. Assim, ele pode fazer com que suas perfeições infinitas se manifestem de modo diferente em cada um de nós, para manifestar melhor a riqueza da sua infinitude e a beleza das suas perfeições. Assim, não é apenas premiando os valorosos e punindo os maus que Deus diferencia os seres humanos, mas, na verdade, ele os diferencia em primeiro lugar em razão da sua própria beleza e riqueza infinitas.

Por isto, a diversidade entre os seres humanos não provém sempre do pecado, mas pode surgir, em primeiro lugar, do amor livre e infinito de Deus por nós e da infinita riqueza da sua perfeição.

Por outro lado, a natureza também pode fazer coisas diferentes, sem que isso seja um defeito: ela faz elefantes perfeitos, borboletas lindas e astros reluzentes, que são coisas diferentes entre si, sem que isto decorra de qualquer causa relacionada ao pecado. Assim, a diferença natural entre os seres humanos não reflete necessariamente alguma falha da natureza, mas, ao contrário, pode refletir sua abundância e criatividade.

Por isso, o argumento não procede. Mesmo sem incluir o pecado como causa de diferenciação, existem outras causas de diferenciação, em Deus e na natureza, que não envolvem pecado, mas riqueza, abundância, beleza, liberdade e criatividade.

3. Concluindo.

A diversidade não surge apenas em razão de méritos e deméritos. Ela é, na maioria das vezes, um dom, que deve ser acolhido como expressão da riqueza infinita de Deus. Mas há sempre, no ser humano, muita dificuldade de entender e aceitar os dons de Deus para nós. Este artigo certamente nos ajuda, neste sentido. Iguais em dignidade, diversos em talentos, em dons, em manifestações da infinita perfeição divina em nós.