1. Retomando.

A existência de uma ordem implica o reconhecimento de diversidade. A uniformidade não precisa ser ordenada: ela já é uniforme por si mesma. Ora, se a ordem que havia no mundo, antes da queda, foi instituída pelo próprio Deus, então a diversidade faz parte dos seus planos mesmo, e não é simplesmente resultado do pecado humano, dizia o argumento sed contra, que estudamos no texto anterior.

Dizíamos, ali, que o debate aqui tem pertinência com a questão da uniformidade: a diversidade é injusta? As diferenças entre nós são fruto do pecado dos nossos primeiros pais? Se o são, então são odiosas, e devemos de algum modo lutar pela uniformidade. Mas se Deus mesmo é a origem da diversidade, ela tem legitimidade, e deve existir mesmo numa situação de paraíso.

Mas que diferenças são essas? São aquelas que não nascem do pecado nem manifestam uma opção aberta pelo mal. Assim, não faz parte da diversidade querida por Deus que existam cultores do mal, adoradores do demônio, destruidores da natureza, escravizadores do outro, cultores de pornografia, por exemplo, dentre tantas situações que existem no mundo. Não é desse tipo de diversidade, às vezes socialmente tolerado, que estamos tratando aqui. Tratamos daquela diversidade que marca a nossa incompletude, a nossa necessidade do outro, a natureza relacional do ser humano. Daquela diversidade que nos torna complementares, não adversários. Como diz São Paulo, nem todos são apóstolos, nem todos são profetas (1 Coríntios 12,29), mas todos precisam uns dos outros (12, 26).

Visitemos, agora, a resposta sintetizadora de Tomás neste belo tema.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Não havia uniformidade no paraíso, isto é, a diversidade é algo presente ali, como parte do próprio querer de Deus. Não é uma mera permissão divina que haja diversidade: naquilo que manifesta riqueza, interdependência, convite à relação, a diversidade é querida por Deus mesmo, e esteve presente antes do pecado. As diferenças entre nós não nascem apenas do pecado: existem diferenças naturais e existem diferenças circunstanciais (decorrentes do uso da liberdade) que não são defeitos, não são consequência da queda no pecado.

As diferenças de sexo e geração.

De fato, desde o início, Deus nos criou homens e mulheres. Há, aí, diferenças biológicas importantíssimas, que demandam a complementariedade, uma vez que a fecundidade esteve presente desde o princípio. A diferença sexual é uma marca de abertura à relação, de necessidade do outro, de riqueza na convivência dos diferentes. Isto tudo é querido por Deus.

Ora, se a diferença sexual é marcada pela fecundidade, isto significa que há outra diversidade desejada por Deus: nosso nascimento em tempos e lugares diferentes. Eu nasci há mais tempo, outro nasceu há menos tempo, um é gerador, outro é gerado.

Há, aí, a marca da riqueza da diversidade entre sexos e gerações, que faz nascer aquela que é a primeira e mais fundamental comunidade humana: a família, que pode ser descrita justamente como aquela relação de plena reciprocidade entre os sexos e as gerações. Vale dizer, tanto a diversidade sexual fecunda quanto o fato de existirem gerações são algo existente ali mesmo no paraíso.

As diferenças que decorrem da liberdade.

É fato que Deus nos fez dotados de inclinações, em especial de vontade, ou seja, da capacidade de eleger, com livre arbítrio, os fins contingentes e as ações capazes de nos conduzir a ele (de fato, o fim último, que é o próprio Deus, não está sujeito a escolha; de fato, escolher contra Deus é justamente o pecado, e foi justamente o que nossos primeiros pais fizeram).

Assim, no plano das criaturas, daquilo que não é necessário, mas apenas contingente, mesmo no paraíso havia a possibilidade de realizar escolhas, que conduziriam a consequências diversas. De fato, mesmo ali, o ser humano seria limitado por tempo e espaço, e teria que priorizar, que caminhar, que discernir entre várias opções igualmente interessantes quanto ao seu progresso, mas que são mutuamente excludentes. Alguns poderiam se dedicar, por exemplo, a contemplar os pássaros, enquanto outros poderiam estar interessados em descobrir os mares ou escalar montanhas; outros poderiam dedicar-se a uma vida de oração e meditação, outros ainda a perquirir a estrutura da realidade, desenvolvendo os conhecimentos científicos. Quem sabe alguns seriam exímios escultores, desenvolvendo suas habilidades artísticas, e outros desenvolveriam novos modos de construir casas mais confortáveis e agradáveis; outros, ainda, poderiam se dedicar a atender a necessidades de uns e de outros, distribuindo para uns os frutos do trabalho especializado de outros, de modo a não faltar nada a ninguém.

Com todo isso, certamente haveria diferença de conhecimentos, de habilidades, de sabedoria, de justiça, não por imperfeição, mas por limitação individual. E mais uma vez a convivência seria fomentada, porque, uma vez que, individualmente, não podemos abarcar todos os conhecimentos, todas as técnicas, toda a sabedoria, toda a justiça, precisamos uns dos outros. E assim nasceriam as cidades, as nações, e finalmente a política.

As diferenças físicas por diversidade cultural.

Por fim, também haveria diversidade na própria constituição física das pessoas, já que mesmo as relações necessárias entre os seres humanos e a natureza, também quanto à satisfação das necessidades fisiológicas, estariam marcadas pelos limites de tempo e espaço e pelas escolhas pessoais, sem que isto envolva nenhum defeito ou pecado. Certamente, por exemplo, os que fossem gerados de casais mais andarilhos teriam uma constituição física diversa daqueles gerados por casais cuja atividade fosse mais sedentária; aqueles nascidos de famílias mais dadas a determinados tipos de alimento teriam atributos diferentes daqueles que nascessem de famílias com outro tipo de alimentação, de tal modo que uns fossem mais robustos, outros mais delgados, outros ainda mais atarracados e outros mais altos. Nada disso, nenhuma diferença de tamanho, de compleição física, de capacidade atlética, ou mesmo de capacidade intelectual, resultante dos modos de viver e de construir a relação entre as necessidades humanas e os recursos naturais, decorre do pecado. Ou seja, também a diversidade cultural implicaria certa diversidade de constituição física, sem que o pecado estivesse envolvido.

3. Encerrando.

Diferenças que originam as famílias, a sociedade civil, a cultura, são riquezas, não são frutos do pecado, embora a sua configuração atual traga a marca da queda, como tudo aquilo que é humano. O fato é que essas realidades (a família, a cidade, a cultura) são boas em si, ainda que tragam acidentalmente a marca do pecado. Isso é diferente, por exemplo, das relações que nascem do próprio pecado, ou seja, das chamadas estruturas sociais do pecado (quadrilhas, associações criminosas, organizações satanistas, por exemplo), cuja essência é má, embora, acidentalmente, reflitam algum bem, consistente na dependência recíproca entre seus membros.

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.